“Se fosse da minha barriga, iria devolver?”: a adoção que fugiu da regra em MG
Sem adoção, muitos jovens permanecem durante toda a infância e adolescência em instituições de acolhimento
atualizado
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Belo Horizonte – A espera pela adoção é mais longa e difícil para crianças e adolescentes que não se encaixam nos perfis mais buscados. Os que têm problemas de saúde ou alguma deficiência costumam ficar no “fim da fila” e muitas vezes permanecem até durante a vida adulta em instituições de acolhimento.
Os casos de adoção fora do perfil de crianças mais novas e sem necessidade de cuidados contínuos costumam ser desafiadores para as famílias que os acolhem. “Se fosse da minha barriga, eu iria devolver?” – Foi essa pergunta que norteou a decisão de Maria do Carmo da Paixão Meijon Campolina, de 58 anos, e de sua companheira Elaine Flausino Meijon Campolina da Paixão, de 48, quando decidiram adotar, em 2013, três irmãos, um deles com paralisia cerebral.
Renan Márcio da Paixão Campolina tinha apenas dois anos quando foi adotado. Seu irmão estava com seis e a irmão deles, com quatro anos. Na época, a única informação que tinham sobre Renan é que ele estava raquítico. O diagnóstico de paralisia cerebral veio depois.
E a família ficou com Renan e seus irmãos apesar dos desafios que teriam que enfrentar. “Corremos atrás de tratamento para ele. É claro que, no começo, foi um grande desafio”, relembra Maria do Carmo.
A adoção mobilizou amigos, colegas de trabalho e vizinhos. Funcionários e médicos do hospital onde Maria do Carmo trabalhava organizaram uma vaquinha para ajudar a família. No bairro, moradores se reuniram em mutirão para terminar a construção da casa. “Levantaram as paredes que faltavam e colocaram o telhado sem cobrar nada”, conta.
O apoio foi essencial para que a família conseguisse adaptar a rotina às necessidades do menino. O casal chegou a cogitar contratar alguém para cuidar dos filhos, mas desistiu após perceber os custos e o medo de que Renan sofresse maus-tratos por ser mais debilitado. “Resolvemos que a Elaine ficaria em casa cuidando deles”, explica.
Durante 11 anos, elas se revezaram na criação das crianças e enfrentaram juntas as dificuldades financeiras e emocionais.
Há cerca de dois anos, a família decidiu mudar a rotina. Elaine conseguiu um trabalho em escala 12×36, e desde então o casal se reveza para garantir os cuidados com Renan. “Um dia eu fico em casa e no outro ela fica. As demandas são diversas”, afirma Maria do Carmo.
Hoje, Renan está com 15 anos. Mesmo diante das dificuldades, Maria do Carmo acredita que a adoção de crianças com deficiência precisa ser encarada sem medo.
“Muitas vezes criamos resistência porque achamos que não vamos dar conta. Eu mesma, no começo, rejeitei a ideia quando perguntaram se aceitaria uma criança com deficiência”, lembra.
A mudança veio após uma reflexão simples, mas decisiva. “Eu pensei: e se fosse da minha barriga? O que eu faria? Devolveria para a barriga? Levaria para um abrigo? Abandonaria? Não. Foi aí que entendi que ele era um presente de Deus na minha vida.”
Ela também faz um apelo para que as pessoas olhem com mais empatia para famílias em situação de vulnerabilidade. “Ninguém é perfeito. Todos temos problemas, sendo filhos biológicos ou adotados. O importante é colocar a mão na consciência e tentar ajudar de alguma forma. Não é carregar ninguém no colo, mas dar o primeiro passo.”
Sem receber auxílio governamental, o casal segue enfrentando a rotina sozinho. “É só nós duas mesmo na batalha, matando um leão por dia.”
Apesar dessa dificuldade, Renan ficou fora da estatística, encontrou uma família e vive feliz, sendo bem cuidado, mas nem sempre é o que ocorre nesses casos.
A trajetória da família também contou com apoio da equipe da Associação Mineira de Reabilitação (AMR), hospital referência em reabilitação neuromotora, em Belo Horizonte. Desde a adoção, Renan é atendido pela instituição.
Na fila para a adoção em Minas
Em Minas Gerais, ao menos 180 crianças e adolescentes acolhidos e aptos para adoção apresentam deficiência física ou mental. Os dados do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) revelam um cenário delicado: embora estejam legalmente disponíveis para integrar uma nova família, muitos acabam passando anos institucionalizados por não corresponderem ao perfil mais procurado por pretendentes à adoção.
Atualmente, Minas Gerais soma 576 acolhidos aptos para adoção. Na capital mineira, entre as crianças acompanhadas pela 1ª Vara Cível e da Infância e da Juventude, 37 estão disponíveis para adoção e 17 delas com deficiência física ou mental. Já entre os adolescentes acompanhados pela 2ª Vara Cível da Infância e da Juventude, 19 estão aptos à adoção, sendo três com deficiência mental.
Destino dos que aguardam uma adoção
Quando não há adoção, a realidade faz com que muitos desses jovens permaneçam durante toda a infância e adolescência em instituições de acolhimento.
O juiz Marcelo Augusto Lucas Pereira, da 2ª Vara Cível e da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, afirmou que a capital possui atualmente três unidades especializadas no acolhimento de crianças e adolescentes com deficiência intelectual, física e psicossocial que demandam acompanhamento integral: a UAI “Creche” Tia Dolores, a UAI Casa do Caminho, administrada pelo Núcleo Assistencial Caminhos Para Jesus (NACJ), e o Lar Fraternidade Maria de Nazaré (Laframn).
De acordo com o magistrado, os acolhidos dessas instituições apresentam, em muitos casos, elevado grau de dependência para atividades básicas da vida diária, além da necessidade de tratamentos contínuos, uso de medicações e suporte multiprofissional permanente.
“Frequentemente, tratam-se de famílias em situação de vulnerabilidade social, sem rede de apoio, com limitações financeiras e impossibilidade de dedicação exclusiva aos cuidados permanentes demandados”, afirmou o juiz.
Abandono
Ainda segundo Marcelo Augusto Lucas Pereira, existem casos em que não há apenas dificuldade financeira ou estrutural, mas abandono familiar completo. Nessas situações, a Justiça ingressa com ações de destituição do poder familiar para possibilitar o encaminhamento da criança ou adolescente para uma família substituta.
Apesar disso, a adoção raramente acontece em casos de deficiência severa. “A maior parte dos pretendentes manifesta preferência por crianças mais novas, sem comorbidades e sem demandas complexas de saúde”, explicou o magistrado.
Com isso, embora o acolhimento institucional devesse ser uma medida provisória, muitos jovens acabam permanecendo nas instituições por tempo indeterminado. Ao atingirem a maioridade, parte deles é encaminhada para serviços voltados a adultos com deficiência. Em alguns casos, continuam vivendo nas mesmas instituições onde cresceram.
“Dessa forma, a institucionalização frequentemente se prolonga por toda a vida adulta, especialmente nos casos em que inexistem vínculos familiares, autonomia funcional ou perspectivas concretas de inserção em ambiente familiar substituto”, concluiu o juiz.
Adoção no Brasil e em Minas Gerais
O Conselho Nacional de Justiça informou que desde 2019, foram adotadas, em todo o país, 33.268 crianças e adolescentes. Desse total, 633 têm deficiência intelectual; 180 têm deficiência física e intelectual; e 283 têm deficiência física.
No estado de Minas Gerais, de 2019 pra cá foram adotados 2.974 crianças e adolescentes. Desse total, 34 têm deficiência intelectual; 10 têm deficiência física e intelectual; 20 têm deficiência física.







