Candango Django

Fuga Sem Destino, o oitavo e último filme de Afonso Brazza (1955-2003), acaba de receber versão digital sob patrocínio do Grupo Metrópoles. Praticamente inédita, de tão pouco exibida, agora a obra pode reencontrar o público e atingir uma geração que ainda não conhece Brazza, um dos artistas mais cultuados do cinema brasiliense.

A cópia digital em full HD foi realizada no laboratório CineColor, de São Paulo. O filme recebeu finalização em digital cinema package (DCP) — formato que, na última década, estabeleceu-se como padrão para as salas comerciais e também para as mostras de cinema.

Essa digitalização foi feita a partir da única cópia existente do filme, em película 35mm. Originalmente rodado em 2002, Fuga Sem Destino teve uma pós-produção atribulada, sendo finalizado apenas em 2006, três anos após a morte de seu diretor e produtor.

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Pouco antes de morrer de câncer, aos 48 anos de idade, Afonso Brazza pediu para o amigo e colega cineasta Pedro Lacerda finalizar a fita. Derradeiro gesto de confiança de um homem que, por toda a carreira, cuidou pessoalmente de cada etapa da realização cinematográfica, do roteiro à montagem, além de protagonizar e produzir todos os oito filmes que fez.

Agora com a parceria entre o Metrópoles e Pedro Lacerda, a última aventura do cineasta-bombeiro do Gama está preservada. Lacerda pretende relançar Fuga Sem Destino, primeiramente nas salas de cinema do Distrito Federal, para, em seguida, oferecê-lo às plataformas de streaming.

Morte e renascimento

Fuga Sem Destino, a princípio, não é muito diferente dos sete filmes anteriores de Afonso Brazza. A saber: um notório fora da lei (Trovão, personagem vivido por Brazza) aceita uma última missão (resgatar um grupo de prisioneiros) e, quando tudo dá errado, ele se vê sozinho e precisa resolver as coisas de seu próprio jeito (com tiros e pontapés).

Pouca gente imaginava, porém, que esse seria o último filme da AFB Studio. A produtora de Afonso Brazza, na prática, era apenas ele mesmo — e Brazza guardou para si a realidade de seu quadro de saúde o máximo que pôde.

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depoimento de Carlinhos Beauty Cabeleireiro,
celebridade e ator de
Fuga Sem Destino

Eu fui convidado para ser jurado de um karaokê num bar chamado Amore Mio. O Ricardo Noronha também fazia parte do júri e ficou encantado com a minha participação. Foi quando me chamou para ser estrela dos programas dele na tevê. Trabalhamos juntos por uns dez anos. Foi o Ricardo que me apresentou ao Afonso Brazza, dizendo que eu era uma celebridade e que eu era muito bom em tudo o que eu fazia. Então, o Afonso fez uma entrevista comigo e ficou enlouquecido. Queria que eu fizesse todos os filmes dele! Dizia para mim que eu era uma de suas estrelas prediletas.

Lembro de uma cena de Fuga Sem Destino, que a gente fez naquele matagal lindo, perto do Zoológico, uma área verde próxima da Vila Telebrasília. Eu usava um facão na cintura e, quando entrava na floresta, vinha um monte de cobras para me atacar e eu me defendia com o facão. Eu tentava cortar as cabeças delas e elas abriam aquelas bocas imensas, querendo me engolir. Ai! Eu me senti um gladiador, um Tarzan na floresta! Fiquei encantado.

Lembro também de uma cena naquela boate muito chique que tinha no Liberty Mall. Foi um escândalo! Eu contracenava com o Ricardo e ele fazia um barão no filme, então eu aparecia para ele levando umas meninas lindas. Arrebentei a boca do balão!

Nessa época, eu comecei a fazer vários programas de tevê em São Paulo, fiz Luciana Gimenez, o programa da Monique Evans, dei várias entrevistas no Jô Soares, estive com a Sílvia Poppovic na Band… Foi tanta coisa que eu não pude fazer mais cenas com o Afonso Brazza.

Fiquei muito triste com o que aconteceu. Estava me sentindo uma Luz Del Fuego quando ele surgiu na minha vida! O Afonso às vezes vinha aqui no salão tomar café comigo e dizia: “Aguarde, nós vamos para o Oscar e você vai passar naquele tapete vermelho comigo”. Eu ficava emocionado quando ele falava isso. Não desmerecendo ninguém, mas, pra mim, ele é o maior cineasta do mundo. Porque fazer um trabalho com muito dinheiro rolando é uma coisa, mas muito mais difícil é fazer o que ele fazia, os filmes poderosos que ele fazia, com pouco dinheiro, quase nenhum dinheiro. Para mim, ele agora está fazendo filmes lá no céu, com Deus.

Quando, enfim, percebeu que não teria condições de terminar aquele filme, Brazza chamou Pedro Lacerda.

Assim como o amigo, Lacerda tinha aprendido cinema na prática, com trabalhos braçais nas produtoras da Boca do Lixo, às vezes como eletricista, e eventualmente recebendo diárias como figurante. De volta a Sobradinho, Lacerda dirigiu curtas, como A Cucaracha (1988) e O Anjo (2004). À época, também aproximou-se de Afonso Brazza e o ajudou nos seus últimos filmes — seja atuando, operando a câmera quando o cineasta estava em cena ou, principalmente, resolvendo entraves burocráticos.

Brazza não deixou dinheiro em caixa para finalizar Fuga Sem Destino. Pedro Lacerda, entre outros contatos, acionou Selton Mello, notório entusiasta de Brazza. O ator estava, naquele momento, começando a carreira de diretor e produtor. Ele ajudava a promover a figura do bombeiro para além do Distrito Federal, usando seu programa Tarja Preta, no Canal Brasil, e aproveitando-se de entrevistas para cobrar o financiamento necessário para Fuga Sem Destino.

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O aporte decisivo surgiu graças a outro admirador. José Wilker, quando esteve à frente da RioFilme, viabilizou uma triangulação envolvendo a produtora pública do município do Rio de Janeiro e o Festival de Cinema de Brasília para finalizar e exibir Fuga Sem Destino dentro do evento brasiliense. Foi o que aconteceu.

Fuga Sem Destino estreou fora de competição, em uma sessão do Festival de 2006. Cine Brasília lotado. No ano seguinte, o filme entrou em cartaz brevemente na mesma sala. Recebeu ainda exibição especial na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E não foi mais visto.

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Preservação e memória

Lino Meireles, cineasta e produtor do Metrópoles, teve a iniciativa de procurar Pedro Lacerda para conversar sobre o acervo de Afonso Brazza ainda em 2015, no primeiro ano do portal Metrópoles. O produtor acompanhou uma equipe de reportagem que visitou Lacerda em seu apartamento, em Sobradinho, para tratar justamente da preservação dos filmes de Brazza.

Meireles, na ocasião, chegou a pedir um orçamento preliminar para Lacerda, pois estava curioso em saber o custo de digitalizar um dos filmes. Porém, conforme recorda o produtor, na época ele ainda não tinha muito conhecimento dessa área e não soube levar adiante o trabalho. Isso mudaria no último par de anos, nos quais vem se dedicando ao resgate de títulos da cinematografia brasileira.

A primeira parceria se formou com Paloma Rocha, herdeira de Glauber Rocha. Ao lado dela, Meireles e o Metrópoles cuidaram do restauro, em 4K, de uma obra-prima do cinema novo: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Em seguida, recuperou-se o documentário de Ana Maria Magalhães sobre a atriz Leila Diniz, Já que Ninguém me Tira para Dançar (1982). Exibido pela primeira vez em cópia digital na recente Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme, na sequência, abriu o Festival de Cinema de Brasília e foi exibido no Festival do Rio.

“Em todos esses casos, o Metrópoles aparece no fim de um processo de preservação e recuperação”, comenta Lino Meireles. “São trabalhos que cada uma dessas pessoas — a Paloma, a Ana Maria, o Pedro Lacerda — vinha desenvolvendo ao longo de anos e tivemos a oportunidade de viabilizar.”

O contato com Lacerda foi retomado por meio de amigos em comum: o cineasta carioca Neville D’Almeida e o programador brasiliense José Damata. O evento que oportunizou o reencontro foi a participação dos dois em Candango: Memórias do Festival (2020), documentário de Lino Meireles sobre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na festa de batizado da filha do produtor, sentados em torno de uma mesa, ao lado de Neville e Damata, Meireles e Lacerda retomaram a conversa sobre Afonso Brazza.

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Rodoviária e Conjunto Nacional

Lino Meireles era um jovem que, como todos os cinéfilos do fim dos anos 1990, tentava diminuir as lacunas de seu repertório percorrendo as videolocadoras. Foi na antiga Oscarito, na comercial da 407 Norte, que ele encontrou a pequena joia da qual muito tinha ouvido falar: Tortura Selvagem — A Grade (2001) ainda no formato VHS.

“Não consigo pensar nos filmes de Afonso Brazza fora dessa lenda que ele próprio se tornou: o cineasta-bombeiro de Brasília, que fazia seus filmes na raça. Primeiro conheci a figura de Brazza e só depois assisti aos seus filmes. Não sou capaz, portanto, de desassociar a obra da lenda.”

Nada do que tinha lido ou ouvido falar, no entanto, preparou Lino para o que ele viu no VHS.

“Tortura Selvagem é um filme muito metalinguístico: de repente, aparece o Zé do Caixão, aparecem os músicos dos Raimundos. A própria figura do Brazza em cena constrói a lenda em torno dele: sempre o herói contra tudo e contra todos. E eu nunca tinha visto Brasília filmada daquele jeito. O Conjunto Nacional, a Rodoviária, o Teatro Nacional, o Lago Paranoá — eu conhecia todos aqueles lugares, mas nunca tinha visto daquele jeito. O filme trouxe algo surreal: transformou aquelas locações em cenários de filme de ação. As imagens de Brasília na mídia são institucionais, estão em telejornais ou em documentários. A Brasília de Afonso Brazza é uma outra cidade, uma cidade viva.”

Falava-se muito, na época, da tamanha precariedade nos filmes de Brazza: tiros de festim, montagem truncada, dublagem desencontrada, atuações amadoras etc. Eram os trash movies, rótulo empregado pela crítica de cinema para distinguir filmes mambembes.

No entanto, nota Meireles, Brazza começou a trabalhar com cinema no fim dos anos 1980 e, quando toda a indústria nacional simplesmente ficou paralisada, com a extinção da Embrafilme por Fernando Collor de Mello, no início da década de 1990, Brazza seguiu atuando nessa área — com seus amigos e vizinhos — ali no Gama.

Um cinema de ação, que vinha importado da matriz estadunidense de Sylvester Stallone e Clint Eastwood e ganhava as cores locais, de vocação popular, entre romance e pancadaria, conforme Brazza aprendera em seus anos na Boca do Lixo, o coração da filmografia paulistana dos anos 1970.

“Tenho estudado muito Glauber Rocha no último ano e o Brazza, apesar de não ser o que Glauber idealizou como cineasta, pode ser entendido como um galho da mesma árvore, uma vertente da mesma prática: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, acredita Lino Meireles. “A diferença é que o Cinema Novo entendia seus filmes como um meio para criar uma consciência popular e provocar uma mudança no país. Brazza fazia cinema pelo cinema, como entretenimento, pura diversão.”

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Passado e futuro

Lino Meireles acredita que o retorno de Fuga Sem Destino, agora com o alcance e a perspectiva que o digital permite, fará crescer novamente o interesse por Afonso Brazza. Mas o culto ao cineasta, vale ressaltar, seguiu forte, mesmo em sua ausência.

Basta notar que ele foi tema de dois documentários: Cidadão Brazza (2013), de Péterson Paim, e Afonso é uma Brazza (2016), de Naji Sidki e James Gama. Realizados por cineastas que o admiram, ambos os filmes venceram prêmios de público em suas respectivas edições do Festival de Brasília.

Pedro Lacerda garante que os negativos originais de Fuga Sem Destino foram depositados no Centro Técnico Audiovisual (CTAV), órgão ligado ao então Ministério da Cultura, hoje Secretaria Especial da Cultura, no Rio de Janeiro. Lacerda, em seu apartamento, guardava o positivo do filme — este agora usado para a digitalização.

Brazza ainda confiou a Lacerda os positivos de Tortura Selvagem e de No Eixo da Morte (1993). Dos filmes anteriores não existem mais cópias. Lacerda acredita que Brazza tenha se desfeito delas, como tinha o costume de fazer, para conseguir empréstimos que viabilizassem filmes futuros.

Ainda é possível, porém, recuperar e digitalizar Santhion Nunca Morre (1991), Inferno no Gama (1993) e Gringo Não Perdoa, Mata (1995), a partir das cópias VHS que Afonso Brazza produzia e vendia com o selo da AFB Studio.

“Brazza estava numa crescente de orçamentos, de popularidade e de repercussão. Não sabemos e não podemos saber até onde ele iria, de que tamanho ele ficaria, com o cinema digital e a internet. Ele certamente poderia fazer mais e mais filmes, e distribuí-los talvez não fosse um problema para ele”, pensa Lino Meireles. “Por outro lado, por ter morrido cedo, de certa forma a imagem de Brazza virou uma lenda. A lenda dele é a lenda de um herói.”

E, como toda lenda, a de Afonso Brazza também precisa ser contada para permanecer viva.

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