Starmer de saída: saiba por que Reino Unido terá 7º premiê em 10 anos
Renúncia de Keir Starmer amplia sequência de trocas no poder iniciada após o Brexit e expõe crise política duradoura

Após semanas resistindo à pressão interna e insistindo que permaneceria no cargo até o fim do mandato, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, anunciou nesta segunda-feira (22/6) que deixará o cargo. A decisão abre caminho para que o país tenha o sétimo chefe de governo em apenas dez anos.
A saída de Starmer ocorre às vésperas de um marco simbólico: nesta terça-feira (23/6), completam-se dez anos do referendo que aprovou a saída britânica da União Europeia, o Brexit.
Desde então, o Reino Unido atravessa uma sequência de crises políticas, econômicas e partidárias que provocaram uma rotatividade inédita em Downing Street.
Starmer permanecerá no cargo até que o Partido Trabalhista escolha um sucessor, processo que deve ser concluído até setembro.
De maioria histórica à renúncia
- A queda do premiê chama atenção porque ocorreu menos de dois anos após uma vitória considerada histórica dos trabalhistas.
- Nas eleições de julho de 2024, o Partido Trabalhista conquistou mais de 410 cadeiras na Câmara dos Comuns, superando com ampla margem o número necessário para governar sozinho.
- O resultado encerrou 14 anos de governos conservadores e foi interpretado como o retorno da estabilidade política após anos de turbulência.
- No sistema parlamentarista britânico, o eleitor não escolhe diretamente o primeiro-ministro.
- Os cidadãos elegem deputados, e o partido que conquista a maioria dos assentos forma o governo.
- Normalmente, o líder dessa legenda assume o comando do país.
- Ao contrário do que ocorre em muitos países europeus, Starmer não precisou negociar uma coalizão para chegar ao poder.
O que derrubou Starmer?
A principal promessa da campanha trabalhista era recuperar a economia britânica após anos de baixo crescimento. No entanto, os indicadores permaneceram estagnados durante o governo dele.
A situação se agravou quando o Executivo promoveu aumento de impostos e cortes em benefícios destinados a idosos, medidas que provocaram desgaste entre eleitores e parlamentares.
A imagem do governo também foi atingida por uma série de controvérsias.
Nos primeiros meses da gestão, a imprensa revelou que Starmer e integrantes do gabinete haviam aceitado presentes de financiadores do Partido Trabalhista, incluindo roupas de luxo, ingressos para eventos esportivos e shows.
Embora as doações fossem legais e declaradas, o episódio enfraqueceu a imagem cultivada pelo premiê.
Outro golpe veio com o chamado escândalo Mandelson. O governo foi criticado por nomear Peter Mandelson para a embaixada britânica nos Estados Unidos, mesmo diante de questionamentos sobre as ligações dele com o financista Jeffrey Epstein.
A polêmica resultou em demissões e alimentou críticas à capacidade de julgamento político de Starmer.
A situação tornou-se ainda mais delicada após as eleições locais de maio de 2026. O Partido Trabalhista sofreu derrotas expressivas na Inglaterra, Escócia e País de Gales, enquanto o partido anti-imigração Reform UK ampliou a influência.
A situação tornou-se praticamente irreversível após a volta de Andy Burnham ao Parlamento. Considerado um dos nomes mais populares do Partido Trabalhista, Burnham passou a ser visto como alternativa viável para substituir Starmer.
Os sete premiês da era pós-Brexit
A instabilidade política britânica começou após o referendo de 2016, quando 52% dos eleitores votaram pela saída da União Europeia.
Desde então, o país teve uma sucessão acelerada de líderes:
- David Cameron — renunciou após a vitória do Brexit;
- Theresa May — deixou o cargo após impasses para implementar a saída da União Europeia;
- Boris Johnson — caiu após uma série de escândalos políticos;
- Liz Truss — permaneceu apenas 44 dias no poder após provocar turbulência nos mercados;
- Rishi Sunak — perdeu as eleições de 2024;
- Keir Starmer — renunciou após 23 meses;
- e agora um novo líder trabalhista deverá assumir o governo.
Como será escolhido o sucessor?
A escolha ficará nas mãos do Partido Trabalhista.
Para concorrer à liderança, um candidato precisará reunir o apoio de pelo menos 20% da bancada trabalhista na Câmara dos Comuns — atualmente, cerca de 81 parlamentares.
Se apenas um nome atingir o número necessário de apoios, ele será declarado vencedor automaticamente. Caso haja mais de um candidato, a decisão caberá aos filiados e organizações vinculadas ao partido.








