Armênia relembra 110 anos do genocídio que quase exterminou seu povo

Na Armênia, o 24 de abril marca a data do genocídio que matou mais de 1,5 milhão de armênios entre 1915 e 1923, no antigo Império Otomano

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Davit Hakobyan/Governo da Armênia
Imagem colorida mostra pessoas depositando flores na chama eterna do memorial do genocídio armênio - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra pessoas depositando flores na chama eterna do memorial do genocídio armênio - Metrópoles - Foto: Davit Hakobyan/Governo da Armênia

Erevan – O cheiro e a cor das flores que tomam conta do país todo 24 de abril contrastam com as expressões sérias e o peso da data. A caminho do Memorial de Tsitsernakaberd, armênios de todo o país seguem em uma marcha silenciosa e lenta para homenagear a memória dos mais de 1,5 milhão de pessoas, assassinadas há 110 anos durante o genocídio armênio.

 

Execuções em massa, deslocamentos forçados para desertos da Síria ou campos de concentração, estupros, escravidão e sequestros. Foi essa a realidade enfrentada por armênios étnicos no antigo Império Otomano — atual Turquia — entre 1915 e 1923.

Apesar de viverem por séculos no que antes era o reino imperial, os armênios eram tratados como súditos do império, e constituíam uma minoria cristã dentro do território governado por maioria muçulmana.

Com o início do declínio do Império Otomano, os armênios começaram a ser apontados como uma das causas do fracasso do reino. Assim, em 24 de abril de 1915, cerca de 250 lideranças armênias foram perseguidas e executadas na então Constantinopla, antiga capital da Turquia, hoje Instambul. Era o início de oito anos de massacres em massa.

“Este não é um dia feliz, porque, muitos anos atrás, em 1915, meus heróis na Armênia estavam tentando lutar”, disse o estudante Sasuh Tabakyah, de 14 anos, ao Metrópoles.

“Quando você vem aqui [no memorial], você sempre pode lembrar de muitas coisas de quando eles [armênios no Império Otomano] estavam tentando lutar a guerra. Eu pelo menos estou vivo. Já eles, infelizmente, sacrificaram suas vidas”, completou.

Mesmo que tenha nascido mais de 90 anos após início do holocausto armênio, Tabakyah é um dos filhos da diáspora armênia, provocada pela página manchada de sangue na história do país. A perseguição contra a população no Império Otomano forçou milhares de sobreviventes a fugirem, e se instalarem nos sete continentes do mundo.

Assim como o adolescente, que nasceu nos Emirados Árabes Unidos antes de retornar para a Armênia, há alguns anos, famílias inteiras de armênios foram formadas e viveram em diversos países ao redor do mundo. Sem esquecer, contudo, das tradições e da defesa da identidade armênia, marcada pelo cristianismo e a capacidade de reconstrução.

Reconhecimento

Na noite anterior às homenagens no Memorial de Tsitsernakaberd, um protesto organizado pela Federação Revolucionária Armênia (ARF) partiu da Praça da República, no centro de Erevan, rumo ao memorial do genocídio.

Com tochas, velas, cartazes e gritos de ordem, a tradicional manifestação realizada todo 23 de abril busca um maior reconhecimento internacional do episódio.

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A principal reivindicação é o reconhecimento internacional do genocídio armênio
Até o momento, apenas cerca de 30 países reconhecem o episódio
Entre 1915 e 1923, cerca de 1,5 milhão de armênios foram assassinados pelo Império Otomano, atual Turquia
Manifestantes queimam bandeiras durante o ato
Milhares de pessoas protestam na Praça da República, na capital da Armênia, Erevan
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A principal reivindicação é o reconhecimento internacional do genocídio armênio
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Até o momento, apenas cerca de 30 países reconhecem o episódio
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Até o momento, apenas cerca de 30 países reconhecem o episódio

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Entre 1915 e 1923, cerca de 1,5 milhão de armênios foram assassinados pelo Império Otomano, atual Turquia
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Entre 1915 e 1923, cerca de 1,5 milhão de armênios foram assassinados pelo Império Otomano, atual Turquia

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Manifestantes queimam bandeiras durante o ato
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Manifestantes queimam bandeiras durante o ato

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Mesmo com documentos e registros que comprovam o massacre sistemático de armênios no antigo Império Otomano, apenas cerca de 30 países reconhecem o episódio como genocídio. Entre eles Argentina, Bolívia, Chile, França, Alemanha, Líbano, Rússia, Síria, Venezuela, Estados Unidos e Uruguai.

A Turquia, país sucessor do Império Otomano, se nega a reconhecer o genocídio. Para o governo local, as inúmeras mortes de armênios não foram resultado de uma política de Estado, mas de uma guerra civil na qual os dois lados cometeram abusos.

No Brasil, o episódio é reconhecido pelo Senado desde 2015. Além disso, os estados do Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná aprovaram projetos que classificaram os assassinatos em massa como genocídio.

Na esfera federal, o governo brasileiro ainda não reconheceu o fato. Mas, todos os anos, costuma enviar uma coroa de flores ao memorial do genocídio armênio por meio da embaixada do Brasil em Erevan. Esta é a forma de homenagear os mais de 1,5 milhão de armênios assassinados há mais de um século.

Outro lado

Após a publicação da reportagem, a embaixada da Turquia no Brasil procurou o Metrópoles para esclarecer a visão do país sobre o assunto.

Em carta assinada pelo embaixador Halil İbrahim Akça, o governo turco afirmou que os eventos de 1915 não podem ser rotulados como genocídio, “nem do ponto de vista jurídico, nem histórico”.

Ancara afirma que a posição do país sobre o episódio “sempre foi sincera”, com “empatia pela dor compartilhada e pelo sofrimento humano infligido pela Primeira Guerra Mundial” a todos os cidadãos do antigo Império Otomano, “independentemente de suas origens étnicas e religiosas”.

“Embora a Turquia não negue as dificuldades sofridas por muitos armênios otomanos naquele período, ela rejeita a apresentação dos tráficos eventos de 1915 como um ‘genocídio’ perpetrado por um lado contra o outro”, diz um trecho do documento enviado à reportagem.

Leia a manifestação completa:

 

O repórter viajou a convite da União Geral Armênia de Beneficência (Ugab)

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