Guerra comercial entre China e EUA impulsiona globalização de empresas

Companhias brasileiras aproveitam movimentações da Europa e das Américas para ganhar espaço no cenário internacional

Hugo Lins/OnevoxPress

atualizado 19/07/2019 21:13

A guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo – Estados Unidos e China – tem criado uma onda de internacionalização de empresas e, com isso, remapeado as cadeias de fornecimento globais em detrimento da manufatura chinesa. É o que prova um recente estudo da Organização global QIMA – instituto de controle, com sede em Hong Kong, que realiza auditorias, inspeciona fornecedores e realiza testes de laboratório em produtos em todos os continentes.

De acordo com a pesquisa, a demanda por auditorias da QIMA na China caiu 13%, já que os fabricantes do continente estão perdendo seus clientes estrangeiros mais rapidamente devido aos custos associados às tarifas e estão transferindo parte da sua produção para fora da China para evitar essas tarifas. A porcentagem de empresas que abandonam aquele país, segundo a QIMA, foi de 80% para as empresas americanas e 67% para as ligadas à União Européia.

As empresas européias são menos afetadas pela guerra comercial porque, conforme a pesquisa revela, seus países não impuseram tarifas sobre as importações chinesas. Mas a QIMA acredita que elas têm suas próprias razões para reduzir sua dependência da fabricação chinesa. A maioria está se diversificando no sudeste da Ásia e optando por ficar mais “perto de casa”.

Essa diversificação contínua da cadeia de fornecimento global cria amplas oportunidades para os investidores corporativos e dá origem aos novos mercados em países como o Vietnã, por exemplo. As grandes empresas estão se movimentando com o aumento dos custos trabalhistas na China e com o avanço do governo na adoção de leis ambientais – no estilo ocidental –, abandonando o antigo estilo chinês, conhecido por fazer vistas grossas à poluição e os direitos trabalhistas.

O novo cenário de movimentação de empresas está favorecendo negócios brasileiros a ganharem espaço em mercados internacionais. Para Carlo Barbieri (foto em destaque), economista brasileiro que dirige a Consultoria Oxford Group – especilizada em internacionalização de empresas nos Estados Unidos e em Portugal –, empresários brasileiros mais atentos estão de olho nas vantagens que este momento pode gerar, inclusive para o Brasil.

“Com a guerra comercial, Pequim tem ainda mais incentivo para se aproximar e abrir espaço aos negócios do Brasil e de seus outros parceiros no grupo Brics de economias emergentes – Rússia, Índia e África do Sul. Enquanto isso, nos EUA, em 2015, segundo dado recente, o valor vendido no mercado interno e o valor adicionado pelas subsidiárias brasileiras ao PIB americano foi de US$ 48,3 bilhões e US$ 7,9 bilhões, respectivamente”, explica o economista brasileiro.

Dados do Mapa Bilateral de Investimentos Brasil – USA 2019 mostram que o estoque de Investimento Estrangeiro Direto brasileiro (IED) nos Estados Unidos cresceu 356% entre 2008 – quando era de US$ 9,3 bilhões – para US$ 42,8 bilhões, em 2017. Os brasileiros estão investindo em diferentes setores americanos, como metais, comércio atacadista e instituições financeiras. “Nestes tempos de incerteza, os mercados emergentes mais arriscados são mais atingidos, com os investidores se esquivando e levando seu dinheiro para países ‘mais seguros’. Os mercados estão se ajustando em escala global a um cenário que mudou muito rapidamente. Agora, o desempenho dos ativos brasileiros estará atrelado aos mercados estrangeiros até que haja um avanço sobre as negociações comerciais. O empresário brasileiro não quer perder tempo e quer tirar o máximo de vantagens dessa guerra”, afirma Barbieri.

Instabilidade econômica

Para o economista, além das vantagens com a guerra comercial, as incertezas que pairam sobre o projeto de reforma da Previdência no Brasil, em trâmite no Congresso Nacional, podem ser um dos fatores que estão estimulando número maior de brasileiros a buscar alternativas de investimentos em outros países. A nova relação dos EUA com o Brasil configura o território americano como um cenário ideal procurado por brasileiros interessados em aposentar-se, a longo prazo, em dólar ou proteger seus patrimônios.

“Em busca de segurança econômica, empresários brasileiros estão interessados em posicionar parte de seus investimentos nos EUA. Em muitos casos, a escolha não é definitiva, mas se bem assessorada e planejada, a internacionalização do negócio pode render uma aposentadoria em dólar e é com este objetivo que muitos brasileiros tem nos procurado. Somente este ano já detectamos um aumento de 10% na procura”, explica.

O consultor sutenta que o prolongamento da guerra comercial e este novo fenômeno de movimentação internacional de empresas estão reordenando a regra do jogo corporativo, conferindo inclusive, mais espaço para empresas brasileiras. A proximidade geográfica dos EUA também tem sido um fator considerado importante pelo empresário brasileiro que decide internacionalizar sua empresa. “Nos EUA, as novas políticas fiscais de [Donald] Trump resultaram na redução do imposto de renda para empresas em território americano, que passou de 35% para 21%. É fundamental contratar uma consultoria especializada em mercados globais para tirar o máximo proveito desse cenário e internacionalizar corretamente sua empresa, produto ou serviço”, alerta o especialista.

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