
Como BH acompanhou 1ª Copa do Mundo sem TV e com megafones em 1930
Na primeira Copa do Mundo, BH ainda era uma cidade jovem, sem Pampulha, sem Mineirão, mas com o futebol já como lazer

Belo Horizonte – Sábado (13/6) dia de estreia do Brasil na Copa do Mundo: ruas coloridas, muita gente reunida em bares e outras preparando a torcida em casa. Mas você já imaginou como era acompanhar a Seleção em Belo Horizonte na década de 1930?
Na época, a capital tinha apenas 32 anos, cerca de 200 mil habitantes, e os gritos da torcida se misturavam ao som dos bondes elétricos e das carroças, que ainda faziam parte da rotina de uma cidade jovem, que começava a se expandir para além da Avenida do Contorno.
Megafones na rua da Bahia
Sem televisão e com o rádio ainda começando, os moradores da capital acompanhavam as partidas da primeira Copa, disputada no Uruguai, por meio de mensagens enviadas por telégrafo, sistema que transmitia informações à distância por sinais elétricos.
“As notícias da Copa chegavam por telégrafo, e alguns jornais recebiam informações sobre gols e lances durante as partidas do Brasil. Essas atualizações eram anunciadas por megafone para milhares de pessoas reunidas nas imediações da Rua da Bahia, em busca dos resultados”, contou Rafael Sette, que desenvolve pesquisas sobre a memória da cidade e um dos fundadores do Caminhadas BH, projeto que promove caminhadas temáticas para contar a história de BH.

América na frente
Enquanto os olhos do mundo estavam voltados para o Uruguai, onde acontecia o torneio, o futebol de BH era dominado pelo América. O clube já tinha conquistado dez títulos mineiros, enquanto Atlético e Palestra Itália (nome que o Cruzeiro usava na época) somavam três conquistas cada.
“O futebol já era muito importante em Belo Horizonte desde a década de 1910 e foi ganhando cada vez mais espaço ao longo dos anos 1920. Em 1930, já era a principal atividade esportiva e uma das principais formas de lazer da cidade. Já existiam América, Atlético e Cruzeiro, que na época se chamava Palestra Itália. O América era o maior vencedor do Campeonato Mineiro e, em 1930, já tinha 10 títulos“, disse Rafael, que desenvolveu uma série que utiliza as Copas do Mundo como ”relógio” para contar a história da cidade ao longo das décadas.
De estádio ao Mercado Central
É onde hoje fica o Mercado Central, no Hipercentro, que ficava o estádio do América. “A prefeitura pediu que o clube deixasse o local e, em troca, cedeu um terreno onde seria construído o segundo estádio do América, ao lado do Viaduto Francisco Sales (região Leste), onde hoje funciona uma rede de supermercados”, disse Rafael.
Em 1929, foi inaugurado o Mercado Municipal que hoje chamamos de Mercado Central. “Naquele momento, entretanto, ele ainda era formado por barracas e estruturas simples, muito distante da construção que se tornaria um dos símbolos da cidade”, disse Michelle Torre, historiadora e coordenadora de Pesquisa, Preservação e Educativo do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH).
Ainda de acordo com ela, os registros abaixo são de períodos posteriores, mas ainda representam bem como a cidade funcionava em 1930.
Dos cafés ao Carnaval
Além do futebol, a elite circulava no bairro Funcionários, na região Centro-Sul, então o mais valorizado da cidade, e nos cafés do centro. Michelle conta que um dos pontos mais conhecidos era o Bar do Ponto:
“Apesar de jovem, Belo Horizonte já oferecia algumas opções de lazer. O principal espaço cultural era o Teatro Municipal, que décadas depois se transformaria no Cine Metrópole. Havia também cafés e confeitarias, como o Bar do Ponto, na esquina da Rua da Bahia com a Avenida Afonso Pena, frequentado por políticos, jornalistas e intelectuais. Passeios pela Avenida Afonso Pena, pelo Parque Municipal e pela Praça da Liberdade também faziam parte da rotina da cidade”, disse Michelle.

E, diferente do que muita gente imagina, BH já tinha Carnaval em 1930! A festa era popular, mas diferente do que vemos hoje: eram os “corsos”, desfiles de carros decorados que percorriam a Avenida Afonso Pena, que encatavam quem ia às ruas.
“O carnaval já era uma das principais festas populares da cidade, embora bastante diferente do que conhecemos hoje. As comemorações aconteciam principalmente no centro da cidade e eram marcadas pelos chamados corsos, desfiles de automóveis decorados que percorriam avenidas como a Afonso Pena. Clubes recreativos organizavam bailes carnavalescos, e grupos musicais animavam as ruas. Também havia blocos e manifestações populares, mas o carnaval ainda possuía forte influência dos modelos europeus e das festas organizadas pelas elites urbanas”, contou.
Inauguração do Viaduto Santa Tereza
A cidade também ganhava um dos principais cartões-postais. Inaugurado em 1929, o Viaduto Santa Tereza ligava o Centro ao bairro Floresta e simbolizava a modernidade da capital. A estrutura substituiu uma antiga passagem sobre o Ribeirão Arrudas e a linha férrea.
“Muito cedo, Carlos Drummond de Andrade criou o hábito de atravessar o Viaduto Santa Tereza por cima dos arcos, algo que acabou se tornando quase um rito de passagem para gerações de belo-horizontinos. Muita gente repetiu a prática depois dele, como o escritor Fernando Sabino. Drummond morava no bairro Floresta, na Rua Silva Jardim, e trabalhava na região da Rua da Bahia, então fazia esse trajeto quase diariamente”, contou Rafael.
E já imaginou BH sem a Lagoa da Pampulha? Em 1930, ela não existia. O famoso conjunto arquitetônico idealizado por Juscelino Kubitschek só seria inaugurado em 1943.
“A Pampulha só seria represada durante a gestão do prefeito Otacílio Negrão de Lima, e o Conjunto Moderno da Pampulha foi inaugurado em 1943, ou seja, alguns anos depois da Copa de 1930. Naquela época, a cidade ainda não havia avançado em direção à Pampulha. Foi o próprio Juscelino Kubitschek quem criou o conjunto moderno, com uma área de lazer, e abriu a estrada da Pampulha, atual Avenida Antônio Carlos”, acrescentou.
Revolução de 30
Nem tudo era festa. Naquele ano, a Revolução de 1930 colocou fim à política do “café com leite”, que alternava o poder entre Minas Gerais e São Paulo.
Em Belo Horizonte, houve confrontos entre a Força Pública mineira e o Exército Federal. Segundo Rafael, os conflitos deixaram cerca de 60 mortos.
“Um episódio marcante foi o ataque da Força Pública ao Quartel do 12º Regimento de Infantaria do Exército, localizado na região da Barroca. Os bairros Barro Preto, Barroca, Calafate e Prado, que ficavam no entorno do quartel, foram diretamente afetados pelo conflito. O confronto ocorreu no início de outubro e provocou o fechamento de escolas, transportes e serviços de abastecimento. Houve mortos e feridos, e os moradores conviviam com o medo de balas perdidas, situação registrada inclusive nos jornais da época“, disse Michelle.
























