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Os dois principais rivais de Andrés Manuel López Obrador nas eleições presidenciais do México admitiram a vitória do esquerdista nas eleições deste domingo (1º/7). Uma pesquisa de boca de urna indica que o candidato do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) foi eleito com 43% a 49% dos votos.

Ricardo Anaya, do Partido da Ação Nacional (PAN), obteve entre 23% e 27%, enquanto José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), ficou com 22% a 26%, segundo o mesmo levantamento, feito pelo Instituto Mitofsky. Logo após a divulgação dos dados, Meade e Anaya reconheceram a vitória de López Obrador. O resultado do pleito deve ser conhecido nesta segunda-feira (2).

O partido do esquerdista Andrés Manuel López Obrador conquistou os governos da Cidade do México e dos estados de Chiapas, Morelos, Tabasco e Veracruz, ainda conforme as primeiras pesquisas após o fechamento das urnas. A administração de oito governos estaduais e da capital estava em disputa.

A Cidade do México deve ser governada por Claudia Sheinbaum, do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), partido fundado por Obrador. Ela seria a primeira mulher a administrar a cidade, que há 21 anos está nas mãos do também esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD), legenda pela qual Obrador disputou a eleição presidencial em 2006 e 2012 e perdeu.

O México teve neste domingo as maiores eleições de sua história. Ao todo, além do presidente, 128 senadores, 500 deputados federais, 972 deputados estaduais, 8 governadores, mais de 1.500 prefeitos e milhares de vereadores foram eleitos. Segundo o balanço final do Instituto Nacional Eleitoral (INE), 48 candidatos ou pré-candidatos foram assassinados, além de 145 políticos mortos. Quase um terço dos 17.662 candidatos abandonou a disputa, marcada pela violência.

Os partidos mexicanos tiveram de correr para substituir 5.703 candidatos, ou 31% do total, que desistiram da eleição em vários níveis. De acordo com as autoridades eleitorais, a maioria preferiu renunciar às candidaturas sem dar razões específicas. No entanto, quem se justificou alegou violência, insegurança e ameaças de morte.

Existem várias razões para o aumento sem precedentes na violência política. O processo eleitoral, que começou em setembro com as prévias, nunca havia sido tão longo: sete meses. Além disso, esta foi a primeira eleição após a reforma eleitoral de 2014, que permitiu candidaturas independentes e instituiu a reeleição de cargos legislativos e prefeituras.

Violência e impunidade
Segundo o cientista político José Fernández Santillán, especializado em temas eleitorais, a reforma transformou o velho Instituto Federal Eleitoral (IFE) em Instituto Nacional Eleitoral (INE). Na prática, o novo órgão assumiu as funções que antes eram exclusivas de autoridades locais. Com isso, o cenário eleitoral foi modificado, para unificar os processos estaduais e federais – muitos governadores tiveram o mandato encurtado.

“O pior da reforma, no entanto, foi mesmo ter tornado o processo eleitoral longo demais”, disse Santillán. “Foi uma tortura. E as vítimas fomos nós, cidadãos, que aturamos sete meses de inserções comerciais desde setembro, quando começou a pré-campanha.”

Carlos Flores Pérez, analista do Centro de Pesquisas e Estudos de Antropologia Social (Ciesas), é mais direto. De acordo com ele, a principal razão da violência é a impunidade. “Nunca se matou tanto político como agora porque as instituições mexicanas se deterioraram. A impunidade permite que os criminosos intensifiquem suas ações diante da certeza de que nada vai acontecer”, disse.

Foram cinco meses de pré-campanha, em que os candidatos disputavam vagas dentro dos partidos. Depois, foram mais 45 dias de intercampanha, para que as disputas internas fossem resolvidas antes de a campanha começar oficialmente.

O resultado foi que, nos últimos dez meses, os mexicanos foram submetidos a 60 milhões de inserções comerciais de rádio e TV. Para muitos analistas, o maior efeito da enxurrada de inserções comerciais, muitas delas repetitivas, é ter saturado os eleitores e aumentado a rejeição dos mexicanos à política e aos partidos.

Gastos
A eleição mexicana, além de ter sido marcada pela violência, também foi a mais cara. O governo estima que gastou US$ 1,2 bilhão para organizar o processo, entre pagamento de funcionários, impressão de cédulas e fundo partidário. Ao todo, os mais de 15 mil candidatos, segundo o INE, gastaram cerca de US$ 100 milhões, dos quais US$ 35 milhões foram consumidos na disputa presidencial.

Para o ONG Mexicanos Contra a Corrupção, esses números são apenas a ponta do iceberg. Segundo relatório elaborado por cientistas políticos e economistas, em maio, para cada peso gasto legalmente na campanha, outros 15 entraram de forma ilegal.