Da tecnologia ao vinho: como a Rússia tenta banir o “Made in USA”

Rússia amplia afastamento dos EUA após sanções da guerra na Ucrânia e acelera autossuficiência econômica e controle digital interno

atualizado

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1 de 1 putin-x-madeinusajpg - Foto: Arte Metrópoles/Gui Prímola

A Rússia busca ser cada vez mais autossuficiente na tentativa de se manter firme diante das sanções causadas pela guerra contra a Ucrânia. Mais do que uma estratégia de sobrevivência, o país tenta ser cada vez mais independente dos Estados Unidos, construindo um ecossistema econômico e digital paralelo que desafia as regras do comércio global.

Esse movimento, no entanto, não começou com o conflito atual. Ele remonta ao início dos anos 2000, quando o presidente russo, Vladimir Putin, passou a defender a reconstrução da soberania econômica do país após o colapso da União Soviética.

À época, a Rússia ainda era fortemente dependente de capitais estrangeiros, importações industriais e do sistema financeiro ocidental.

De acordo com documento divulgado na quarta-feira (1º/4) pela Casa Branca, obtido pelo Metrópoles, a “questão russa” atingiu um novo patamar de complexidade.

O documento descreve uma economia que se desconectou quase totalmente do sistema ocidental, transformando retaliações políticas em leis de mercado agressivas.

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Putin e Trump no Alasca em agosto de 2025
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Encontro entre Putin e Trump
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Kremlin

Linha do tempo

  • Início dos esforços: Rússia buscou reduzir dependência de EUA e Ocidente desde os anos 2000, com foco em setores estratégicos.
  • Sanções de 2014: após a anexação da Crimeia, restrições ocidentais estimularam políticas de substituição de importações.
  • Conflito de 2022: invasão da Ucrânia intensificou sanções e acelerou esforços de autossuficiência econômica e financeira.
  • Agricultura e alimentos: investimentos em produção interna aumentaram índices de autossuficiência em sementes e matrizes de gado.
  • Indústria e tecnologia: crescimento de empresas estatais e programas de produção local de máquinas, equipamentos e vacinas veterinárias.
  • Desdolarização: comércio internacional passou a usar moedas alternativas, como yuan, para reduzir dependência do dólar.
  • Energia e recursos: expansão de exportações de gás e petróleo para parceiros estratégicos e novos mercados, incluindo Cuba.
  • Parcerias estratégicas: acordos com a China e outros aliados ajudam a driblar sanções e criar novos fluxos comerciais.

Vinho e pirataria “legal”

A guerra comercial envolvendo as potências de Vladimir Putin e Donald Trump também chegou às prateleiras de luxo. O paladar e o status foram transformados em armas políticas. O governo russo aumentou as tarifas de importação sobre o vinho americano de 12,5% para 25,0% e sobre bebidas destiladas para 20%.

Mais grave do que as taxas, entretanto, é o desrespeito à propriedade intelectual. O relatório denuncia que o Kremlin passou a “permitir a importação de marcas de bebidas alcoólicas premium sem o consentimento dos proprietários das marcas registradas”, dentro de um regime de importações paralelas que, na prática, legaliza a pirataria de marcas famosas “Made in USA” como forma de represália.

Fim do “Made in USA” e o desprezo à OMC

O relatório detalha um cenário em que o produto norte-americano é o alvo preferencial de sanções. O Decreto Governamental nº 1341, de agosto de 2025, consolidou tarifas que variam de 25% a 40% sobre diversos produtos industriais.

Até mesmo o setor automotivo sofre com barreiras desenhadas sob medida: carros com potência acima de 150 cv enfrentam impostos que podem chegar a US$ 10.478 por veículo.

Como a Rússia não produz veículos de alta potência, a medida é vista como um ataque direto aos fabricantes estrangeiros.

Segundo a Casa Branca, essas ações levam o país a uma trajetória que o afasta dos princípios da Organização Mundial do Comércio (OMC), entidade que regula as regras do comércio internacional e busca garantir concorrência justa entre os países.

 “Muro Digital” e soberania tecnológica

O ponto central da estratégia russa é o controle sobre o que o relatório chama de “cérebro” dos aparelhos eletrônicos. Não se trata apenas de taxar o produto americano, mas de substituí-lo internamente.

Desde dezembro de 2019, a Rússia exige a pré-instalação de software russo (por exemplo, mecanismos de busca, como o navegador Yandex e a plataforma de mensagens digitais russa MAX) em determinados produtos eletrônicos de consumo.

Em 2025, essa política foi elevada à posição de prioridade nacional, com o plano estratégico enfatizando uma mudança “em direção à soberania tecnológica e à construção de capacidades tecnológicas e industriais independentes”, de acordo com o documento.

Para quem insiste no software estrangeiro, o custo é punitivo. Conforme aponta o documento, o uso de programas não russos pode ser “automaticamente 20% maior”, já que apenas os produtos locais estão isentos de certos impostos no Registro Unificado de Software Russo.

Embargo agrícola sem prazo para acabar

Na mesa do cidadão comum, o bloqueio iniciado em 2014 continua a ser expandido. Em setembro de 2024, a proibição de importar carnes, frutas e vegetais foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026.

Os Estados Unidos acusam Moscou de manter padrões de segurança alimentar “sem uma justificativa científica aparente”, utilizando “tolerância zero” para substâncias comuns na indústria americana apenas para impedir o acesso ao mercado.

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