15 toneladas de serragem serão usadas nos tapetes de Ouro Preto
A confecção será realizada no sábado de Aleluia (4/4) por moradores e turistas, que num gesto de fé se unem para colorir as ruas da cidade
atualizado
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Belo Horizonte – Ouro Preto, cidade histórica localizada na Serra do Espinhaço em Minas Gerais tem uma tradição que remonta ao ano de 1733: A confecção de tapetes de serragem, retratando imagens religiosas que colorem as ladeiras da cidade.
Os tapetes são montados em um percurso de aproximadamente dois quilômetros, ligando a igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias à matriz de Nossa Senhora do Pilar.
A confecção começa por volta das 21h no sábado de Aleluia e é realizada por moradores e turistas que se unem para deixar tudo pronto para o dia seguinte, para a passagem da Procissão da Ressurreição, no Domingo de Páscoa.
Este ano, serão utilizadas 15 toneladas de serragem colorida, além de outros produtos como cal, farinha de trigo, pó de café e flores, formando um extenso caminho com desenhos com motivos religiosos.
De acordo com o secretário de Cultura e Turismo de Ouro Preto, Flávio Malta, a prefeitura organiza a logística e a manutenção dos tapetes.
“A prefeitura é responsável por toda a logística, desde a obtenção e coloração da serragem até sua distribuição nos pontos estratégicos, além da organização da cerimônia e da limpeza do tapete após a passagem. Assim, essa tradição permanece como uma parte significativa e bela da cultura local”, declara o secretário.
Esse importante símbolo cultural e religioso da cidade é feito sempre na Semana Santa e no feriado de Corpus Christi. Flávio Malta ressalta que essa prática realizada todos os anos é muito valorizada e preservada. “Esse momento é de grande importância cultural para a cidade, pois reúne tradição, religiosidade e fé do povo cristão de Ouro Preto”, afirma.
Sobre a confecção dos tapetes
A Coordenadora do Núcleo de Arte e Ofícios da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), Rachel Falcão, participa da montagem dos tapetes desde quando chegou para residir em Ouro Preto, há 18 anos. Para ela, essa tradição a encantou desde a primeira vez em que acompanhou.
“Sendo artista, quando cheguei à cidade essa foi uma manifestação cultural que me encantou logo de cara – uma possibilidade de ocupação artística das ruas para servir de suporte a outra manifestação cultural e religiosa – a Procissão do Domingo da Ressureição. Como existe a possibilidade de qualquer pessoa ocupar qualquer espaço do trajeto da procissão com a confecção de tapetes, criando suas próprias imagens e modo de fazer, era uma alegria participar dessa que é uma das noites mais lindas do ano na cidade, e saía pras ruas com moldes e ideias de desenhos, para também encontrar os amigos e acolher os turistas que queriam experimentar a prática da confecção dos tapetes“.
Na cidade a tradição é repassada de pais para filhos, perpetuando uma arte que encanta tanto moradores quanto visitantes. Como entusiasta desta arte, Rachel motiva outras pessoas a participarem.
“Tento mobilizar professores e alunos para a produção de desenhos, moldes e a própria confecção, na noite e madrugada de sábado para domingo. No ano passado, a Paróquia de Nossa Sra. da Conceição pediu nossa ajuda no levantamento dos nomes e contatos dos artistas da cidade, a fim de convidá-los a participar da criação e confecção de tapetes”, afirma.
Os tapetes podem ser confeccionados por qualquer pessoa, mas há no Núcleo de Arte e Ofícios um grupo de professores e alunos que participam desse trabalho.
“Já chegamos a fazer concurso de desenho entre os alunos, com votação pública, para escolher aqueles que seriam executados como tapetes. Alguns professores também fazem formas e moldes, mas, no geral, qualquer pessoa que queira pode criar um desenho e executá-lo nas ruas, no trajeto da procissão. Inclusive, espera-se que isso aconteça”, declara.
Sobre as formas para fazer os desenhos, Rachel explica as várias possibilidades. “Podemos utilizar fôrmas feitas de madeira, de ferro ou de papelão, geralmente com desenhos geométricos, que são preenchidos com serragem. Pode-se desenhar direto no chão (com giz ou pedra sabão); levar moldes de desenhos ampliados no papel kraft e montar o tapete de serragem sobre o papel; desenhar utilizando a ajuda de um barbante; ou utilizar as fôrmas já mencionadas”, explica.
História
A confecção dos tapetes de serragem em Ouro Preto remonta ao ano de 1733, durante o triunfo eucarístico, uma grande celebração sagrada e pagã do período barroco, ainda no Brasil colonial. Essa festividade ocorreu por ocasião da reabertura da matriz de Nossa Senhora do Pilar, quando as ruas foram enfeitadas com tapetes de flores e folhas, além das sacadas que foram decoradas com tecidos nobres, em uma demonstração da riqueza que marcou o período barroco em Vila Rica naquele momento.
Desde então, os tapetes de serragem passaram a fazer parte dessa tradição, especialmente durante as saídas da eucaristia pelas ruas da cidade, sendo confeccionados no domingo da ressurreição e no dia de Corpus Christi, datas importantes em que se prepara o percurso para a passagem do Santíssimo.
A prática, realizada ano após ano e passada de geração em geração é de extrema importância para preservar um dos mais importantes patrimônios imateriais do município.

















