Mudança climática e La Niña ajudam a explicar temporais em Minas

Nos primeiros meses de 2026, Minas Gerais sofreu com temporais que provocaram 82 mortes; além de alagamentos e destruição em várias cidades

atualizado

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Corpo de Bombeiros de MG/ via AFP
Foto colorida de tragédia em Juiz de Fora - MG - Chuva em Juiz de Fora: frente fria, oceano e relevo explicam temporal - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de tragédia em Juiz de Fora - MG - Chuva em Juiz de Fora: frente fria, oceano e relevo explicam temporal - Metrópoles - Foto: Corpo de Bombeiros de MG/ via AFP

Belo Horizonte – O verão 2026 em Minas Gerais tem sido marcado por tristeza, destruição, prejuízo, alagamentos, deslizamentos e muitas vidas perdidas. O período chuvoso que está assombrando os mineiros é o mais letal da história recente, com 82 mortes contabilizadas pela Defesa Civil estadual desde outubro de 2025 — superando os 74 óbitos do ciclo 2019/2020 e os 44 de 2008/2009. Mas o que tem causado essas chuvas torrenciais que passam pelas cidades causando medo na população?

Segundo Anete Fernandes, meteorologista do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), duas causas que ocorrem ao mesmo tempo podem estar contribuindo para a concentração dos temporais na região: o fenômeno La Niña e as mudanças climáticas.

A meteorologista, explica que a influência de uma La Niña “fraca” – como a desse ano – favorece maior umidade sobre o Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, contribuindo para a formação de sistemas convectivos profundos e frentes frias estacionárias amplificando eventos extremos.

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Chuvas em Barbacena
Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora
Casas foram destruídas e a estimativa é de que haja mais de 400 desabrigados
Temporais causam estragos em Minas
Destruição em Minas
Chuvas na Zona da Mata
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Chuvas na Zona da Mata

Agencia Brasil
Chuvas em Barbacena
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Chuvas em Barbacena

Reprodução/Redes sociais
Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora
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Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora

Tomaz Silva/Agência Brasil
Casas foram destruídas e a estimativa é de que haja mais de 400 desabrigados
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Casas foram destruídas e a estimativa é de que haja mais de 400 desabrigados

CBMG-MG/Divulgação
Temporais causam estragos em Minas
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Temporais causam estragos em Minas

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Destruição em Minas
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Destruição em Minas

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Destruição na Zona da Mata
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Destruição na Zona da Mata

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Destruição em Minas
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Destruição em Minas

Reprodução/TV Globo

Segundo Anete, os desastres naturais sempre aconteceram, mas não em tanta quantidade. “A constância tem aumentado nos últimos anos e as mudanças climáticas podem estar relacionadas, ajudando a amplificar esses fenômenos”, afirma a meteorologista.

Estamos no período chuvoso típico da primavera/verão no Brasil Central, incluindo Brasília, onde a estação apresentou um atraso neste ano, com chuvas menos expressivas entre outubro e dezembro.

O primeiro trimestre, de janeiro a março, registrou volumes bem acima da média em várias regiões, impulsionado por sistemas atmosféricos intensos. Em janeiro, as precipitações foram principalmente influenciadas pela Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), pela banda de nebulosidade oriunda da Amazônia e por sistemas que também afetaram o Sul e Sudeste do país, com dois episódios principais no mês e um adicional em fevereiro.

“Em fevereiro, o canal de umidade ‘fechou’, sem formação de uma zona de convergência associada a área de baixa pressão que mantivesse as nuvens sobre a região”, explicou Anete Fernandes. Já em março, o início do mês foi marcado pela passagem de uma frente fria, com cavados — áreas de instabilidade — se propagando dessas regiões para o estado.

As condições favoráveis em baixos, médios e altos níveis da atmosfera, combinadas ao aquecimento diurno, favoreceram a formação de nuvens profundas e convectivas, espessas e carregadas de água na coluna atmosférica, características típicas de temporais intensos.

“Temos tido valores altos de chuva nos estados do Sul e Sudeste do país, com nuvens convectivas profundas que podem chegar a 15 km de altura, gerando raios e acumulados expressivos”, explicou a meteorologista.

Anete Fernandes reforça que esses eventos fazem parte da variabilidade climática, mas agravada pelas mudanças no clima causadas pela ação humana. “A atmosfera busca o equilíbrio térmico o tempo todo e trabalha pra equilibrar, podendo ter chuva em um local e seca no outro, calor e frio em áreas diferentes, buscando essa harmonia”, explicou Anete.

O que é La Niña?

La Niña é um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, oposto ao El Niño. Ele altera padrões globais de circulação atmosférica, aumentando a probabilidade de chuvas acima da média em regiões como o Sudeste e Centro-Oeste brasileiros durante o verão e outono, especialmente quando associado a sistemas como a ZCAS e cavados propagados. No caso atual, uma La Niña fraca tem atuado desde o final de 2025, promovendo maior instabilidade e volumes elevados de precipitação em Minas Gerais, embora projeções indiquem transição para neutralidade ainda em março-abril de 2026.

Tragédia na Zona da Mata

A tragédia mais grave desta temporada em Minas concentrou-se na Zona da Mata mineira, onde temporais intensos entre o final de fevereiro e início de março provocaram enchentes, deslizamentos de encostas e destruição em várias cidades, resultando em 72 mortes confirmadas — sendo 65 em Juiz de Fora e 7 em Ubá, segundo balanços da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Juiz de Fora registrou volumes recordes, como mais de 760 mm em fevereiro (o mês mais chuvoso da história local), com picos intensos de 150 mm em poucas horas, que levaram a soterramentos, bairros isolados e estado de calamidade pública.

“A Mata Atlântica contribui localmente com muita umidade, e quando uma frente estaciona e fecha uma baixa entre o litoral e a Serra da Mantiqueira, o sistema ganha escala maior, favorecendo chuvas volumosas em relevo acentuado”, destacou Anete Fernandes, que frisou que o relevo montanhoso da região, aliado à vulnerabilidade de solos alterados pela urbanização irregular, elevou o risco de desmoronamentos em áreas habitadas.

Rio em Ubá

Temporais na região central

Em Belo Horizonte e na Região Metropolitana, as chuvas fortes dos últimos dias — especialmente entre 6 e 12 de março — causaram transtornos significativos. Temporais intensos, como o do sexta (6) – com acumulados de até 90 mm na região da Pampulha e 74 mm no Taquaril, na região Leste – provocaram alagamentos, quedas de árvores, interrupções de energia e danos em vias e estruturas. A Defesa Civil registrou ocorrências em várias regionais, com volumes que representaram até 43% da média mensal de março em poucas horas, além de raios e ventos fortes.

Na quarta-feira (11/3), as chuvas alagaram vias, derrubaram mais de 10 árvores, interditavam ruas e danificaram estruturas como Unidades Básicas de Saúde e muros de escolas. A Defesa Civil registrou ocorrências de alagamentos e quedas de energia, com volumes classificados como “extremamente fortes” nas regiões Leste e Centro-Sul da capital.

Previsão para os próximos dias

O Inmet emitiu alertas de perigo para chuvas intensas (50-100 mm/dia) na Grande BH, com ventos fortes e risco de novos episódios até esse fim de semana (13 a 14 de março).

As chuvas vão diminuir a partir de segunda-feira (16/3), com o fluxo de umidade enfraquecendo e os acumulados se tornando menores em grande parte de Minas Gerais. No entanto, o período chuvoso continua até abril, quando entra o outono e a estação muda oficialmente, marcando a transição para condições mais secas e temperaturas amenas.

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