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Minas Gerais

Mural de Krenak leva Rio Doce ferido pela lama às alturas de BH

Ailton Krenak entrega obra nesta sexta (28/8), com referência ao Rio Doce e verso de Milton Nascimento e Fernando Brant

28/08/2026 02:00
@visaodecria_cine para @cura.art
Obra de Ailton Krenak transforma empena no entorno da Praça Raul Soares, em BH

Belo Horizonte —  Um rio tentando abrir caminho entre os escombros passa a integrar a paisagem do Centro de Belo Horizonte. Em uma empena no entorno da Praça Raul Soares, Ailton Krenak vê, pela primeira vez, um de seus desenhos ganhar grandes proporções, eternizando na paisagem a memória da devastação do Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (Região Central de Minas), a maior tragédia ambiental da história do país

A obra integra a 9ª edição do Circuito Urbano de Arte (CURA), que, nesta sexta-feira (28/8), recebe Krenak em BH para a entrega da nova obra.

Krenak contou ao Metrópoles que participou da concepção da imagem, mas não precisou subir nos andaimes para vê-la ganhar a dimensão de um prédio. Segundo ele, justamente por a execução ter ficado nas mãos da equipe responsável pela pintura, levar o desenho para a grande escala não exigiu mudanças em seu processo criativo.


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“Eu não estou lá pendurado, fazendo a aplicação do desenho. As pessoas que estão fazendo isso, para mim, é que são gigantes. Estou muito honrado com o convite do CURA. Não muda, portanto, minha maneira de expressar, em desenhos, em rabiscos, as coisas que me movem”, afirmou, fazendo questão de dividir os créditos com quem está, de fato, levando o desenho para a parede. Ele cita os artistas Anne, Dream, Vicky, Nati e Anata, que participam da aplicação.

Segundo Krenak, a imagem escolhida está ligada à devastação provocada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, que atingiu a Bacia do Rio Doce. “É uma imagem que ficou pregada nas minhas retinas desde que a lama de Mariana devastou a Bacia do Rio Doce, esse rio, nosso avô, o Watu.”

O rio como entidade

“Nós, os Krenak, temos esse rio como uma entidade muito importante. Ele está em coma sob a lama da mineração. Correm fios d’água entre lamas e pedras, e ele tem uma dignidade que me animou a fazer esse desenho, essa imagem de um rio tentando abrir caminho entre escombros. Essa é a imagem que eu quis compartilhar com quem passa perto daquele mural”, contou.

O rompimento  despejou cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos no meio ambiente. A lama percorreu mais de 660 quilômetros de cursos d’água, atingiu o Rio Doce e chegou ao litoral do Espírito Santo.

Dezenove pessoas morreram e 1.469 hectares de áreas naturais foram destruídos, além da perda de vegetação, habitats e animais, da mortandade de peixes e dos impactos sobre o abastecimento de água, a pesca e a vida de comunidades ao longo da bacia.

E, agora, quem passa pelo Centro encontra na paisagem uma lembrança permanente das marcas deixadas pela tragédia. No meio da imagem, a frase: “um rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”, fazendo referencia  à canção “Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

“É uma citação dessa canção que fica nas nossas memórias. Todo mundo dessas conhece essa canção maravilhosa dos dois, do Fernando Brant e do Bituca. Fico muito feliz de puxar eles para a minha companhia”, disse.

Krenak desembarca em BH nesta sexta-feira para acompanhar a entrega pública da obra. “Eu vou estar lá para poder abraçar essas pessoas que, uns apoiando, outros subindo e descendo a parede, estão imprimindo essa imagem, a imagem do Watu, o nosso rio. Convido quem estiver pela área a dar uma passada por lá. A gente se abraça, a gente se vê”, concluiu.

Reocupando a cidade

O CURA nasceu em BH, em 2017, com a proposta de transformar grandes paredes de prédios em uma galeria de arte a céu aberto e mudar a relação das pessoas com o espaço público.

Depois de passar pela Rua Sapucaí e pela Lagoinha, o festival chegou à Praça Raul Soares em 2021. No entorno da praça, o circuito reúne 15 obras, que ganharam mais duas nesta edição.

Além de Krenak, Mônica Nador, um dos principais nomes da pintura mural no Brasil e fundadora do Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC), na periferia de São Paulo, também deu cor a um dos prédios.

“O CURA é muito além de um festival, não é só um evento. Ele deixa um legado para a cidade e coloca BH no circuito de arte pública do Brasil. Hoje, temos 35 prédios pintados. O que queremos entregar agora é esse mirante circular da Praça Raul Soares, reforçando a ideia de que ela volte a ser um espaço habitável, onde as pessoas possam frequentar e ver arte. São poucas as praças no mundo com 16 obras no entorno. Isso é BH”, afirmou uma das organizadoras do CURA, Priscila Amoni.

A programação segue até domingo (30/8), com atividades gratuitas. Além da pintura dos prédios e de uma intervenção no Edifício JK, o público poderá acompanhar DJs, pintura ao vivo, highline, atividades para crianças e visitas guiadas ao conjunto projetado por Oscar Niemeyer.

No domingo, o festival se despede da Praça Raul Soares com a Festa Honk! BH, festival de fanfarras ativistas que reúne músicos de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal, além do DJ Luiz Valente.

Sexta-feira (28/8)

9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
16h às 22h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
16h às 19h — DJ Bebela Dias
16h30 — Visita guiada ao JK
19h às 22h — DJ Lu Get Hard

Sábado (29/8)

9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
14h às 21h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
14h às 17h — DJ Naroca
14h às 20h — Highline
16h às 19h — Velódromo
16h30 — Visita guiada ao JK, com Libras
17h — Lançamento do Mapa Afetivo
17h30 — Roda de conversa: Comissão Criativa, com Libras
17h às 20h — DJ Black Josie

Programação infantil — sábado

14h às 16h — Atlas Afetivo e Onírico de Belo Horizonte
15h às 16h — Oficina de Pintura: Patrimônios de BH
15h às 17h — A Geometria do Rolê: Traçados de Afeto em BH
15h às 17h — Quintal do Brincar

Domingo (30/8)

9h às 17h — Pintura das empenas
9h às 17h — Pintura do Caracol do Edifício JK
14h às 21h — Instalação MIRANTE: Exposição Live Painting
14h às 20h — Festa Honk! BH
14h às 20h — Highline
16h30 — Visita guiada ao JK
20h às 21h — DJ Luiz Valente
Loja CURA
Visitas ao JK: retirada de ingressos 30 minutos antes da programação.

Mural de Krenak leva Rio Doce ferido pela lama às alturas de BH