Dois milhões e 300 mil aposentados brasileiros afirmam ter sofrido descontos indevidos feitos por associações e sindicatos diretamente na folha de pagamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Esse é o total de segurados que haviam respondido às notificações do órgão previdenciário até o dia 28 de maio.
A farra dos descontos indevidos do INSS foi desmascarada pelo Metrópoles em uma série de reportagens que envolveram entrevistas com vítimas e ex-funcionários das entidades suspeitas, análises de dezenas de processos judiciais, consulta a inquéritos policiais e levantamento de dados do INSS obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Pessoas humildes, que recebem um salário mínimo (R$ 1.518) de benefício, analfabetos e indígenas estão entre as vítimas filiadas, de forma fraudulenta, a entidades acusadas de faturar R$ 6,3 bilhões com descontos sobre aposentadorias e pensões entre 2019 e 2025. As empresas são alvo de investigação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU).
A reportagem descobriu que "associações fantasmas" foram criadas por empresários para firmar Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS e receber os recursos diretamente do governo, ao inserir, no sistema do instituto, filiações fraudadas de aposentados.
Em 2024, auge da farra dos descontos, a arrecadação com mensalidades associativas triplicou, chegando à soma de R$ 2 bilhões em um ano, enquanto as entidades acumulavam uma avalanche de reclamações em órgãos de defesa do consumidor e condenações na Justiça.
As informações levantadas pela Metrópoles serviram de base para a Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 pela PF, em conjunto com a CGU. O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado do cargo por ordem judicial, bem como outros cinco servidores, e demitido no mesmo dia pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Com a operação policial, que cumpriu mais de 200 mandados de busca e apreensão em várias cidades do país, a farra do INSS se tornou um escândalo nacional. O INSS suspendeu todos os descontos associativos, e o ministro da Previdência, Carlos Lupi, viu-se obrigado a pedir demissão, pressionado por ter sido omisso durante o auge da farra dos descontos.
O escândalo do INSS abriu uma crise no governo Lula e mobilizou parlamentares da oposição (e até da situação) a assinarem um pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso para investigar as fraudes do INSS.
O governo Lula se viu pressionado a criar um plano emergencial para ressarcir os aposentados lesados pelo esquema e evitar que o escândalo do INSS desgaste sua imagem a um ano da eleição presidencial. A promessa do INSS é devolver o dinheiro desviado dos aposentados até o dia 31 de dezembro de 2025.