Festa dos 250 anos de independência dos EUA é "sequestrada" por Trump
Aniversário da independência é marcado por denúncias de uso político, suspeitas de corrupção e país dividido sob a Era Trump 2.0

Os Estados Unidos completam 250 anos de independência neste sábado (4/7), em um aniversário envolto por polarização política, inúmeras denúncias de uso da máquina pública e disputas sobre o significado da identidade norte-americana.
Originalmente planejada como uma celebração apartidária da história estadunidense, a programação do tradicional feriado tornou-se alvo de uma investigação conduzida por democratas no Congresso, que acusam o presidente Donald Trump de transformar as comemorações em um instrumento de promoção política, arrecadação de recursos e fortalecimento de sua agenda ideológica.
O relatório intitulado “Da Vaidade à Loucura: Como a Casa Branca Enganou o Povo Americano em Seu 250º Aniversário”, divulgado na quinta-feira (3/7) pela equipe democrata da Subcomissão de Supervisão e Investigações do Comitê de Recursos Naturais da Câmara dos Representantes, sustenta que a Casa Branca promoveu uma “tomada hostil” das celebrações nacionais por meio da organização Freedom 250, criada durante o governo Trump.
Segundo os autores, a estrutura criada para celebrar os 250 anos da independência foi convertida em um aparato político voltado ao fortalecimento da imagem do presidente, ao favorecimento de aliados e à disseminação de uma narrativa nacionalista cristã.
“Sob a presidência de Donald Trump, este aniversário foi sequestrado e pervertido, transformando-se em um foco de corrupção e enriquecimento ilícito”, afirma o relatório.
Da America250 à Freedom 250
- O Congresso norte-americano havia criado, ainda em 2016, a America250, uma comissão apartidária encarregada de organizar as celebrações do aniversário da independência.
- De acordo com a investigação, a relação entre a Casa Branca e a comissão deteriorou-se quando seus dirigentes resistiram às tentativas do governo de transformar os eventos em grandes espetáculos políticos inspirados em comícios eleitorais.
- Em resposta, Trump lançou a Freedom 250, vinculada à National Park Foundation (NPF).
- Embora formalmente seja apresentada como uma parceria público-privada, democratas afirmam que a organização passou a operar sob influência direta da Casa Branca, sem os mesmos mecanismos de fiscalização aplicados à America250.
- O relatório afirma que integrantes da campanha de Trump assumiram posições estratégicas dentro da fundação, permitindo que recursos públicos, contratos e patrocinadores migrassem para a nova estrutura.
Acusações de corrupção e fraude
A investigação lista uma série de supostas irregularidades. Entre elas, está o desvio de recursos que, segundo os democratas, deveria financiar a America250.
O Congresso destinou US$ 150 milhões para as celebrações do aniversário da independência, mas o relatório afirma que apenas US$ 25 milhões chegaram à comissão originalmente criada para organizar os eventos, enquanto dezenas de milhões foram direcionados à National Park Foundation, responsável pela Freedom 250.
Os investigadores também apontam possíveis casos de fraude na captação de doações.
Segundo o documento, empresas e patrocinadores interessados em apoiar a America250 teriam recebido, sem perceber, dados bancários da Freedom 250, direcionando recursos para a organização ligada ao governo Trump.
Outra frente de críticas envolve a venda de acesso privilegiado ao presidente. A investigação afirma que a Freedom 250 ofereceu cotas de patrocínio que variavam entre US$ 500 mil e mais de US$ 10 milhões, incluindo como benefício encontros e oportunidades de fotografias com Trump.
Eventos e contratos
O relatório também questiona contratos públicos concedidos à empresa Event Strategies, responsável pela organização do comício realizado por Trump antes da invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
Segundo os democratas, a empresa recebeu dezenas de contratos federais relacionados às comemorações, que podem alcançar US$ 100 milhões.
Outra preocupação envolve a coleta de dados dos visitantes dos eventos oficiais.
De acordo com o documento, cadastros realizados para participação em atrações da Freedom 250 eram processados por uma plataforma criada por Brad Parscale, ex-chefe das campanhas digitais de Trump, capaz de utilizar inteligência artificial para segmentação de eleitores.
Os investigadores afirmam que visitantes da Fan Zone da Copa do Mundo, instalada no National Mall, poderiam fornecer informações pessoais sem saber que seus dados seriam processados por estruturas ligadas ao universo político republicano.
Disputa sobre a narrativa histórica
Entre as iniciativas criticadas estão os chamados Freedom Trucks, museus itinerantes abastecidos com conteúdo produzido por organizações conservadoras como a PragerU e o Hillsdale College. As exposições apresentam a fundação dos Estados Unidos como um projeto essencialmente cristão e utilizam vídeos gerados por inteligência artificial para narrar episódios históricos.
O relatório também afirma que o governo retirou de parques nacionais materiais educativos relacionados à escravidão, ao deslocamento forçado de povos indígenas e às mudanças climáticas.
Para o deputado Jared Huffman, principal democrata do Comitê de Recursos Naturais, trata-se de uma tentativa de reescrever a história americana.
“Em todo o meu tempo no Congresso, não me lembro de nada sequer remotamente parecido com isso”, afirmou o parlamentar. “Transformaram uma celebração nacional em algo que gira em torno de Trump.”
A Freedom 250 rejeitou todas as acusações.
Em nota enviada à imprensa americana, a porta-voz da organização, Danielle Alvarez, classificou o relatório como uma “difamação partidária” e afirmou que todas as alegações são “categoricamente falsas”.
Segundo ela, os patrocinadores sempre foram informados sobre qual organização receberia os recursos e nenhuma verba federal foi desviada da America250.
A organização também sustenta que presidentes americanos, tradicionalmente, desempenham papel central nas comemorações de aniversários históricos do país.
Celebração ocorre sob calor extremo
Enquanto a disputa política domina as comemorações, uma intensa onda de calor também interfere na programação.
Mais de 110 milhões de americanos estão sob risco de calor extremo, segundo o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos. Em cidades como Filadélfia e Nova York, as temperaturas podem se aproximar dos 40°C.
No fim da noite dessa sexta-feira (3/7), foi anunciado o cancelamento do Desfile Nacional do Dia da Independência. O evento, que seria realizado nas proximidades do National Mall, foi suspenso devido à intensa onda de calor que atinge Washington.
Apesar disso, a Freedom 250 manteve sua programação, que inclui a Fan Zone da Copa do Mundo no National Mall, a Grande Feira Estadual Americana, um grande espetáculo de fogos de artifício em Washington, cerimônias militares, apresentações culturais e um discurso de Trump.
O presidente chegou a brincar com as condições climáticas ao comentar o evento.
“Aliás, no dia 4 de julho, a temperatura deve chegar a cerca de 42°C, e eu vou lá fazer um discurso realmente muito longo só para mostrar que consigo fazer qualquer coisa”, disse.








