Do camarão à pescada, dos mariscos ao sururu, quase tudo o que Ailton da Rocha Costa, 57 anos, pesca na Baía de Curupu é vendido em feiras da capital do Maranhão, São Luís. Enquanto remenda, com destreza e velocidade, as redes que usa quando sai com o "20 de Março" pelas águas desde o Rio Paciência até o oceano, ao lado de um colega, o pescador magro, moreno do sol sob o qual trabalha em jornadas de até cinco dias em alto-mar, relata animado a melhora observada na ligação de Paço do Lumiar, onde nasceu e cresceu, com a capital, nos últimos meses.
É com admiração - e esperança - que Ailton fala dos benefícios ocasionados pelo avanço das obras implementadas pelo governo estadual em várias vias de ligação na Grande Ilha (conurbação que une a capital às cidades de Raposa, Paço do Lumiar e São José de Ribamar).
Em um bom dia de pesca, tiramos uns 300 kg. E isso precisa ser levado com rapidez para as feiras. Se demorar, a gente pode perder o produto”, explica Ailton. Imediatamente, o pescador emenda o motivo pelo qual está faceiro, especialmente, com a renovação e ampliação das rodovias estaduais MA-203 e MA-204, que ligam as quatro cidades vizinhas: “Já melhorou o escoamento, reduzindo o tempo para o transporte do pescado aos pontos de venda. Diminui o tempo de transporte, barateia o frete, e a gente consegue ganhar mais. Ailton da Rocha Costa, pescador
A Grande Ilha
São Luís, Paço do Lumiar, Raposa e São José de Ribamar
IDH: 0,724 (alto)
IDH: 0,768 (faixa de alto desenvolvimento humano)
IDH: 0,708 (alto)
IDH: 0,626 (médio)
Redução de perdas de produto
O trajeto de cerca de 28 km entre o Porto do Mocajituba - onde Ailton conserta as redes que serão utilizadas no dia seguinte em nova saída para o mar - e a capital São Luís, local das feiras abastecidas com o resultado das jornadas de pesca, costumava demorar até uma hora. A principal razão eram os engarrafamentos, inevitáveis antes da renovação da MA-204. Mal sinalizada, entupida pelo tráfego em direção à capital, a rodovia já teve asfalto recuperado entre 2023 e 2024, com inclusão de acostamentos e nova sinalização em um trecho de aproximadamente 8,5 km - do Colégio Luiz Sérgio Cabral Barreto ao Posto Maracajá. Com isso, o tempo para chegada de gelo às margens do Rio Paciência, onde Ailton e os colegas desembarcam o que pescam, já caiu quase pela metade. Isso ajuda a garantir a qualidade do produto entregue na Grande Ilha. Paralelamente, os pescadores também festejam o ganho exponencial de tempo no transporte para as feiras e os mercados em São Luís. Na prática, as obras viárias significam produto mais fresco para os consumidores e renda maior para os pescadores. “Imagina quando as novas obras evoluírem”, pondera o pescador, sem disfarçar a expectativa.
Paço é uma cidade com cerca de 150 mil habitantes, predominantemente residencial, porém também com forte comunidade pesqueira. Pela proximidade, serve como base para muita gente que trabalha em São Luís, mas precisa fugir do custo de vida mais elevado na capital. Isso tradicionalmente contribui para o entupimento das vias que chegam e saem da metrópole. É por isso que, como Ailton, milhares de moradores da região acompanham o desenrolar do pacote de obras que o governo do Maranhão anunciou e implementou. Há trabalho nas rodovias MA-203 e MA-204, além de na Avenida Litorânea, na capital.
Triplicação de faixas
Em 8 de maio deste ano, o governador Carlos Brandão assinou a ordem de serviço para a duplicação e urbanização de novo trecho da MA-204, uma extensão de 3,58 km, entre o Viaduto Neiva Moreira e o Beira-Rio.
O projeto inclui triplicação de faixas, construção de ponte sobre o Rio Paciência (de onde os pescadores de Paço do Lumiar saem para o mar), ciclovias, calçadas acessíveis, drenagem e iluminação em LED. O investimento é estimado em R$ 59 milhões, sempre em parceria com o governo federal. Em julho, começaram os procedimentos de desapropriação de terrenos até o entroncamento com a MA-201, já visando a ampliação da duplicação da via. Melhora na qualidade da estrada é ponto fundamental para desviar tráfego da zona central de São Luís.
As obras
MA-202 Extensão de obra: 26,7km Investimento estimado: R$ 7,8 milhões
No fim de abril, o governo do Maranhão entregou a primeira parte - um trecho de 1,6 km ligando o km 2 da BR-135 à Avenida Principal do Conjunto São Raimundo - do que virá a ser a chamada Avenida Metropolitana. O projeto é um desejo antigo para melhorar o trânsito que integra os quatro municípios da Grande Ilha. É uma espécie de anel viário, planejado para desafogar gargalos históricos de quem chega e sai de São Luís. A construção é uma parceria do governo local com o governo federal, via Ministério das Cidades.
Em outubro de 2025, teve início a terceira etapa de obras da Avenida Metropolitana, que vai da rotatória da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) até as Estradas de Ribamar e da Maioba. “Quando assumimos o governo, diagnosticamos um grande transtorno no trânsito e vários acidentes na região. Resolvemos alterar o projeto da avenida, requalificando do Olho d'Água até o retorno do condomínio Alphaville e duplicando a estrada até a Raposa. Isso melhorou bastante a mobilidade e vai beneficiar o turismo na região. Estamos preparando o Estado para o futuro”, explicou o governador do Maranhão, Carlos Brandão.
Razões para esperança
No outro lado de São Luís, a pequena Raposa experimenta a mesma ansiedade em relação ao andamento das obras na infraestrutura viária da Grande Ilha. Menor, mais isolada e com pouco mais de 30 mil habitantes, a cidade abriga uma grande população de cearenses que migraram devido às secas intensas do fim do século 20. O município apresenta cultura forte - na qual se destacam os produtos feitos com rendas de bilro, fruto da influência da comunidade de migrantes cearenses - e vê no turismo um forte impulso para crescimento e maior qualidade de vida para seus moradores.
Tanto o artesanato das rendeiras tradicionais quanto a rica natureza preservada têm feito a renda do turismo crescer exponencialmente no município. Raposa tem manguezais exuberantes, dunas e áreas naturais protegidas. É conhecida como a entrada para as Fronhas Maranhenses, espécie de “primo menor” dos mais famosos Lençóis Maranhenses. A exemplo do parente mais exibido, as Fronhas também são um conjunto de dunas e lagoas, com lindos mosaicos de areia eternamente em mutação, conforme o clima do momento. Além de dispor de uma beleza cênica, a área é grande refúgio de aves e espécies marinhas, constituindo um patrimônio geoturístico em evidência crescente.
Em julho, por exemplo, viralizaram imagens do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que passeava com a família na região, almoçando em um dos ótimos restaurantes locais. O aumento do fluxo de turistas, contudo, expôs a necessidade urgente de investimentos na melhoria do acesso à cidade e na ligação com a capital. E os primeiros resultados já são notados. Lidiane Lima, 42 anos, é gerente de um bar na área Viva Raposa, um dos pontos turísticos da cidade, junto ao mar. Ela precisa ir a São Luís no mínimo uma vez por semana e recorre à capital para a maior parte dos serviços bancários do estabelecimento e o contato com fornecedores.
Hoje, faço o percurso em uns 35 minutos. Esse ganho de tempo me alivia demais. Lidiane Lima, gerente de bar
Ela sente no cotidiano os efeitos do trabalho na MA-203 nos últimos três anos. Em março de 2025, foi concluída a requalificação de um trecho de 11,7 km da estrada, do Viaduto Neiva Moreira ao Cais da Raposa. O trabalho incluiu o alargamento da via, principal acesso à cidade, que dobrou de 6 metros para 12,8 metros, e agora dispõe de acostamentos e ciclovias nos dois lados da estrada; a aplicação de microrrevestimento asfáltico com polímero, para reforçar a durabilidade da pavimentação; a nova sinalização horizontal e vertical, que garante mais segurança; a drenagem em todo o trajeto; e a urbanização da via.
Com a estrada alargada, o tráfego ganhou maior fluência; com a sinalização reforçada, há mais segurança; e as ciclovias permitem que moradores transitem com menos medo dos veículos pela região. A iniciativa visa aumentar a fluidez do trânsito, reduzir acidentes e melhorar a mobilidade geral entre São Luís e Raposa - com efeitos também em São José do Ribamar.
Melhora sentida no bolso
A segurança maior já é notada por Leílson Xavier, 21 anos. Ele é mototaxista há pouco mais de um ano, e grande parte de seu faturamento vem de corridas entre Raposa e a capital. “A obra já ajudou muito no tempo de deslocamento, inclusive para a (Avenida) Litorânea (um dos principais acessos a São Luís). Antes, eu demorava uns 30 ou 35 minutos por corrida até lá. Hoje às vezes faço até em 15 minutos”, relata. O trabalhador costumava fazer, em média, três idas à capital com passageiros, nas quais arrecadava cerca de R$ 150; nos últimos meses, o número médio de corridas saltou para cinco.
Um asfalto de qualidade é um alívio. Pouco depois que comecei no mototáxi, quase me acidentei por causa do piso em más condições. Peguei um buraco e quase caí da moto. Agora é outra coisa. Leilson Xavier, mototaxista
Em junho do ano passado, começou a intervenção no retorno do Olho D'Água, em São Luís, com terraplenagem, drenagem, pavimentação e sinalização no entroncamento da MA-203 com a Avenida Holandeses/Litorânea. Essa parte do grande pacote de ações viárias teve investimento de R$ 8,8 milhões. Isso também deve aliviar um pouco mais o acesso à capital.
Até a fé se beneficia
Depois de São Luís, São José do Ribamar é a maior cidade da conurbação metropolitana da capital maranhense. Com cerca de 245 mil habitantes, o município depende imensamente da metrópole vizinha, a 32 km, para empregos, serviços administrativos, infraestrutura e cultura. Há um fator adicional, contudo, que agrega um elemento peculiar de grande importância à melhoria da ligação rodoviária entre as duas cidades. A região é muito conhecida pela força do turismo religioso. E um dos principais motivos é uma tradição muito cara aos maranhenses: a benção concedida diariamente a veículos no Santuário de São José.
Tornou-se parte da cultura local: quem compra um carro na capital, por exemplo, ou mesmo em outras cidades do estado, costuma levar o veículo para ser abençoado em Ribamar. O costume preconiza que aqueles que recebem a água benta ficam protegidos dos males das estradas.
O fisioterapeuta Sebastião Borges Coqueiro, 54 anos, é um dos fiéis convencidos do poder protetor do santo. Ele levou seu recém-adquirido Moby preto para ser abençoado no santuário. Devidamente protegido, Sebastião começou a avaliar os trabalhos feitos nas estradas. “Principalmente a ampliação das vias públicas tem melhorado muito a mobilidade na região. Eu transito muito pelas quatro cidades, e já fui muito prejudicado por ficar parado no trânsito e me atrasar para atendimentos, ou mesmo perder pacientes por isso. Pontualidade é importante!”, desabafa. “E agora as coisas têm progredido claramente.”
Sebastião complementa a renda como motorista de aplicativo, por isso fala com a propriedade de quem circula muito pelas estradas da região. Mostra-se especialmente satisfeito com o que vê nos últimos anos na MA-201 (Estrada de Ribamar) e na MA-202 (Estrada da Maioba).
Em junho deste ano, o governo estadual abriu uma licitação para contratar empresa que elabore projeto executivo de um viaduto ou elevado no cruzamento da Avenida Guajajaras com a Estrada de Ribamar e execute melhorias no entorno. A ideia é que o novo equipamento urbano alivie congestionamentos e facilite o acesso pela MA-201. Se tudo der certo, o trabalho do santo deve ser muito aliviado.
Nova frente
A mais recente obra colocada em andamento pelo governo maranhense é uma das mais ambiciosas - e caras. Está a todo o vapor o prolongamento da Avenida Litorânea, na orla de São Luís. Ao lado de dezenas de praticantes de kitesurf pintando os céus, tratores, escavadeiras e dezenas de operários trabalham todos os dias, inclusive em fins de semana, para duplicar a extensão da avenida. Aos atuais sete quilômetros serão acrescidos sete, o que fará com que haja uma ligação da Praça dos Pescadores à Praia de Olho de Porco. O investimento será de R$ 235,7 milhões, com recursos estaduais e federais, provenientes do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Quando a expansão estiver pronta, num prazo estimado de um ano, a nova Litorânea deverá se transformar em uma alternativa para conectar a MA-203 e a Avenida dos Holandeses - que é hoje uma das principais portas de entrada da capital maranhense e, por isso, precisa suportar um tráfego constante e intenso.
O projeto faz parte da construção do anel viário muito esperado pelos moradores da Grande Ilha. Estima-se que a obra deva beneficiar cerca de 1,4 milhão de pessoas que circulam a cada dia pela Grande Ilha.
O planejamento da obra considerou a demanda prevista para o trânsito da região nos próximos 30 anos. A nova avenida contará com três faixas de rolamento em cada um dos dois sentidos, abrigos para usuários do transporte coletivo, calçadas de ambos os lados, ciclovia e canteiro central com iluminação.