Itamaraty busca paradeiro de brasileiro que pediu ajuda no Afeganistão

O homem, que vive temporariamente no país, acionou cônsul honorário brasileiro por meio de mensagens de texto, mas ainda não foi encontrado

atualizado 19/08/2021 20:07

Olyntho VieiraRoque de Sá/Agência Senado

O Itamaraty tenta descobrir qual o paradeiro de um homem brasileiro que vive temporariamente no Afeganistão e pediu assistência consular para sair do país, tomado pelo Talibã desde o último domingo (15/8).

Olyntho Vieira, embaixador do Brasil responsável pelo Paquistão, Afeganistão e Tajiquistão, confirmou a informação em entrevista ao jornal Estadão, mas por segurança preferiu não identificar o brasileiro.

Vieira conta que o homem entrou em contato com o plantão consular por meio de mensagem de texto. Apesar de ter tido uma troca de mensagens, eles ainda não conseguiram localizá-lo.

“Houve uma troca de mensagens, pedimos mais informações, mas ele certamente está com dificuldade de comunicação. Conforme ele for dizendo mais coisas, vamos tentando saber mais e, se chegar a esse momento, pensamos em como vamos fazer para retirá-lo do país”, relatou.

Além dele, Olyntho Vieira revela que outra brasileira conseguiu sair do Afeganistão com ajuda da Argentina.

A mulher, que tem dois filhos e é casada com um argentino que trabalhava em uma ONG, foi para o Uzbequistão com a família. “Houve uma movimentação diplomática, mas não sei dizer como eles saíram do Afeganistão. Os argentinos cuidaram de tudo”, conta o embaixador.

Vieira também revela que não há “uma embaixada propriamente dita” instalada no Afeganistão. “Tivemos um cônsul honorário, mas nunca tive contato com ele, nunca fui procurado”, conta. O Brasil só conta com outros dois servidores de Brasília e um quadro de funcionários locais.

Tomada do poder pelo Talibã

O embaixador relata que está em Islamabad, capital do Paquistão, há pouco mais de um ano e que ainda não teve a oportunidade ir a Cabul. “As restrições de viagem por causa da Covid-19 são muito fortes”, diz ele.

Olyntho Vieira afirma que “o momento é muito mais tenso do que intenso”. Segundo ele, apesar da distância, a tomada do grupo Talibã é “a preocupação que existe no país”, já que as nações são próximas e “as relações sempre foram complexas”.

O embaixador relevou que Imran Khan, primeiro-ministro do Paquistão, declarou “que vai respeitar a decisão do povo afegão”. O país, que ainda não tem nenhuma intenção oficial de interferir no Afeganistão, afirmou que não irá permitir instalações de bases estrangeiras para atacar o país vizinho e que não admitirá a criação de bases para atacar o Paquistão.

Vieira disse que a invasão ocorreu com muita rapidez por causa da falta de resistência. “Por que não houve resistência? Seria muito ingênuo dizer que as pessoas estavam todas cooptadas pelo movimento. Acho que não. Mas, por outro lado, talvez nunca estivessem totalmente convencidas da presença ocidental no país”, questiona ele.

O embaixador diz que “a presença do invasor, ainda que você conviva ele por vários motivos, inclusive pela vontade de permanecer vivo, nunca é totalmente assimilada” e que “faz sentido” a afirmação de um porta-voz do Talibã, que dizia que a população sempre esteve com eles.

A resposta de Vieira faz referência à indagação de Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro morto em um atentado a bomba no Iraque em 2003: “Como você reagiria se, de repente, abrisse a janela pela manhã e visse tropas estrangeiras na avenida em Copacabana?”.

Ele afirma que nunca falou com o Talibã, mas que já houve contatos entre delegações no Paquistão. Ele também diz que “nunca soube de contatos com embaixadas”.

Olyntho Vieira, entretanto, certifica que um ataque militar não é a maior preocupação do Paquistão e que o preparo para reagir a um ataque é praticamente o mesmo que o Brasil. “Existe intercâmbio e interesse comercial, mas ainda há desconhecimento de um país e do outro”, relata.

Questionado sobre a frota de aviões militares Super Tucano, da Embraer, e que havia sido comprada pelos americanos para formar a Força Aérea Afegã, o embaixador revela que a maioria foi para o Uzbequistão, mas que um jornal local do Paquistão exibiu foto de um grupo Talibã diante um Super Tucano.

Apesar de saber que existe algumas dessas aeronaves no Afeganistão, não se sabe o paradeiro das demais. A especulação é que o movimento não teria pilotos.

“Mesmo que tenham acesso, são equipamentos extremamente sofisticados, e você pode transformá-los em inúteis se a parte de aviônica deixar de funcionar. Eles teriam como pilotar? Teriam mísseis para equipar os aviões? Teriam acesso ao software para fazer o avião funcionar? Hoje são perguntas que ninguém é capaz de responder”, afirma ele.

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