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Minas Gerais

Delivery, telas e pouca atividade física: o alerta de uma pesquisa mineira

Estudo da UFMG aponta relação entre uso de aplicativos, longas jornadas de trabalho sentadas e maior exposição às telas

06/10/2026 02:00
Divulgação
Delivery, telas e pouca atividade física: o alerta de uma pesquisa mineira

Belo Horizonte – Pedir comida pelo celular pode estar relacionado a um estilo de vida mais sedentário. É o que aponta um estudo da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisou o uso de aplicativos de entrega de alimentos entre 839 adultos brasileiros.

Segundo a pesquisa, 76,52% dos participantes já haviam utilizado aplicativos de delivery. Entre os usuários, foram observados comportamentos associados ao sedentarismo, como menor tempo dedicado às atividades domésticas, menor prática de atividade física, mais horas sentados e maior exposição às telas.

O estudo foi conduzido pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde da UFMG Paloma Aparecida Anastacio Barros, sob orientação das professoras Paula Martins Horta e Daniela Canella. Os resultados foram publicados na revista científica Journal of Food Sciences and Nutrition.

delivery

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Mais de 8 horas sentado dobram prevalência de uso

Um dos resultados considerados mais relevantes pela pesquisadora foi a associação entre o tempo que os participantes permaneciam sentados e o uso regular dos aplicativos.

Entre aqueles que passavam oito horas ou mais por dia sentados, a prevalência de uso regular de aplicativos de entrega foi aproximadamente o dobro da observada entre participantes que permaneciam sentados por até três horas.

“É importante destacar que isso não é causa e efeito. É como se estivéssemos tirando uma fotografia daquele momento. Os dois comportamentos estavam presentes, mas não conseguimos dizer, por esse tipo de estudo, se o sedentarismo vem primeiro ou se o uso do aplicativo vem primeiro”, explica Paloma Barros.

A pesquisadora afirma que os resultados apontam para um conjunto de comportamentos. Os usuários regulares apresentavam, simultaneamente, maior tempo sentado, maior exposição às telas, menor prática de atividade física e menos tempo dedicado às atividades domésticas.

“São indivíduos que trabalham em tempo integral, têm uma longa jornada de trabalho e acabam buscando conveniência e facilidade. E isso é justamente o que encontram nos aplicativos”, afirma.

Foto colorida de uma pessoa com um boal de poke com o celular na mão - Metrópoles

Delivery vira atalho para quem vive diante das telas

Do total de participantes, 27,10% relataram utilizar aplicativos de entrega pelo menos uma vez por semana, grupo considerado de usuários regulares pela pesquisa. Havia ainda participantes que faziam pedidos duas, três ou até quatro vezes por semana.

A frequência de uso mais comum entre os participantes foi de duas a três vezes por mês, registrada por 29,08% da amostra.

Para Paloma, os aplicativos devem ser compreendidos dentro de uma mudança mais ampla na rotina. Em vez de deslocar-se até um restaurante ou dedicar tempo ao preparo da própria refeição, o consumidor pode resolver a alimentação sem sair de casa ou sequer interromper as atividades realizadas diante das telas.

“Quando tínhamos mais o hábito de ir ao restaurante, movimentávamos o mínimo que fosse. Hoje, nem isso necessariamente fazemos mais: a comida chega à porta da nossa casa”, observa a pesquisadora.

O estudo identificou ainda que os usuários regulares trabalhavam mais frequentemente em tempo integral e apresentavam maior exposição às telas durante o trabalho e o lazer.

Pizza, hambúrguer e salgados

A pesquisa também investigou o que os usuários costumavam pedir. Entre os participantes que utilizavam regularmente os aplicativos, 51,7% afirmaram pedir refeições completas em pelo menos metade das vezes.

Nesse grupo estavam pratos como arroz, feijão, carnes e massas.

Os lanches também tiveram presença expressiva. 39,7% relataram pedir hambúrgueres, pizzas e salgados em pelo menos metade dos pedidos.

Já alimentos como frutas e saladas de frutas apareciam raramente nas encomendas. Segundo o estudo, 92% dos participantes afirmaram pedir esses alimentos com baixa frequência.

“Como nutricionista me preocupa o hábito. A gente vive hoje uma sociedade com um prevalência alta de obesidade e hoje no Brasil mais da metade da população está com excesso de peso”, explicou.

92% dos entrevistados afirmaram raramente pedir frutas e saladas de frutas por aplicativo. A baixa frequência também foi observada para açaí e sorvetes (73%) e para saladas, vegetais e preparações à base de alimentos frescos ou minimamente processados (67,8%).

Marketing pode influenciar o que chega à porta

Para a pesquisadora, outro ponto que merece atenção é a forma como os alimentos são promovidos dentro das plataformas digitais.

Segundo Paloma, estratégias como descontos, promoções e entrega gratuita aparecem com frequência associadas a produtos como pizzas, hambúrgueres e outros alimentos ultraprocessados ou mais densos em calorias.

“Você vê promoção de compre um, leve dois para pizza e para sanduíche. Não vê isso com a mesma frequência para uma salada”, afirma.

Ela ressalta, porém, que os aplicativos não precisam ser encarados como vilões. A preocupação, segundo a nutricionista, está no padrão de utilização e nos alimentos escolhidos.

“Não temos que demonizar os aplicativos. Eles podem ser úteis para pessoas que têm um estilo de vida corrido. Mas precisamos lembrar que tipo de alimento estamos comprando”, explica.

Foto: GettyImages
O delivery cresceu e continua em alta

Pesquisadora alerta para rotina cada vez mais sedentária

A pesquisa utilizou dados do projeto Coorte de Universidades Mineiras (CUME+), que acompanha hábitos de vida e alimentação de adultos egressos de instituições de ensino superior. Participaram pessoas formadas em universidades públicas de Minas Gerais e de outras instituições federais brasileiras.

A maioria dos usuários eram adultos com idades entre 30 e 39 anos (40,03%), trabalhavam em tempo integral (77,10%), passavam 8 horas ou mais em frentes as telas para trabalho e dedicavam menos tempo às atividades domésticas – 48,13% relataram gastar de 1 a 2 horas por dia e 31,46% menos de 1 hora.

Por isso, Paloma ressalta que os resultados não representam automaticamente toda a população brasileira. Trata-se de uma amostra específica de adultos com formação universitária, que apresenta características socioeconômicas diferentes das observadas em grande parte da população.

Ainda assim, segundo a pesquisadora, os resultados ajudam a compreender uma transformação no ambiente alimentar: as escolhas relacionadas à alimentação estão cada vez mais mediadas por plataformas digitais.

“É uma população muito ocupada, com excesso de telas, que acaba querendo economizar tempo. A questão é: esse tempo está sendo gasto onde? Se a pessoa deixa de cozinhar, deixa de fazer atividade física e reduz as atividades domésticas, precisamos entender esse conjunto de comportamentos”, afirma.

Para Paloma, o desafio está em observar não apenas com que frequência uma pessoa utiliza o delivery, mas também o que ela está comprando e como o serviço se encaixa em sua rotina.

“Se a plataforma está fazendo parte do seu dia a dia, é preciso observar se você está deixando de comer de maneira mais saudável em casa, qual é a frequência de uso e, principalmente, qual é o tipo de alimento adquirido”, conclui.