Entenda por que grandes protestos estudantis tomaram conta da França
Mobilização começou por falta de professores e recursos, mas cresceu com violência, repressão policial e críticas ao governo da França
06/10/2026 16:03, atualizado 06/10/2026 16:07

A França enfrenta uma das maiores ondas de protestos estudantis das últimas décadas. O movimento liderado por jovens franceses, que começou em uma escola de ensino médio nos arredores de Paris por reivindicações relacionadas à falta de professores e recursos, se espalhou pelo país e passou a envolver milhares de estudantes, professores e forças de segurança.
Centenas de escolas foram fechadas ou tiveram as atividades afetadas desde o início das mobilizações. Mais de 5 mil pessoas foram detidas durante os protestos, segundo os dados reunidos pelas autoridades, em sua maioria adolescentes sem antecedentes criminais.
A escalada também deixou feridos. Em Lens, no nordeste da França, um estudante perdeu uma das mãos, segundo relatos, após manusear uma granada.
Já em Tours, outro jovem perdeu a visão de um olho. Professores e policiais também ficaram feridos durante os confrontos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesComo os protestos começaram?
- A mobilização teve origem em 21 de setembro, em uma escola de ensino médio na região metropolitana de Paris.
- Estudantes se juntaram a professores em uma manifestação contra a falta de funcionários e de recursos para manter o funcionamento adequado da instituição.
- A escola recebeu funcionários adicionais e a greve dos professores chegou ao fim.
- O episódio, porém, serviu como ponto de partida para uma mobilização mais ampla.
- O movimento passou a incluir barricadas, incêndios de lixeiras e confrontos com policiais.
- Mais de 100 escolas tiveram algum tipo de dano desde o início dos protestos.
- A dimensão da mobilização surpreendeu autoridades e até integrantes do movimento estudantil.
- As escolas têm hoje menos professores que em 2008, apesar de 250 mil alunos a mais, e 70% das salas públicas têm mais de 30 estudantes.
- Para os manifestantes, a crise é resultado de anos de falta de investimentos e não apenas de medidas recentes.
A escalada dos atos trouxe episódios de violência e denúncias de abuso policial. Vídeos mostram estudantes incendiando lixeiras, erguendo barricadas e entrando em confronto com agentes. Em Alençon, um policial foi filmado aplicando um golpe de “mata-leão” em uma jovem, técnica proibida pela legislação francesa.
Enquanto manifestantes e setores da esquerda acusam o governo de priorizar a repressão, as autoridades defendem a atuação policial diante dos danos e confrontos. Na região metropolitana de Paris, os prejuízos em escolas são estimados em € 7 milhões, cerca de R$ 39 milhões.
A resposta inicial do governo concentrou-se na presença do partido La France insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, nos protestos. A legenda defendeu o direito dos estudantes de se manifestarem.
Com a escalada da violência, a repressão aumentou. Cerca de 2 mil pessoas chegaram a ser detidas em um único dia. Na sexta-feira (2/10), o ministro da Educação, Édouard Geffray, reuniu-se com líderes estudantis, mas não houve acordo. O movimento convocou uma nova mobilização nacional para esta terça-feira (6/10).
Os protestos ocorrem em meio à pressão sobre as contas públicas. O governo busca aprovar o orçamento de 2027 com déficit de cerca de 5% do PIB, o que exige medidas de contenção de gastos e reduz o espaço para ampliar investimentos na educação.
O fantasma de Maio de 1968
A atual onda de manifestações também recupera a memória de Maio de 1968, quando protestos estudantis deram origem a uma greve geral que paralisou a França.
Mais de cinco décadas depois, a pauta é diferente, mas os estudantes voltam às ruas com uma reivindicação básica: melhores condições para estudar.
O que começou com uma mobilização por professores e recursos transformou-se em uma crise nacional que reúne educação, segurança, gastos públicos e disputa política.











