Tarifaço ao Brasil: além do Brics, o que mais pode ter motivado Trump?
Trump, quando impôs tarifas ao Brasil, afirmou que eram motivadas por um comércio desleal e pela perseguição do sistema judicial a Bolsonaro
atualizado
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando impôs a tarifa de 50% ao Brasil, o fez baseado em dois argumentos: a suposta balança comercial injusta entre os EUA e o Brasil e o que ele chamou de perseguição do sistema judicial ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Apesar de a motivação política existir, os especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que o peso econômico de uma união entre os países do Brics pesa mais na decisão do republicano.
Desde a Cúpula do Brics no Rio de Janeiro, o foco tarifário de Donald Trump se voltou ao bloco, que reúne Brasil e parceiros como Rússia, China e Índia.
No encerramento da cúpula deste ano, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou sua defesa da adoção de meios alternativos ao dólar no comércio entre os membros do bloco. Países do Brics têm negociado, por exemplo, o uso de moedas locais no comércio internacional para reduzir a dependência da moeda norte-americana. Diante desse posicionamento, o republicano imediatamente postou que iria taxar em 10% todos os países do bloco.
Um dia após a fala de Lula (9/7), Trump taxou o Brasil em 50%. No dia 14 de julho, ele ameaçou taxar em 100% a Rússia. A China chegou a ser alvo de tarifas de 140%, que, após rodadas de negociação foram reduzidas, por enquanto, a 30%.
Tarifaço de Trump
- Desde a semana passada, Trump tem notificado oficialmente os países do mundo sobre a implementação de tarifas unilaterais na importação de produtos e bens. Com as cartas para México e UE, no sábado, 24 parceiros foram taxados, incluindo a União Europeia.
- O Brasil foi o mais atingido pela sanção comercial de Trump, com uma tarifa de 50%. O governo federal tem protestado e defendido a soberania nacional, mas também quer negociar com os norte-americanos.
- Trump ameaçou, no dia 14 de julho, taxar em 100% a Rússia.
- Todas as tarifas entram em vigor a partir de 1º de agosto.
Fator Brics X Fator Bolsonaro
Marcello Marin, mestre em governança corporativa, contador, administrador e especialista em recuperação judicial, destaca que Trump deve manter o “discurso duro”, pois ele tem usado tarifas como símbolo de força, e agora, reeleito, deve reforçar ainda mais a imagem de que está “enfrentando os Brics”.
“Trump não tem incentivo para recuar nesse momento — ele vê nas tarifas uma ferramenta para proteger o mercado interno e mandar um recado geopolítico. A resposta será retórica e politizada. Ele está “jogando para a torcida”, falando duro, dizendo que é ele quem manda, e dessa maneira a resposta é uma incógnita”, destaca Marcello Marin.
A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carolina Pedroso afirma que “sem dúvida a ação de Trump pode ser lida como um movimento de conter a ascensão de potências emergentes, especialmente o Brics, que é um bloco que fortalece a China, a principal rival da hegemonia representada pelos EUA”.
“Ele já falava dessa preocupação desde o 1º mandato, mas neste tem sido mais intenso nas ações. Portanto, não foi acidental o anúncio das tarifas ao Brasil no imediato encerramento da Cúpula dos Brics no Rio de Janeiro. Todas essas ações fazem parte da estratégia Maga (Make America Great Again), a partir da premissa de que uma das ameaças ao poderio estadunidense seria a existência de polos globais de poder alternativos”, revela a especialista.
Segundo Carolina, se o impacto desejado por Trump é conter as outras potências e gerar um resultado econômico positivo para os EUA, a estratégia não deve ser frutífera.
Ela explica que, caso nesse cálculo o republicano esteja embutindo recolocar o seu país como o indutor de movimentações políticas internacionais, ele está sendo bem-sucedido.
“Até agora não temos visto reações em conjunto sendo esboçadas, ao contrário, como as ações são unilaterais, as reações também têm sido. O contexto global de alta fragmentação acaba favorecendo a forma com que Trump vem impondo a sua agenda”, diz Carolina.
Para ela, não há mecanismos multilaterais fortalecidos para fazer frente a essas investidas. “Nem mesmo o mecanismo de solução de controvérsias da OMC tem sido acionado para conter os efeitos do tarifaço, as respostas variam, mas, no geral, são esboças internamente aos países, que até agora não têm se articulado entre si.”
A professora destaca que no caso do Bolsonaro, é bem menos importante, mas faz parte de uma preocupação mais ampla em garantir a hegemonia sobre o seu “quintal latino-americano”. Com o bolsonarismo no poder, diz a especialista, o Brasil foi muito mais subserviente aos interesses norte-americanos, não só na relação bilateral, mas principalmente nas arenas multilaterais.
Segundo Marcello Marin, Trump desde o começo do mandato está endurecendo as negociações com vários países. Ele entende tarifas como uma ferramenta de poder, e o Brasil, diferentemente da China, não tem volume econômico ou peso geopolítico para enfrentar uma guerra longa.
Carolina Pedroso explica que países do Brics terão reações distintas, porque a Rússia tem sido alvo, além das ameaças das tarifas, de sanções muito mais amplas e graves à sua economia, por conta da guerra com a Ucrânia. Ou seja, a economia russa já tem lidado com limitações e amarras mais substantivas, de forma que tem desenvolvido mecanismos para driblar e minimizar os efeitos adversos, mas, ao mesmo tempo, está mais vulnerável a outros ataques na esfera econômica.
Já com o Brasil, “a perda para os EUA é menos política e mais econômica, pois vai encarecer insumos importantes para seu mercado consumidor, como café, suco de laranja e carne”.
Negociações
Marcello Marin destaca que o envio da carta do Brasil aos EUA expressando indignação foi um movimento necessário.
“Em diplomacia, demonstrar indignação é uma forma de marcar posição política, mas o tom conciliador e aberto ao diálogo preserva o espaço para a negociação. O Brasil não pode se dar ao luxo de radicalizar contra os EUA, especialmente com Trump eleito”, diz. “Qualquer exagero vira munição política. Foi uma sinalização dura, mas inteligente. O efeito não podemos prever, o Trump está numa campanha grande contra os Brics, e usa argumentos muitas vezes descabidos.”
Segundo o especialista, na prática, o Brasil ainda não tem uma estratégia. “As ações são reativas, fragmentadas e sem coordenação interministerial clara.”
Marin afirmou que há falta de liderança política e técnica para estruturar uma resposta minimamente articulada, pois “o Itamaraty fala uma coisa, o Ministério da Fazenda outra, e o Planalto tenta apagar incêndio. Enquanto isso, os EUA agem com objetivo definido. Essa falta de coesão prejudica a imagem externa do Brasil e compromete qualquer possibilidade de negociação com peso”.
De acordo com Marin, o mais provável é que o Brasil corra atrás de exceções ou acordos bilaterais pontuais para aliviar o impacto em setores-chave. “Mas uma redução ampla de tarifas, será improvável no curto prazo. Se o governo brasileiro não agir rápido e de forma coordenada, a escalada vira o cenário-base”, destaca.


















