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Minas Gerais

Implante coclear: a tecnologia que devolveu a audição a jovem mineira

Ryany, de São José do Goiabal, realizou a cirurgia este mês. A ativação da audição emocionou e marcou início de nova etapa na vida dela

21/09/2026 02:00
redes sociais
Ryany, implante coclear

Belo Horizonte – Ryany Soares Linhares Marques, de 18 anos, moradora de São José do Goiabal, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, viveu um momento marcante nesta semana: ouviu a própria voz pela primeira vez. A jovem, diagnosticada com deficiência auditiva aos 3 anos, passou pela cirurgia de implante coclear e, cinco dias depois, na ativação do dispositivo, se emocionou ao perceber os sons de uma forma inédita.

“Essa é a minha voz?”, perguntou Ryany, surpresa e com os olhos marejados, em vídeo que viralizou nas redes sociais.

A reação, registrada durante a consulta de ativação, mostra o sorriso e as lágrimas de quem descobria um novo mundo sonoro após anos de limitações.

Da infância com aparelhos à cirurgia

Segundo Simone Coelho Lana, coordenadora do Centro Especializado em Otorrinolaringologia, responsável técnica do serviço de fonoaudiologia no Hospital Arnaldo Gavazza, Ryany é acompanhada desde os 5 anos. Inicialmente, o trabalho também envolvia o desenvolvimento da fala. Com o uso dos aparelhos auditivos e o acompanhamento regular, a paciente conseguiu desenvolver a comunicação oral.

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Ao longo dos anos, porém, a perda auditiva de Ryany apresentou piora progressiva. Com a redução do benefício proporcionado pelos aparelhos auditivos, a equipe passou a avaliar a indicação do implante coclear.

“Ela teve uma questão da perda dela, teve uma piora progressiva, até o ponto que chegou na indicação do implante coclear”, explicou Simone.

Aos 18 anos, após avaliação multidisciplinar, ela foi indicada para o implante coclear — um dispositivo eletrônico que contorna as estruturas danificadas do ouvido interno e estimula diretamente o nervo auditivo.

A cirurgia foi realizada recentemente, e a ativação ocorreu apenas cinco dias depois do procedimento, prazo considerado rápido. O dispositivo utilizado é da marca MED-EL. Ryany conta que a percepção da própria voz foi uma das maiores emoções: “Minha reação foi de surpresa, emoção e muitas lágrimas”.

 

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Ryany foi também o primeiro caso acompanhado pelo serviço em que houve, segundo Simone, uma ativação mais precoce do implante, conforme novas normativas. A medida permitiu que a paciente tivesse contato com o estímulo do dispositivo pouco tempo após a cirurgia.

“Isso diminui a ansiedade da família, você já vê um resultado. Então, foi uma alegria muito grande da família, de todo mundo se comoveu, a gente aqui também”, contou Simone.

Para a profissional, a reação de Riane diante do novo estímulo também teve um significado especial para toda a equipe que a acompanha há anos. “Para ela é um mundo novo”, afirmou.

Como funciona o implante coclear

Segundo o otorrinolaringologista Eduardo Rossi, cooperado da Unimed-BH, o implante coclear é um aparelho eletrônico com dois dispositivos: um interno, colocado sob o músculo, e outro externo, visível.  A parte externa é o processador de fala com microfone e a interna é o receptor e eletrodos inseridos na cóclea durante a cirurgia.

Ele transforma o som em estímulo elétrico e, por meio de um eletrodo, envia impulsos diretamente ao nervo da audição, na cóclea.

“É uma audição elétrica, não acústica. No início, a voz pode parecer robótica, como os Munchkins de *O Mágico de Oz*”, explica o médico. Com o tempo e a reabilitação, os pacientes conseguem entender a fala e até ouvir música.

Segundo Rossi, há casos de músicos que perderam a audição e voltaram a exercer a profissão.

Estudos médicos mostram que, em adultos e jovens pós-linguais ou com boa reabilitação prévia, a compreensão de fala costuma melhorar significativamente. Em média, a taxa de reconhecimento de palavras sobe de cerca de 8% antes do implante para mais de 50% depois, com ganhos ainda maiores em sentenças.

A qualidade da audição é eletrônica — não idêntica à natural —, e o cérebro precisa de tempo para se adaptar aos novos estímulos.

A cirurgia é feita sob anestesia geral, com duração média de 1,5 a 3 horas, e a recuperação costuma ser rápida. A reabilitação fonoaudiológica é essencial para os melhores resultados.

Quem pode fazer a cirurgia

O procedimento é indicado para perdas auditivas profundas bilaterais — pessoas que nasceram sem escutar ou que perderam a audição nos dois ouvidos. Antes, o paciente passa por avaliação conjunta de otorrino e fonoaudiólogo para confirmar o grau da perda e a existência do nervo auditivo.

Para perdas leves ou moderadas, o implante ainda não é indicado no Brasil. Nesses casos, usa-se o aparelho auditivo convencional. Em perdas profundas unilaterais, as diretrizes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) começam a considerar a possibilidade, já aplicada em estudos nos Estados Unidos.

A indicação vale desde os 6 meses de idade e não tem restrição para idosos. Quem já usa aparelho convencional também pode ser candidato se a perda for profunda.

Cirurgia é só o primeiro passo

A reação emocionada de Ryany, segundo do Dr. Rossi, não acontece com todo mundo. “Cada caso é individual. Tem paciente que liga o aparelho pela primeira vez e ainda não consegue escutar”, destaca Rossi. A cirurgia é apenas o início. Depois do procedimento cirúrgico, é necessário acompanhamento fonoaudiológico intensivo para o cérebro aprender a interpretar os novos estímulos.

“Quando aprendemos a ouvir, éramos muito novos. São capacidades que precisam ser desenvolvidas novamente”, afirma o otorrino.

Cobertura e benefícios além da audição

Apesar do custo elevado do aparelho, a cirurgia é coberta pelo SUS e pelos planos de saúde. O procedimento começou a ser mais realizado a partir da década de 1990 e ganhou força depois de 2010, mas o número de pacientes implantados ainda está muito aquém do potencial, especialmente entre adultos e idosos.

No público infantil, a triagem auditiva neonatal (teste da orelhinha) facilita o encaminhamento. Já entre os mais velhos, o preconceito e a dificuldade de lidar com o envelhecimento atrapalham. Rossi ressalta que o estímulo auditivo funciona como uma “academia para o cérebro”: ativa vias cerebrais, ajuda a reduzir riscos de demência e depressão e combate o isolamento social.

Ryany ainda está no começo da adaptação, com treinos e acompanhamento. Para ela, o momento de ouvir a própria voz representou a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos — e o primeiro passo de uma nova forma de perceber o mundo.

Ainda no início da adaptação

Ryany está no começo do processo de adaptação ao implante. Ela segue em acompanhamento e treino auditivo, mas já descreve a etapa como a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos, com apoio constante da família e de profissionais.

O caso da jovem mineira ilustra o impacto do implante coclear na vida de pessoas com surdez severa a profunda que não obtêm benefício adequado com aparelhos convencionais. A tecnologia, disponível também pelo SUS em centros especializados, continua transformando trajetórias em Minas Gerais e no Brasil.