Secult-MG suspende resultado de edital que revoltou artistas

Artistas e produtores culturais apontam falhas técnicas e cobram revisão de avaliações; Secult-MG admite inconsistências e vai revisar

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Gil Leonardi / Imprensa MG
Cidade Administrativa Minas Gerais
1 de 1 Cidade Administrativa Minas Gerais - Foto: Gil Leonardi / Imprensa MG

Belo Horizonte – Erros técnicos, notas contestadas e desclassificações consideradas injustas provocaram reclamações de artistas e produtores culturais após a divulgação nesta quarta-feira (3/6) dos resultados da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), responsável pelos editais. O órgão acabou admitindo inconsistências e suspendendo a divulgação e prometeu revisão.

A divulgação inclui o Edital 01/2026 – Bolsas Culturais de Promoção, Pesquisa, Difusão, Circulação, Residência e Intercâmbio Cultural; o Edital 02/2026 – Premiação de Trajetórias; e o Edital 04/2026 – Execução Cultural.

De imediato, nas redes sociais, a publicação anunciando os resultados, feita nesta quinta-feira (4/6), foi inundada por comentários com críticas e questionamentos de participantes. Posteriormente, o post foi excluído do Instagram pela Secult-MG e a pasta emitiu uma nova nota dizendo que os resultados serão revistos.

: Publicação da Secult-MG sobre os resultados da PNAB recebeu dezenas de críticas e questionamentos de participantes antes de ser excluída das redes sociais.
: Publicação da Secult-MG sobre os resultados da PNAB recebeu dezenas de críticas e questionamentos de participantes antes de ser excluída das redes sociais.

Yanaki Herrera, 30 anos, que é artista visual, inscreveu um projeto focado no fortalecimento da cena artística de mulheres indígenas em Belo Horizonte. O curso proposto contaria com cinco mentoras indígenas trabalhando linguagens como pintura, corporalidade e fabricação de máscaras.

No entanto, o que deveria ajudar os projetos acabou se transformando problema: de acordo com a artista, o projeto foi desclassificado porque o sistema apontou a falta de currículo e portfólio. No entanto, o próprio avaliador citou e elogiou esses materiais no parecer, o que indica uma possível falha no processo.

“É muito contraditório porque ter uma resposta do parecerista dizendo que o meu currículo e o meu portfólio é muito bom, mas ao mesmo tempo me desclassificarem porque supostamente eu não mandei currículo e portfólio. Não condiz, né”, desabafa a artista.

Mesmo após recorrer e apresentar provas de que os documentos haviam sido enviados, a artista continuou desclassificada. Para ela, a sensação de que os recursos foram analisados por Inteligência Artificial (IA), sem uma avaliação humana cuidadosa.

“É muito frustrante investir tanto tempo escrevendo um projeto e reunindo uma equipe. Nós, que trabalhamos com editais, dedicamos anos de pesquisa a esse trabalho. Eu sou mãe, mãe solo, e dependo desses editais. Então, é muito frustrante. Acho um absurdo que saia um resultado desses.”

Outro caso

O artista visual Ítalo Almeida, de 29 anos, contou que já teve projetos aprovados na PNAB e que, embora os processos da Secult-MG sejam “sempre complexos”, nunca havia enfrentado uma situação como essa.

Ele inscreveu um projeto de exposição para o Viaduto das Artes, no Barreiro. A proposta era reunir obras produzidas em Minas Gerais e na África do Sul, onde ele desenvolve uma pesquisa sobre os impactos da mineração em comunidades periféricas.

“O avaliador, além de ter uma grafia terrível simplesmente desconsiderou o principal documento que ele utiliza para avaliar o projeto, que é o Plano de Trabalho. Ele nos desclassificou alegando que esse documento não existia. A gota d’água foi uma observação, em um tom que considerei bastante grosseiro, dizendo que os únicos documentos enviados estavam em inglês, que eram justamente os das instituições estrangeiras”, contou.

Após a desclassificação, Ítalo entrou com pedido de reavaliação da nota e apresentou prints e vídeos para comprovar que os documentos haviam sido enviados corretamente.

“Acho que, diferente de outros relatos, meu avaliador não foi uma IA, mas uma pessoa muito desleixada. O segundo avaliador também não acessou os links que enviamos para comprovar as informações.”

Ultrapassa a frustração

André Castro, 36 anos, produtor cultural e elaborador de projetos, participou representando dois artistas (artista Kesley e a musicista e educadora Juliana Santos Rocha) com projetos voltados à valorização as trajetórias  e do trabalho desenvolvido junto às comunidades do interior de Minas Gerais.

Segundo ele, o projeto de Kesley recebeu notas erradas em dois critérios do edital. Após recursos, a Secult reconheceu os erros e corrigiu a pontuação.

Já no caso da Juliana, a situação foi muito mais grave: “Além do mesmo erro no critério de interiorização, a avaliação praticamente desconsiderou toda a trajetória cultural dela, analisando apenas dois trabalhos específicos. O mais preocupante é que esse erro não foi corrigido após o recurso, mesmo sendo exatamente o mesmo tipo de falha corrigida no caso do Kesley. Não estamos falando de interpretação artística, mas da aplicação correta de um critério previsto no edital. Isso gera a preocupação de que o recurso dela talvez sequer tenha sido analisado.”

Para André, o sentimento ultrapassa a frustração. “Sinceramente, dá vontade de não trabalhar mais com esses editais diante da sensação de injustiça e falta de transparência no processo”, desabafou.

Mobilização

A categoria tem se organizado por meio de grupo de WhatsApp para definir os próximos passos.

“Vamos judicializar o caso com certeza. São muitas pessoas afetadas. Se fosse só o nosso caso, seguiríamos em frente, mas nossa classe é organizada e vamos levar isso adiante. E faremos questão de que o secretário de Cultura, Leônidas Oliveira, saiba o quanto estamos inconformados com essa situação”, afirmou Ítalo.

Segundo André, os participantes pretendem levar as denúncias ao Ministério Público e a outros órgãos responsáveis. Eles também orientam que quem identificou erros no processo registre uma reclamação na Ouvidoria da PNAB Minas Gerais.

Segundo a publicação nas redes sociais, a etapa de habilitação começa em 8 de junho de 2026. Nessa fase, os selecionados devem apresentar toda a documentação exigida para receber os recursos.

Resultados serão revistos

Após o Metrópoles entrar em contato com a Secult-MG, a pasta emitiu uma nota informando que os resultados finais dos Editais nº 01/2026, nº 02/2026 e nº 04/2026 da PNAB – Ciclo 2 estão sendo revisados.

“A medida foi adotada após a constatação de inconsistências no sistema. Os resultados revisados serão publicados nos canais oficiais da Secult-MG até o dia 07/06, após a conclusão da análise e a correção das inconsistências verificadas.

Novas informações sobre o andamento da revisão e a publicação dos resultados serão divulgadas por meio do portal institucional e demais canais oficiais da pasta”, disse.

O que é Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)?

A PNAB é um programa do governo federal que garante repasses regulares de recursos para estados e municípios investirem em projetos e ações culturais.

O Governo de Minas entra como um dos responsáveis por administrar os recursos da PNAB no estado. Embora o dinheiro venha da Governo Federal, cabe ao governo estadual lançar editais, definir regras, receber inscrições, avaliar os projetos e repassar os recursos.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações