Textos de MIRELLE PINHEIRO E SUZANO ALMEIDA
Fotos de DANIEL FERREIRA, MICHAEL MELO E
RAFAELA FELICCIANO (Enviados especiais)
O Metrópoles percorreu mais de 10 mil quilômetros para revelar como funciona o esquema criminoso da venda de cópias de liminares pela empresa, que coloca nas estradas ônibus sem condições de rodar e põe em risco a vida de milhares de pessoas
Os repórteres fizeram duas viagens em ônibus da transportadora nos trechos Distrito Federal/Teresina (PI) e Osasco (SP)/São Luís (MA). Em Goiânia (GO), descobriram como ocorre a negociação do "kit liminar", uma pasta verde que inclui toda a papelada necessária para circular por milhares de quilômetros sem serem importunados pelos órgãos de fiscalização.
A engenharia para terceirizar autorizações precárias de funcionamento surpreende pela sua abrangência e capilaridade. A Transbrasil/TCB não é uma empresa de fundo de quintal. Pelo contrário. Transporta milhares de passageiros. Segundo o cadastro da ANTT, tem 286 ônibus ativos e 1.396 motoristas. Frota reforçada por outras centenas de arrendatários.
Robusta também é a ficha criminal de seu proprietário, Irandir Oliveira de Souza. Atualmente, só em Rondônia, acumula 149 processos das mais diversas naturezas delituosas. Além disso, é alvo de investigação por peculato, falsidade ideológica e formação de quadrilha. Já foi preso, usou tornozeleira eletrônica e hoje cumpre pena em regime aberto.
Nessa reportagem especial, o Metrópoles desvenda a fórmula do combustível que move os tentáculos dessa organização criminosa. Segundo a ANTT, a estrutura montada conta com a participação de milícias formadas por polícias militares, civis e outros agentes públicos.
A primeira viagem realizada pelo Metrópoles em um ônibus com a marca Transbrasil ocorreu em 3 de fevereiro deste ano. Uma série de fatos incomuns chamaram atenção. Para começar, o ônibus caía aos pedaços e partiu de uma parada improvisada.
Duas passagens foram compradas a R$ 180 cada no terminal de Taguatinga. Valor abaixo dos R$ 240 cobrados na Rodoviária Interestadual de Brasília. O bilhete emitido trazia o nome Zé Maria escrito à caneta. Segundo o vendedor, o ônibus que faria a viagem até Teresina (PI) pertencia a um terceiro, que alugava o veículo para a Transbrasil, prova de que o serviço fora terceirizado pela transportadora.
E, embora o trajeto comprado fosse Brasília (DF)/Teresina (PI), inexplicavelmente, o tíquete registrava São Bernardo do Campo (SP)/Fortaleza (CE).
A saída estava agendada para as 11h, de Taguatinga. Só que no horário previsto, o coletivo não apareceu. Com o atraso de quase uma hora, os passageiros ficaram impacientes. Um homem que se apresentou como Brito Legal, gerente de vendas da Transbrasil, explicou que os usuários deveriam seguir em um carro de passeio até outro local, na QNM 23/25, em Ceilândia, onde estavam outros coletivos da empresa. O que não é praxe nas viagens regulares.
O que se percebe é a tentativa das empresas de explorar irregularmente uma linha de transporte rodoviário de passageiros sem ter que se sujeitar às normas técnicas ou de segurança”argumentam os procuradores
O proprietário da Transbrasil também é alvo de investigação pela Polícia Civil do município, acusado de peculato, falsidade ideológica e formação de quadrilha por supostos desvios de verba pública ocorridos na Secretaria de Saúde durante o seu mandato como prefeito da cidade.
No que tange ao acusado Irandir, tem-se que, em que pesem os fortes indícios de que Andréia transportou a droga a pedido dele, inclusive foi ele quem a buscou na barreira policial e, portanto, tinha conhecimento de todo o ocorrido, somado ao fato de suas vastas certidões de antecedentes criminais espalhadas pelo país, com vários registros por crimes da mesma natureza, inclusive em estados onde possui filiais de sua empresa de ônibus, nota-se que as provas constantes nos autos são frágeis para ensejar uma condenação”Trecho da sentença
Segundo ele, a Justiça já tentou penhorar três ônibus da transportadora para quitar o débito, mas não encontrou nada em nome da empresa. “Tenho medo do que pode acontecer comigo, porque outras pessoas já foram ameaçadas”, disse.Um dia, eles simplesmente me disseram que eu estava demitido. Fui tentar sacar o meu FGTS e descobri que a empresa não havia depositado. Entrei na Justiça e ganhei a causa, mas ainda não recebi, né?”Ex-funcionário da empresa
Em dezembro de 2015, um acidente com um ônibus da empresa foi registrado na PI-110, entre Batalha (AL) e Barras (PI). O coletivo saiu de Brasília com destino a Parnaíba. Quinze pessoas ficaram feridas. Passageiros contaram à polícia que o motorista dormiu ao volante.