“Era tudo pra mim”: jovem resgatada após deslizamento em MG perde irmão de 11 anos
Adolescente de 16 anos ficou soterrada ao lado da mãe após desabamento que destruiu 12 casas em Juiz de Fora; irmão de 11 anos morreu
atualizado
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Juiz de Fora – O desastre das chuvas transformou para sempre a história de dezenas de famílias da Zona da Mata mineira. Em um instante, a vida cotidiana virou caos quando a força da água fez tombar morros em cima de casas e ruas em cidades como Juiz de Fora e Ubá. Agora, as vítimas tentam juntar os cacos.
Por volta das 21h30 de segunda-feira (23/2), um estrondo rompeu a rotina de diversas famílias na Rua Natalino José de Paula, no Parque Burnier, em Juiz de Fora. Em questão de segundos, a casa onde estavam mãe, filha e filho veio abaixo após um deslizamento de terra que destruiu cerca de 12 imóveis no mesmo ponto.
O menino Bernardo Lopes Dutra, mais conhecido na comunidade como “Tomatinho”, de 11 anos, morreu. A irmã dele, Ana Clara Lopes Dutra, de 16, foi resgatada com vida depois de ficar soterrada ao lado da mãe.
Em entrevista ao Metrópoles, a adolescente relatou que estava sentada no sofá assistindo televisão quando a estrutura da casa da família começou a estremecer. A chuva era intensa desde o final da tarde de segunda-feira. O pai havia saído para tratar de uma proposta de emprego e não estava na residência no momento do desabamento.
Minutos antes da tragédia, Bernardo entrou na sala para perguntar sobre o bife que estava separado para o pai. A mãe disse que ele poderia comer e que depois faria outro. O menino seguiu pelo corredor, em direção à cozinha. Logo depois, segundo Ana, houve o forte barulho e a casa desmoronou sem dar tempo de correrem.
Ela e a mãe foram atingidas na sala e ficaram presas sob os escombros por cerca de três minutos. Conseguiram dar as mãos enquanto aguardavam socorro e foram as primeiras a serem retiradas por vizinhos. Em seguida, foram encaminhadas feridas ao Hospital de Pronto Socorro (HPS).
Ana sofreu fratura na clavícula e deverá passar por cirurgia. A mãe apresentou diversos hematomas após ficar prensada pelas paredes. Ambas permanecem internadas.
O corpo de Bernardo foi localizado posteriormente e enterrado na terça-feira (25). O funeral reuniu dezenas de familiares, amigos e moradores da região, que foram ao cemitério prestar as últimas homenagens ao menino, que, diziam, tinha um futuro brilhante no futebol pela frente.
Além dele, o avô materno da jovem também foi encontrado morto. Outros parentes e vizinhos estão entre as vítimas do deslizamento. A avó paterna e uma tia seguem desaparecidas, e equipes de resgate continuam as buscas na área atingida.
Sobre o irmão, Ana descreveu a relação dos dois e relembrou momentos da infância: “Meu irmão era tudo pra mim, nós tínhamos 5 anos de diferença, sempre foi muito bagunceiro, já teve acidentes de criança, vivia caindo. Tivemos a sorte de ser sorteados na mesma escola, mas no 1º ano dele veio a pandemia, foi onde aprendi a cuidar dele. Passamos muitos momentos juntos, brigávamos quase todos os dias, mas sempre nos resolvemos porque um era a vida do outro”, relatou ela.
“As paixões dele com certeza eram jogar bola e soltar pipa, mas amava bater cartinha, jogar Free Fire, ficar na rua com os amigos. Amava quando ele vinha dormir comigo, receber seus abraços e as implicâncias. Tem várias coisas pra falar e não vai caber aqui, mas de uma coisa eu sei: ele é meu eterno jogador, amor da minha vida, meu tudo”, seguiu a jovem.
O pai da adolescente não sofreu ferimentos. Após o sepultamento do filho, retornou ao local do deslizamento para acompanhar as buscas, já que a própria mãe permanece desaparecida. A família também abriu uma vaquinha para tentar reconstruir a vida.
Mais de 700 mm de chuva e dezenas de mortes na Zona da Mata
Juiz de Fora vive o mês mais chuvoso da história, com acumulado superior a 700 milímetros e previsão de mais precipitações até sexta-feira (27/2), segundo as previsões meteorológicas. O volume já supera mais de quatro vezes a média histórica para todo o mês e tem provocado uma sequência de deslizamentos, alagamentos e desabamentos na cidade e em municípios da Zona da Mata.
De acordo com o balanço da noite de quinta (26/2), eram 59 mortes confirmadas na região — 53 em Juiz de Fora e seis em Ubá. Ao todo, 45 vítimas já foram identificadas e liberadas para as famílias.
Ainda há 15 pessoas desaparecidas, sendo 13 em Juiz de Fora e duas em Ubá.
As equipes de resgate atenderam 82 chamados relacionados a soterramentos, com 239 pessoas resgatadas. Em relação ao impacto social, 253 pessoas estão desabrigadas e acolhidas em abrigos públicos em Juiz de Fora. Outras 5.510 estão desalojadas — 3.500 em Juiz de Fora, 810 em Matias Barbosa e 1.200 em Ubá.
A tragédia registrada na Rua Natalino José de Paula, no Parque Burnier, está entre os episódios mais graves do período chuvoso, com 12 casas destruídas após um deslizamento de terra.
As autoridades seguem em alerta devido à previsão de continuidade das chuvas, o que mantém elevado o risco de novos deslizamentos em áreas de encosta.













