França tem fim de onda de calor intensa, mas segue em alerta sanitário
As temperaturas começaram a recuar em grande parte da França, mas o sistema de saúde permanece em alerta

Embora as temperaturas tenham começado a cair na maior parte da França nesta segunda-feira (29/6), o sistema de saúde do país segue em alerta máximo. O recuo ocorre após uma histórica onda de calor de 11 dias que já causou mais de 1.300 mortes na Europa, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O serviço nacional de meteorologia confirmou o fim do alerta vermelho, e classificou o episódio como o mais intenso já registrado no país.
Um caso ilustra a gravidade da situação. Um jovem de 25 anos morreu após sofrer hipertermia dentro de um bonde em uma localidade próxima de Estrasburgo, na região da Alsácia (leste). Ele foi socorrido em parada cardiorrespiratória, reanimado e levado ao hospital, mas não resistiu e morreu durante a madrugada. Diante da idade da vítima, a Justiça pediu uma autópsia. Somente no sábado (27), os bombeiros realizaram cerca de 350 atendimentos na região, o dobro de um dia normal.
Apesar da melhora nas temperaturas, 22 departamentos franceses continuam sob alerta laranja para onda de calor, o terceiro nível em uma escala de quatro, que indica risco significativo e exige atenção da população e das autoridades. Além disso, há previsão de tempestades e instabilidade atmosférica.
O domingo (28/6) ainda foi marcado por calor extremo em várias regiões: os termômetros chegaram a 41,1°C em Vidauban e 40,4°C em Le Luc, no sul da França, no departamento do Var, área próxima ao Mediterrâneo e a destinos turísticos como a Côte d’Azur. Já em Tencin, no leste do país, perto dos Alpes, na região de Grenoble, a temperatura atingiu 38,4°C.
A diversidade geográfica desses registros mostra a dimensão da onda de calor, que atinge tanto áreas costeiras, tradicionalmente quentes, quanto regiões próximas às montanhas, onde as temperaturas costumam ser mais amenas.
Aumenta o número de mortos
O impacto na saúde já é relevante. A agência estatal de saúde estima cerca de 1.000 mortes a mais desde que a onda de calor ganhou força – um número ainda provisório, que deve subir à medida que os dados forem consolidados. Esse excesso de mortalidade preocupa sobretudo entre idosos, mas não se restringe a eles: também aparece em adultos mais jovens, especialmente em casos de parada cardíaca ou de insolação grave.
Nos hospitais, a pressão continua alta. Desde 18 de junho, o número de atendimentos cresceu cerca de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. As chamadas ao SAMU seguem bem acima da média, embora as autoridades afirmem que, por enquanto, o sistema ainda consegue dar conta da demanda.
“Estamos vendo um aumento muito expressivo nas ligações para emergência”, disse Agnès Ricard-Hibon, porta-voz do sindicato de médicos de emergência SUDF, à rádio RTL, ao pedir que pessoas com sintomas liguem para serem orientadas. Apesar da pressão sobre as equipes, ela descarta colapso: “Os profissionais estão sob muita pressão, mas o SAMU não chegou a um ponto de ruptura e opera hoje com um nível de atividade cerca de 50% a 60% acima do normal.”
Os médicos também chamam atenção para um efeito menos imediato da onda de calor. Parte dos pacientes pode chegar aos hospitais nos próximos dias já com falência de órgãos. “O corpo até consegue se adaptar nos primeiros dias, mas, depois de um tempo, essa capacidade se esgota”, explicou Ricard-Hibon. “Cérebro, coração, fígado, rins começam a falhar”, o que torna os quadros “muito mais difíceis” de tratar.
Diante desse cenário, médicos reforçam medidas básicas de prevenção: ao surgirem sintomas como dor de cabeça, tontura, confusão mental, náuseas ou vômitos, a orientação é buscar atendimento o quanto antes – na França, o número de emergência é o 15.
Para evitar sobrecarga nos hospitais, especialistas também defendem o adiamento de cirurgias não urgentes, liberando leitos em um momento de alta demanda.
No plano político, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu reúne nesta segunda-feira representantes de diferentes órgãos do governo em uma reunião de emergência para avaliar a situação e definir medidas. A ideia é preparar o país para novos episódios extremos, já que outros picos de calor não estão descartados nas próximas semanas.
A onda atual também reacende a memória de 2003, quando cerca de 15 mil pessoas morreram no país. Embora o calor de agora já seja considerado mais intenso em termos climáticos, autoridades afirmam que a França está mais preparada hoje, graças aos sistemas de alerta que foram adotados e às medidas de proteção voltadas à população idosa, a mais vulnerável nesse tipo de evento.
Situação na Europa
As temperaturas elevadas afetam outros países no continente. Em toda a Europa, o fenômeno já causou mais de 1.300 mortes acima do normal desde 21 de junho, segundo a Organização Mundial da Saúde.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou para a gravidade da situação: “Atualmente, 150 milhões de pessoas estão vivendo em condições de calor extremo, centenas morreram, escolas estão fechadas e as redes elétricas estão sob forte pressão.”
O calor extremo se desloca agora para o leste europeu, mantendo temperaturas superiores a 35°C. Estimativas indicam que dezenas de milhões de pessoas continuam expostas a condições perigosas, enquanto sistemas de saúde e infraestrutura seguem sob forte pressão.
Os recordes de temperatura se multiplicam. A Alemanha registrou máximas superiores a 41°C, enquanto a Dinamarca atingiu 37°C, a maior temperatura já medida no país. Na República Tcheca, os termômetros também ultrapassaram os 40°C, igualmente um recorde histórico.
Na Polônia, o calor extremo provocou atrasos e cancelamentos no transporte ferroviário, enquanto cidades como Berlim recorreram até a canhões de água para refrescar a população. Eventos culturais e esportivos foram cancelados em diversas regiões, enquanto bombeiros e serviços de emergência registraram níveis inéditos de chamadas.
Cientistas apontam que a intensidade e a precocidade desta onda de calor estão diretamente associadas às mudanças climáticas, tornando episódios antes raros cada vez mais frequentes. Mesmo com a queda das temperaturas no oeste europeu, especialistas alertam que os efeitos sanitários e sociais do calor extremo ainda devem se prolongar e que o continente precisará se adaptar rapidamente a uma nova realidade climática.
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