Em Celac esvaziada, Lula vai criticar intervenções na América Latina
Planalto vê ida de Lula como essencial para fortalecer o organismo internacional diante de ameaças de novas ingerências externas na região
atualizado
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa, neste sábado (21/3), da 10ª Cúpula de Chefes de Estados e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Bogotá, na Colômbia. O petista chegou ao país na noite dessa sexta-feira (20/3).
Lula será um dos poucos líderes da região presentes. Estão confirmados o presidente colombiano, Gustavo Petro, anfitrião do encontro e atual dirigente do bloco; o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, que assumirá a presidência pro tempore; e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Godwin Friday.
A nível ministerial, cerca de 20 chanceleres da região devem comparecer, segundo o Itamaraty.
Na visão do Palácio do Planalto, a presença do presidente Lula é indispensável para manter a existência do grupo, que tem sofrido com baixa adesão. Segundo fontes do governo, a ausência do Brasil ampliaria a percepção de fragilidade do bloco.
A gestão Lula vê a união do grupo como uma oportunidade para afastar tentativas externas de fazer da América Latina e do Caribe um “quintal” ou uma zona de influência. Isso porque, historicamente, a Celac condena intervenções contra a soberania dos países da região.
Por isso, o governo brasileiro acha fundamental a presença de Lula e que ele apresente a visão dele sobre o estado da integração latino-americana e caribenha e dialogue sobre as ameaças que pairam a região.
Este deve ser o tom do discurso de Lula na ocasião, buscando defender a integração regional e criticar as crescentes intimidações à soberania da região. Ao condenar ingerências externas, pretende reforçar que os países do Caribe e da América Latina constituem uma zona pacífica e que a continuidade desse cenário depende de iniciativas internas.
O presidente também deve reiterar a defesa à neutralidade do Canal do Panamá, alvo de investidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Defesa de Cuba
De acordo com fontes do governo, a chancelaria brasileira está articulando com seus homólogos para produzir uma declaração conjunta do grupo que condene o bloqueio e as ameaças à soberania de Cuba por parte dos Estados Unidos.
Tradicionalmente, o documento final inclui menção à situação da ilha, mas o cenário político atual pode dificultar o consenso. Países alinhados a Trump tendem a resistir a críticas a Washington. Na cúpula anterior, em Honduras, trechos do texto foram contestados por delegações como Argentina, Nicarágua e Paraguai, e o documento não chegou a ser assinado por eles.
As declarações recentes de Trump elevaram a tensão. Na segunda-feira (16/3), ele afirmou que teria a “grande honra” de tomar Cuba e disse que uma eventual “libertação” permitiria “fazer o que quiser” com a ilha. A fala ocorreu em meio a relatos de negociações entre Havana e Washington.
Desde o início do ano, os EUA intensificaram a pressão sob a ilha ao restringir o envio de petróleo venezuelano a Cuba. Trump também ameaçou impor tarifas a países que forneçam o produto a Cuba. A medida agravou a crise energética e o desabastecimento, com impacto direto na situação humanitária.
O governo brasileiro vê com preocupação o risco de instabilidade e a possibilidade de uma intervenção militar. A situação degradante que a população vem sofrido já fez com que o Brasil enviasse, no final de fevereiro, 2,5 toneladas de medicamentos para o combate à tuberculose.
Como mostrou o Metrópoles, o Executivo organiza uma grande operação para enviar mais ajuda humanitária, que deve incluir mais de 20 mil toneladas de alimentos e cerca de 80 toneladas de medicamentos, incluindo antifúngicos e itens para o combate a arboviroses.
Lula e a Celac
- Tradicionalmente, o chefe do Executivo brasileiro compareceu a todas as cúpulas do organismo internacional regional desde que assumiu a presidência, em 2023.
- Em 2020, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o Brasil deixou o comitê porque o então presidente desejava distância de lideranças de esquerda da região. A participação foi retomada no primeiro mês da gestão Lula 3.
- Criada em 2010, a Celac é composta pelos 33 países da região latino-americana e caribenha, que se reúnem para discutir temas de interesse dos países, como educação, desenvolvimento social, cultura, transportes, infraestrutura, energia e cenários políticos internacionais e regionais.
- De acordo com a secretária de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores (MRE), embaixadora Gisela Padovan, serão discutidos nesta cúpula temas como combate ao crime organizado, desenvolvimento econômico, combate à fome e à pobreza, segurança alimentar, cooperação espacial e iniciativas do grupo como o Fundo de Adaptação Climática e Resposta Integral a Desastres Naturais (FACRID).
Fórum Celac-África
Em Bogotá, Lula também participa do 1º Fórum de Alto Nível Celac-África, que antecede a cúpula.
Segundo o secretário de África e do Oriente Médio do Itamaraty, embaixador Carlos Sobral, o objetivo do encontro é retomar o diálogo da região com a África, que já existiu de forma mais estruturada no passado.
“Houve uma iniciativa chamada América do Sul-África, a ASA, que existiu de 2006 a 2013. Ela teve três cúpulas, duas na África e uma na América do Sul, mas, depois, não foi mais possível articular esse diálogo. Agora, a Colômbia, que é um país que tem sido muito ativo na interlocução com a África, está organizando esse fórum”, disse.
O encontro deve tratar de temas como comércio, investimentos, cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento, reparação histórica e justiça étnico-racial. A expectativa é de participação de cerca de quatro chefes de Estado africanos.
Juntos, os 55 países da União Africana e os 33 da Celac somam aproximadamente 2 bilhões de pessoas.












