Ruanda relembra os 32 anos do genocídio que ainda marca o país
Em 1994, quase 1 milhão de ruandeses morreram durante genocídio que durou 100 dias, mas ainda reflete na história recente do país
atualizado
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Ruanda relembra, nesta semana, um dos episódios mais sangrentos da história da nação africana: o genocídio contra os tútsis, onde entre 800 mil e 1 milhão de pessoas foram mortas no período de 100 dias.
O plano de fundo do genocídio
- As tensões étnicas foram o principal plano de fundo para o genocídio em Ruanda.
- No país, cerca de 85% da população pertence a etnia hutu. Apesar disso, a minoria tútsi dominou Ruanda durante a colonização da Alemanha, e posteriormente da Bélgica.
- Em 1959, contudo, hutus derrubaram o então governo monarquista liderado por tútsis. O episódio provocou uma fuga em massa de tútsis para países vizinhos, como Uganda.
- Na época, o grupo rebelde Frente Patriótica de Ruanda (RPF), composto por tútsis, foi formado para tentar combater o governo agora liderado pelos hutus.
- Em 1990, RPF invadiu Ruanda, e uma guerra foi iniciada. O objetivo era garantir que tútsis voltassem a ter direitos no país. Um acordo de paz foi estabelecido em 1993 entre os lados envolvidos no conflito.
- Mas no ano seguinte, o atentado contra o avião do então presidente do país, Juvénal Habyarimana, da etnia hutu, deu início ao genocídio que matou quase 1 milhão de pessoas.
A tensão étnica entre hutus e tútsis, que se arrastava desde o início da guerra civil no país no começo da década de 1990, explodiu em 6 de abril de 1994. Naquele dia, o avião do então presidente de Ruanda, Juvénal Habyarimana, da etnia hutu, foi derrubado por um míssil quando chegava ao Aeroporto Internacional de Kigali.
O ex-presidente fazia parte da etnia hutus, e comandou Ruanda por 20 anos, sob acusações de favorecer seu grupo étnico.
Depois da morte de Habyarimana, cujos autores seguem desconhecidos, hutus passaram a acusar a minoria tútsi — representados pela Frente Patriótica de Ruanda (FPR) — de serem os responsáveis pela ação.
Os massacres começaram no dia seguinte, 7 de abril, e partiram não só de forças militares, mas também de milícias formadas por civis hutus. Eles receberam armas como facões, além de listas com dados sobre tútsis que integravam a oposição ao governo de Habyarimana, como nomes e endereços.
Além de tútsis, hutus moderados e os tuás, outros grupo étnico que compõem o país, também foram alvos do genocídio. Muitas das vítimas foram mortas em suas próprias casas ou nas aldeias em que viviam entre 7 de abril e 19 de junho de 1994.
Em resposta, a Frente Patriótica de Ruanda (FPR) iniciou uma ofensiva contra forças governamentais, resultando na queda da então administração liderada por hutus desde o fim da década de 1950. O líder da organização, Paul Kagame, se tornaria o presidente do país em 2000, e segue no cargo até então.

Na época, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Bélgica manterem forças de segurança no país, mas não receberam um mandato para interferir no genocídio.
Em conversa com o Metrópoles, o embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, afirma que a apesar de a comunidade internacional ter virado as costas para o caso, “deixando Ruanda enfrentar sozinha sua hora mais sombria”, o país tenta usar o passado como forma de não repetir erros no futuro.
“Ao celebrarmos a 32ª Comemoração do Genocídio de 1994 contra os Tutsi, recordamos as milhares de vidas perdidas durante os 100 dias do genocídio, mas também mostramos uma nação que escolheu unir-se em vez de se fragmentar”, disse.
O embaixador diz que a história de Ruanda mostra que até mesmo as situações mais terríveis podem ser revertidas “através da resiliência do povo e de uma liderança intencional com um compromisso de renovação, transformamos um país destruído em uma sociedade estável, reconciliada e próspera”, disse.
Manzi diz ainda que a longa jornada de recuperação de Ruanda prova ao mundo que, “quando um povo assume sua história e decide reconstruir suas próprias vidas, nenhum patamar de progresso está fora de alcance”, diz.
Por isso, todos os anos Ruanda promove a Kwibuka — que na língua nacional do país significa “lembrar”. O chamado busca homenagear as vítimas do genocídio, e promover uma reflexão sobre o episódio.
No Brasil, a embaixada de Ruanda promoverá dois eventos da Kwibuka na terça-feira (7/4). O primeiro deles será realizado na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), às 9h, com uma sessão solene. Já durante a noite, está prevista uma iluminação especial na Catedral Metropolitana de Brasília, como símbolo de solidariedade às vítimas.
“Este é o terceiro Kwibuka no Brasil e a Embaixada de Ruanda no Brasil agradece ao povo brasileiro e ao corpo diplomático que se solidarizaram com Ruanda”, afirma Lawrence Manzi.
Consequências no presente
Apesar de Ruanda buscar se recuperar do episódio, o genocídio contra os tútsis em 1994 continuou influenciando a história do país, assim como de seu vizinho, a República Democrática do Congo (RDC).
Depois da FRP assumir o controle do governo, parte dos hutus que viviam em Ruanda fugiram para a RDC, na tentativa de evitar possíveis retaliações. Com isso, os dois países se envolveram em uma guerra envolvendo disputas territoriais e questões étnicas relacionadas ao genocídio que ficou marcado na história da África.
Acusado de abrigar milícias de hutus que participaram do genocídio, a República Democrática do Congo (RDC) foi invadida por Ruanda em duas ocasiões: 1996 e 1998. Nos anos seguintes, incursões ruandesas ocasionais continuaram sendo registradas no território congolês.
Além disso, a administração de Paul Kagame também foi apontado como o principal financiador de grupos de tútsis no país vizinho, como a organização M23, que chegou a controlar partes do leste da RDC. Kigali nega as acusações.
Os dois países chegaram a um acordo de paz em junho de 2025. O pacto foi mediado pelos governos dos Estados Unidos e Catar.
