Morre Claudette Colvin, que negou lugar a brancos em ônibus nos EUA
Colvin foi presa por violar as leis de segregação em ônibus, meses antes de Rosa Parks, que ficou mundialmente conhecida por repetir tal ato
atualizado
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Um dos símbolos de resistência contra o racismo morreu, aos 86 anos, nos Estados Unidos. Claudette Colvin foi a primeira pessoa a ser presa por desafiar as leis segregacionistas dos ônibus de Montgomery, no Alabama, por se recusar, aos 15 anos, a ceder lugar a brancos.
A notícia da morte foi divulgada por sua fundação, nessa terça-feira (14/1). “É com profunda tristeza que a Fundação Claudette Colvin e sua família anunciam o falecimento de Claudette Colvin, uma amada mãe, avó e pioneira dos direitos civis. Ela deixa um legado de coragem, que ajudou a mudar o curso da história americana”, destacou.
A causa da morte não foi divulgada.
Em 2 de março de 1955, Colvin foi presa por violar as leis de segregação em ônibus, nove meses antes de Rosa Parks, que ficou mundialmente conhecida por repetir tal ato.
“Para nós, ela era mais do que uma figura histórica. Ela era o coração da nossa família, sábia, resiliente e firme na fé. Guardaremos na memória seu riso, sua sagacidade e sua crença inabalável na justiça e na dignidade humana. Somos gratos pelo amor e respeito demonstrados a ela ao longo de sua vida”, finalizou.
Os detalhes sobre as cerimônias de homenagem serão divulgados posteriormente pela Fundação Claudette Colvin.
Luta contra a segregação racial
Em rara entrevista, Colvin relatou à britânica BBC como a prisão ocorreu à época. Segundo suas próprias palavras, naquele dia, ela e suas amigas foram liberadas da escola um pouco mais cedo, quando resolveram pegar um ônibus.
“As pessoas brancas sempre se sentavam nos assentos da frente, e os negros, atrás. O motorista do ônibus tinha autoridade para designar quem sentava onde, e quando mais brancos entravam no ônibus, ele pedia os assentos (dos negros)”, contou.
As amigas estavam sentadas em uma fileira um pouco atrás da metade do veículo — duas à esquerda, duas à direita —, e uma passageira branca estava de pé no corredor. O motorista, então, disse para que todas elas se deslocassem para a traseira do ônibus, para que a mulher pudesse se sentar.
“Ele queria que eu saísse do meu assento por conta de uma mulher branca, e eu teria concordado se fosse uma idosa, mas, no caso, era uma mulher jovem. Minhas amigas levantaram relutantemente, mas eu fiquei sentada no assento da janela”, contou.
Contudo, a mulher branca ainda não poderia se sentar, já que brancos e negros não podiam compartilhar a mesma fileira de assentos. Mas Colvin disse ao motorista que pagou a passagem e era seu direito constitucional permanecer onde estava.
“Sempre que me perguntam por que não levantei quando o motorista me pediu, digo que senti como se as mãos de Harriet Tubman estivessem me empurrando em um ombro e as mãos de Sojourner Truth, no outro. Me senti inspirada por essas mulheres, porque havia aprendido sobre elas em detalhes”, afirmou. “Não estava com medo, mas chateada e com raiva porque sabia que eu estava sentada no assento correto.”
O motorista continuou dirigindo, mas parou ao avistar um carro de polícia. Dois policiais subiram no ônibus e perguntaram a Colvin por que ela não havia se levantado. “Eu fiquei ainda mais desafiadora, e então eles empurraram os livros que estavam no meu colo, e um deles me segurou pelo braço e me colocou na viatura. Lembro que eles pediram que eu esticasse os meus braços para me algemar.”
Em vez de ser levada para um centro de detenção juvenil devido à pouca idade, Colvin foi detida em uma prisão de adultos e liberada horas depois, após a mãe e um pastor da sua igreja comparecerem ao local pedindo sua soltura. Após a prisão, ela foi colocada sob a tutela do Estado e em liberdade condicional por tempo indeterminado.
