Ouro Preto: o que se sabe sobre casa com desenhos feitos por escravos
Imóvel comprado nos anos 1980 seria transformado em restaurante, mas uma reforma em 2017 revelou os desenhos
atualizado
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Belo Horizonte – A casa da rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita, nº 134, em Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais, que durante uma reforma revelou um tesouro arqueológico inédito, com grafismos e pinturas ligados à cultura africana e ao período da escravidão escondidos por quase 300 anos, passou ao longo dos séculos pelas mãos de diferentes famílias.
Comprado pelos atuais proprietários na década de 1980, o imóvel tinha como destino virar um restaurante. O caminho mudou completamente em 2017, e os desenhos, que retratam cenas do cotidiano, símbolos de resistência e referências à ancestralidade africana, agora estão oficialmente protegidos. Um parecer técnico assinado em 23 de março de 2026 oficializou a recomendação para a homologação do cadastro do imóvel como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A reforma
Esse processo começou há quase 10 anos. O administrador Philipe Passos, de 63 anos, contou que a casa foi comprada pelo pai dele como um presente para a mãe dele, atual proprietária do imóvel. “Meu pai sempre acreditou na cidade, enxergava o potencial turístico dela desde a década de 1960 e adquiriu alguns imóveis no centro histórico”, contou.
Ele contou que, em 2017, a ideia era fazer uma “reforma geral da casa, que não estava em boas condições”, até que os rumos que levariam o imóvel ao comércio mudaram após trabalhadores da obra perceberem os desenhos nas paredes do porão — um local escuro, de difícil acesso e que só recebeu energia elétrica na década de 1980, quando a família adquiriu a casa.
Cerca de dois anos depois, o historiador e arqueólogo Leonardo Klink passou a estudar a casa em um projeto de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O Leonardo entrou na história depois da divulgação da descoberta. Apareceu aqui, pediu para conhecer os desenhos e se apaixonou pela casa, pela história dela e por Ouro Preto. Penso que talvez já tenha vivido em outras épocas”, disse Philipe.
Ao entrevistar antigas moradoras, Klink descobriu que elas já conheciam os desenhos, mas acreditavam se tratar apenas de marcas feitas por familiares. “Elas relataram que já conheciam os desenhos, mas nunca deram muita atenção”, disse.
Para Philipe, o difícil acesso ao porão, com pé-direito muito baixo, de cerca de 1,50 metro, além da ausência de instalação elétrica naquele ponto, fez com que os desenhos passassem despercebidos. E foram justamente essas condições – desumanas para manter alguém – que preservaram os símbolos até os dias atuais, de acordo com o pesquisador Klink.
26 desenhos
O pesquisador identificou cerca de 26 desenhos feitos de formas diferentes, como riscos gravados na parede, grafites com pigmentos pretos e avermelhados e técnicas misturadas.
Entre os identificados há atribuições a animais como um felino que pode lembrar um leopardo, guepardo ou mesmo uma onça, aves, embarcação, figuras geométricas, elementos de vegetação e até uma possível joaninha. Muitos só puderam ser vistos com luzes especiais e tratamento digital, por causa do desgaste ao longo dos séculos.
“Um deles [dos desenhos] mostra um grupo de pessoas em um pátio cercado por muros e torres, com duas figuras utilizando um pilão. Consegui localizar correspondências para esse tipo de construção em regiões do interior da África Ocidental. Há também uma espécie de máscara em grafite com fibras inseridas, bastante semelhante a tradições da África Centro-Ocidental”, disse.
O terceiro desenho é o que mais intriga: ele foi feito com pigmento escuro e parece misturar características humanas e animais, com chifres e uma boca grande com dentes pontiagudos.
“Até mesmo a incisão da embarcação abre diferentes possibilidades de interpretação. Por um lado, ela pode aludir a um barco de pesca ou deslocamento em regiões africanas. Por outro, a presença de uma bandeira sobre o mastro é um elemento encontrado em navios europeus dos séculos XVIII e XIX. Assim, não se pode descartar a hipótese de que a cena figure a própria travessia de uma dessas pessoas até a casa em Vila Rica”, disse.

Ainda não é possível saber exatamente quem criou as imagens ou quando elas foram feitas. “O que se sabe é que dezenas de africanos e seus descendentes viveram naquele espaço enquanto pessoas escravizadas, desempenhando tarefas domésticas, trabalhos pesados e diferentes atividades do cotidiano. Mas, para além disso, eram sujeitos que interagiam, criavam vínculos, aspiravam, sonhavam e buscavam formas de ascensão social”, contou Klink, que também reflete sobre a criatividade dessas pessoas para lidar com experiências cotidianas de saudade, luto e tristeza.
O trabalho de pessoas escravizadas foi explorado no Brasil de 1530 até 1888.
O que é um sítio arqueológico?
O Iphan confirmou que o local foi oficialmente registrado como sítio arqueológico e cadastrado no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) com a denominação “Inscrições Afrodiaspóricas”.
Segundo o próprio Iphan, a preservação desses patrimônios vai além da conservação física dos vestígios materiais. “Trata-se de salvaguardar narrativas da história brasileira, reconhecendo o protagonismo da população negra na formação histórica e cultural de Minas Gerais”, disse.
Ainda conforme o Instituto, os sítios arqueológicos ajudam na educação, no fortalecimento da identidade e na reparação histórica, preservando vestígios de práticas culturais e formas de resistência ao longo dos séculos.
‘Obrigação com o passado e com o futuro’
Philipe defende que o local passe a receber visitação. “Eu acho que não é nem questão de interesse, e sim de obrigação mesmo. Obrigação com o passado e com o futuro. Obrigação com quem veio antes de nós, com quem fez o desenho e com quem sofreu a tristeza e as consequências da escravização”, afirmou.
Atualmente, o espaço está fechado e passa por adaptações, um processo que ainda pode levar algum tempo e fazer com que a visitação só seja possível no ano que vem.

“Serão iniciados estudos, sob a supervisão do Iphan, para indicar como deve ser feita a conservação e a preservação das inscrições, bem como a futura visitação do imóvel. Na minha opinião, o uso do imóvel deve se voltar para algo de interesse cultural e social”, acrescentou Philipe.
O Iphan também destacou que a criação do Comitê Permanente para Preservação do Patrimônio Cultural de Matriz Africana (COPMAF) mostra um avanço no reconhecimento e na valorização dos patrimônios culturais de matriz africana e afro-brasileira dentro do instituto.






