Na manhã de 29 de janeiro deste ano, a Polícia Federal (PF) fez operação de emergência em Bauru, interior de São Paulo. O alvo era um jovem de pouco mais de 20 anos, que estava sendo investigado por atos preparatórios de terrorismo.
Na casa dele, a polícia encontrou artefatos usados para montar um colete de explosivos. Também achou indícios de que o jovem mantinha vínculos com o Estado Islâmico. As evidências apontaram que o aspirante a jihadista estava prestes a realizar atentado suicida na capital do estado.
O acusado não era um total desconhecido da PF. Os policiais já acompanhavam a escalada dele rumo ao extremismo. No momento da prisão, ele fazia a transição do discurso radical para a prática: estava na iminência de cometer o ataque.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, considera que o caso traduz um dos principais desafios atuais das forças de segurança: a radicalização que ocorre dentro do ambiente digital, muitas vezes sem contato presencial com organizações terroristas.
“Hoje, o nosso grande desafio é o ambiente digital. Com as novas plataformas e ferramentas, esse espaço tem sido um terreno propício para ações de radicalização e cooptação de indivíduos”, afirmou o diretor-geral da PF, em entrevista ao Metrópoles.
O extremismo contemporâneo já não depende, necessariamente, de uma grande célula organizada.
explica Andrei Rodrigues.
De acordo com a investigação da PF, o terrorista de Bauru tinha sido atraído por extremistas ainda na adolescência, passando a receber "mentoria” de brasileiros versados na ideologia de violência do Estado Islâmico.
A investigação da PF ilustra um ponto essencial no terrorismo à brasileira: a radicalização raramente nasce pronta. Ela é construída em etapas, dentro de comunidades virtuais, sob o comando de “doutrinadores” e “radicalizados”.
Os líderes nem sempre participam das ações no mundo real, mas estimulam os que estão dispostos a cruzar a fronteira entre a idealização e a prática.
O Brasil não era considerado terreno fértil para o extremismo até pouco tempo atrás. O país estava acostumado a observar conflitos étnico-religiosos e atentados de longe, como se o radicalismo fosse um fenômeno exclusivamente estrangeiro.
Aqui, não havia grupos como o Euskadi Ta Askatasuna (ETA), da Espanha, o Exército Republicano Irlandês (IRA), da Irlanda do Norte, ou a Al-Qaeda, do Oriente Médio. Também eram raras ações violentas em escolas, contra personalidades políticas e prédios públicos.
O cenário mudou de 20 anos para cá, quando coincidiram a transnacionalização do terrorismo; os avanços tecnológicos nas áreas de comunicação e transportes; e a emergência do Brasil como anfitrião de eventos internacionais. Na última década, a polarização política se acirrou e também motivou atentados.
A nova realidade obrigou as forças de segurança pública a incluírem a prevenção às ações extremistas e terroristas dentro de suas atribuições. A falsa sensação de que o Brasil era imune a radicalismos desmoronou, dando lugar à urgência em compreender o fenômeno em ascensão.
Com base na análise de 2 mil páginas de documentos oficiais da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), da Polícia Civil do DF (PCDF) e da PF, bem como de entrevistas com especialistas e autoridades da área de segurança pública, o Metrópoles detalha as engrenagens da radicalização, aponta por que esse fenômeno tem atraído cada vez mais pessoas e mostra quais são os desafios do Estado para conter ações extremistas.
O terrorismo é a prática de atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, com o objetivo de provocar terror social ou generalizado. Tais atos colocam em risco as pessoas, o patrimônio, a paz e a segurança pública. No Brasil, a definição de terrorismo está prevista na Lei nº 13.260/2016, conhecida como Lei Antiterrorismo.
O extremismo violento é um fenômeno mais amplo. Ele envolve ideologias e processos de radicalização que defendem ou utilizam a violência para alcançar objetivos ideológicos, religiosos ou políticos. Ele inclui a promoção, o planejamento e/ou a execução de ações violentas contra indivíduos ou organizações consideradas como rivais.
Perfis da radicalização digital no Brasil
Grupos que disseminam ódio contra mulheres, como os associados ao termo “red pills”; movimentos supremacistas que propagam preconceito racial ou regional, como contra nordestinos; e grupos que rejeitam a democracia e incentivam a violência para deslegitimar o Estado, como certas vertentes do neofascismo e neonazismo, são extremistas. Passam a ser considerados extremistas violentos quando suas ideias ou ações envolvem a defesa ou o uso da violência.
De forma geral, o extremismo violento se divide em duas vertentes principais: o Extremismo Violento Religiosamente Motivado (EVRM) e o Extremismo Violento Ideologicamente Motivado (EVIM).
No Brasil, assim como em outros países, os investigadores passaram a lidar com personagens híbridos: simpatizantes do jihadismo, neonazistas, extremistas políticos, misóginos e integrantes de comunidades violentas que nem sempre se encaixam em categorias fechadas.
Andrei Rodrigues afirma que essa variedade obriga a Polícia Federal a adotar protocolos diferentes para cada tipo de ameaça. “O enfrentamento ao jihadismo tem um formato. A radicalização ideologicamente violenta, o nazismo e outras células ditas terroristas têm outros protocolos e outras formas de atuação.”

O jihadista de Bauru foi iniciado no extremismo violento por um “mentor”, que se autodenominava "Salafi860".
Em árabe, salafi significa ancestral e faz referência a pessoas de muita fé. O número 860, por sua vez, diz respeito à surata 8:60 do Alcorão, versículo que frequentemente é apropriado por organizações jihadistas para justificar a mobilização armada.
“Salafi860” começou a ser monitorado pela PF em 2023, após alerta enviado pelo FBI, o Federal Bureau of Investigation, dos Estados Unidos. O órgão de segurança estadunidense mandou comunicado ao Brasil dizendo ter identificado um brasileiro ativo em grupos on-line do Estado Islâmico.

O Metrópoles teve acesso ao primeiro memorando da investigação internacional. No documento, o FBI pede que o país tome providências, uma vez que identificou o “mentor” disseminando propaganda, orientando a fabricação de explosivos e discutindo o planejamento de ataques em grupos extremistas.
O alerta do FBI levou os agentes à cidade de São Carlos, no interior paulista. Lá, em 31 de outubro de 2024, o dono do pseudônimo foi preso. A PF constatou que ele tinha um canal na web chamado “Comando_860”.
“O espaço on-line era voltado ao público brasileiro e vinha sendo empregado com a finalidade de recrutar brasileiros, promover organizações terroristas e compartilhar material de doutrinação extremista, manuais de guerrilha, produção e emprego de dispositivos explosivos improvisados", afirmou a PF, em nota.
A parceria com o FBI não foi um caso isolado. Segundo Andrei Rodrigues, a Polícia Federal mantém presença em 34 países, por meio de adidos e oficiais de ligação, além de atuar em organismos como Interpol, Europol, Ameripol e OEA.

Se existe um consenso sobre o terrorismo e o extremismo atuais é que a internet e as redes sociais têm papel-chave no processo de recrutamento, radicalização e planejamento de ações.
A evolução da web e a popularização das redes e dos smartphones mudaram completamente a forma como nos comunicamos. O que antes era difícil, hoje está à distância de um clique na tela do celular.
Dentro dessa lógica, o acesso a conteúdos de ódio e a possibilidade de associação entre pessoas propensas a ideias radicais aumentaram exponencialmente.
Nos inquéritos analisados para a realização desta reportagem, plataformas populares no Brasil, como WhatsApp, Telegram e Facebook, são citadas como as mais utilizadas para comunicação, recrutamento e planejamento de ações.
O uso de redes sociais abertas, e não aquelas com mais camadas de segurança e privacidade, é visto por autoridades da PF e da Abin como uma tática para aumentar o alcance de ideias radicais.
Na prática, as redes sociais abertas funcionam como uma vitrine para a exposição de ideologias. Em seguida, quando os interessados já estão fisgados, a comunicação passa para grupos como o Telegram e o Discord.
É no submundo digital, longe do convívio social e dos espaços públicos, que a semente do extremismo violento germina.
Na Operação Hashtag, primeira apuração que resultou em condenação criminal com base na Lei Antiterrorismo, os investigadores demonstraram o uso de redes abertas para propaganda e do Telegram para a articulação de células.
Nos atos de 8 de janeiro de 2023, a mobilização combinou redes abertas e aplicativos de trocas de mensagens. Em ataques a escolas, o Discord aparece como espaço de incentivo e validação da violência. Já comunidades misóginas utilizam fóruns e grupos fechados para disseminar ódio e, em alguns casos, planejar ações.
Iceberg das redes










São plataformas abertas, de grande alcance, em que ocorrem o primeiro contato e a disseminação inicial de conteúdo, que, muitas vezes, aparece disfarçado por códigos e linguagem indireta.
Aqui, a comunicação se torna mais fechada e difícil de monitorar.
São plataformas criadas com promessa de pouca ou nenhuma moderação, atraindo usuários banidos das redes tradicionais.
É o nível de maior anonimato, acessado com ferramentas específicas e conhecimento técnico.
Em fevereiro deste ano, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) conseguiu suspender um ataque violento à Assembleia Legislativa do estado (Alerj) poucas horas antes de ele acontecer.
Jovens descontentes com a política tradicional planejavam uma “revolução” contra as instituições em grupos no WhatsApp e no Telegram.

Os participantes se diziam inspirados nos protestos liderados pela "Geração Z" em países da África, América Latina e Ásia, no fim de 2025.
Os “Gen Z” brasileiros se comunicavam em cerca de 20 grupos de troca de mensagens: o canal principal deles no Telegram tinha pelo menos 7 mil inscritos.
Os grupos eram considerados locais seguros para despejar discursos radicalizados.
“Pacifismo não funciona. Ou quebra os vagabundos corruptos ou deixa o país virar Cuba. Ainda esse ano vou a Brasília mostrar como se faz uma revolução”, disse um homem não identificado em um dos chats, no Telegram.
Três pessoas que planejavam o atentado à Alerj foram presas e outras 13 levadas à delegacia para prestarem depoimentos.
Entre proferir bravatas em um grupo de WhatsApp e encarar o planejamento e a execução de um atentado há uma longa jornada. Os fomentadores de discursos de ódio são especialistas em fazer seguidores operarem essa transição.
A diretora do Departamento de Inteligência Externa da Abin, Ana Martins Ribeiro, explica que os líderes extremistas se apoiam em três pilares para conquistar adeptos: a construção de uma identidade comum, a criação de uma ameaça existencial e a promessa de que haverá uma solução por meio de uma ação violenta.

detalha Ana Martins Ribeiro, da Abin.
A linguagem usada pelos “líderes” é cuidadosamente elaborada para atrair e doutrinar, transformando descontentamentos individuais em enredos sobre heroísmo e redenção. O Estado Islâmico se vale dessa estratégia, bem como os red pills, os neonazi e a extrema direita.
Em agosto de 2014, a divulgação do vídeo da decapitação do jornalista James Foley, sequestrado meses antes na Síria, chocou o mundo. Intitulado “Uma mensagem para a América”, o material, com pouco mais de quatro minutos, gerou reações imediatas — entre elas, a formação de uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos contra o ISIS.
Ao mesmo tempo, a violência exibida também atraiu novos simpatizantes, inclusive brasileiros. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, mais de 40 mil combatentes estrangeiros aderiram ao grupo entre 2011 e 2019.
Multinacional do terrorismo
O Estado Islâmico (ISIS) é um dos maiores e mais violentos grupos terroristas do mundo. Na última década, tal como uma empresa em busca de expandir seus negócios, o ISIS passou a convocar estrangeiros para suas fileiras.
Em meados de 2014, fez apelo direto aos cidadãos de outros países:
Por meio da internet, o grupo começou a divulgar vídeos de execuções com qualidade cinematográfica. As peças eram planejadas tanto para causar horror no mundo ocidental, como para recrutar os interessados na ideologia.
Para convencer adeptos dispostos a matar ou morrer, o ISIS se vale da promessa de uma vida de glórias após o martírio terreno.
A Operação Hashtag revelou simpatizantes do ISIS no Brasil com perfis diversos — entre os quais, um mecânico, um agricultor e um operador de telemarketing. Em sentença sobre a Hashtag, o juiz federal Marcos Josegrei da Silva descreveu a estratégia do Estado Islâmico como um “continuum” entre recrutamento, radicalização e incitação, impulsionado por uma máquina de propaganda que explorava sentimentos de exclusão e injustiça.
O magistrado destacou que a internet se tornou um meio altamente eficaz de recrutamento, com uso de vídeos, músicas e estética de jogos para glorificar o terrorismo e atrair jovens. Para ele, a repressão antecipada dessas condutas é essencial para proteger a segurança nacional.
O pesquisador Augusto Veloso Leão, da UFMG, doutor em relações internacionais, destaca a estética como um trunfo do grupo para o convencimento. “São vídeos muito bem produzidos tecnicamente, com sensação de cinema, de jogo de videogame. A mensagem é de que o grupo é acolhedor.”
A pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Isabela Silveira Rocha, que acompanha casos de radicalização on-line, explica que o algoritmo funciona como um catalisador para o extremismo.
“A pessoa acessa um conteúdo, muitas vezes, por curiosidade ou indignação pontual. Daí, o algoritmo entrega mais do mesmo e, em pouco tempo, o indivíduo estará escutando vozes que confirmam apenas aquela visão de mundo”, explica Isabela Silveira Rocha, da UnB.

Nas comunidades virtuais, indivíduos vulneráveis, muitas vezes em busca de pertencimento, propósito ou resposta a frustrações pessoais, encontram senso de identidade e pertencimento, que os faz aderir a uma causa.
aponta Isabela Silveira Rocha, do Instituto de Ciência Política, da UnB.
O que é o algoritmo
Algoritmo, em linguagem simples, é uma sequência de instruções matemáticas que diz a um sistema como agir diante de determinados dados. Ele não tem intenção, ideologia ou opinião. Ele executa cálculos.
No ambiente digital, o algoritmo é o mecanismo que decide quais conteúdos aparecem na tela de cada usuário.
“O algoritmo é um sistema de previsão. Ele calcula, com base no seu comportamento anterior, qual conteúdo tem maior probabilidade de prender sua atenção”, explica Laerte Peotta, professor da Universidade de Brasília e especialista em sistemas de recomendação.
O algoritmo não “escolhe” o que é verdadeiro ou falso. Ele mede a probabilidade de interação. Curtidas, comentários e vídeos assistidos até o fim viram dados. E os dados alimentam o sistema.
A partir do histórico de dados, a plataforma estima o que mantém a pessoa conectada por mais tempo.
O professor da UnB Laerte Peotta, especialista em ciberinteligência, explica que as plataformas trabalham basicamente com três camadas de informação: o que você já consumiu, o que as pessoas com comportamento semelhante ao seu consumiram e o que está gerando mais interação naquele momento.
“Não existe um editor humano decidindo manualmente o que vai para cada usuário. É um processo estatístico”, aponta Laerte Peotta, da UnB.

Se alguém assiste repetidamente a vídeos sobre política, o sistema entende que há interesse no tema. Se esse usuário interage mais com conteúdos críticos ou indignados, o algoritmo registra que aquele padrão gera permanência. E, a partir daí, o sistema ajusta as próximas recomendações.
A arquitetura digital favorece a formação de bolhas de opinião: ambientes em que o usuário passa a consumir predominantemente conteúdos que reforçam sua visão de mundo.
O algoritmo mede ainda a interação do usuário (curtir, comentar e compartilhar) com os conteúdos, que costuma ser mais intensa quando envolve emoção. “O sistema otimiza o engajamento. E o engajamento costuma estar associado a respostas emocionais fortes”, completa Peotta.
Conteúdos moderados tendem a gerar menos comentários e compartilhamentos. Já conteúdos que provocam indignação, medo ou revolta frequentemente estimulam interações.
aponta Laerte Peotta, da UnB.
Não é que o algoritmo prefira o radicalismo, mas ele responde a padrões de comportamento coletivo. O sistema amplifica aquilo que retém atenção. E a atenção, na economia digital, gera receita.

Em 13 de novembro de 2024, o Brasil foi impactado com a notícia de um ataque com explosivos em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF). O autor, Francisco Wanderley Luiz, de 59 anos, morreu no local. Nas redes sociais, ele era conhecido como “Tiu França”.
O Metrópoles teve acesso exclusivo à investigação da Polícia Federal que detalha o processo silencioso de radicalização que conduziu o morador de Rio do Sul (SC) até a morte.
Segundo os autos, até pouco tempo antes do ataque ao STF, Francisco Luiz levava uma vida comum. Trabalhava como chaveiro, tinha sido dono de uma casa noturna e vivia de forma simples em Santa Catarina.
A partir de 2023, porém, ocorreu uma mudança clara de comportamento. O incômodo com a política passou a dominar suas vivências. No Facebook, começou a publicar postagens mais agressivas contra autoridades: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e, sobretudo, o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Francisco também passou a reproduzir teorias conspiratórias, a desacreditar das instituições e a repetir narrativas de crise e colapso.
Frases como “não vim ao mundo para passar em branco” e “não posso ficar sem fazer nada, principalmente pelas crianças” começaram a aparecer com frequência em suas postagens.
Para os investigadores, os registros revelam uma combinação de ressentimento, senso distorcido de missão e progressiva ruptura com a realidade.
Apesar de ter agido sozinho no ataque, a radicalização de “Tiu França” não ocorreu de forma isolada. Ele passava horas em bolhas de direita, sendo alimentado por discursos extremistas.
Além do Facebook, onde fez postagens com tom ameaçador, incluindo referências a bombas e menções a estruturas nazistas, como a “SS” e a “Gestapo”, Francisco Luiz participava de grupos de WhatsApp com nomes como “planejamento de massacres” e “tribunal do crime”.

Nesses ambientes, o catarinense encontrou reforço para suas ideias radicais. Em paralelo, a vida pessoal dele se deteriorava. O relacionamento com a ex-mulher, já marcado por conflitos, episódios de agressão e problemas com drogas, foi rompido meses antes de ele vir à Brasília para o ataque ao STF.
Em depoimento à PF, a ex-mulher relatou que “Tiu França” demonstrava uma “ideia fixa” de fazer algo pelo país, afirmando que precisava agir para evitar que o Brasil “virasse um caos”.
Fermentada dentro de bolhas extremistas, a crise existencial de “Tiu França” resultou na morte dele, na Praça dos Três Poderes.
Capital do país, sede dos três poderes e local em que estão concentradas as representações de várias nações, Brasília está sob constante ameaça do terrorismo e do extremismo político. Em dezembro de 2024, um homem de 30 anos foi preso pela Polícia Civil do Distrito Federal na Bahia.
Morador de Fortaleza, no Ceará, o rapaz estava a caminho da capital da República e, em suas redes sociais, publicou que pretendia realizar um “ataque cirúrgico” e um “banho de sangue” no Distrito Federal.
Após audiência de custódia, o suspeito foi liberado: houve dificuldades em provar que as ameaças, de fato, resultariam em ação violenta. Contudo, em setembro de 2025, o mesmo homem convocou, “via redes sociais”, apoiadores para “subir” até Brasília. Desta vez, por causa da reincidência, foi mais fácil conseguir uma preventiva.
A capital também foi palco da tentativa de explosão de um caminhão-tanque no Aeroporto Internacional de Brasília na véspera do Natal de 2022. George Washington de Oliveira Sousa, Alan Diego dos Santos Rodrigues e Wellington Macedo de Souza, que participavam do acampamento bolsonarista que protestava contra a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram condenados pelo ato.
detalha o delegado Fabrício Augusto Machado Borges Paiva, chefe da Divisão de Proteção e Combate ao Extremismo Violento da PCDF, núcleo especializado em evitar ações de terrorismo e extremismo.

Segundo o delegado da PCDF, o maior desafio é identificar nas bolhas extremistas quem ultrapassará a fronteira entre o discurso e a ação. “A grande dificuldade é identificar quem já está radicalizado e quem passou da radicalização para a mobilização”, explica Borges Paiva.
Engana-se quem acredita que existe um perfil social ou psicológico confiável para apontar terroristas ou extremistas violentos. O Metrópoles teve acesso às principais investigações baseadas na Lei Antiterrorismo feitas no Brasil, nos últimos 10 anos. O único ponto em comum entre os 18 investigados é que todos são homens.
Chefe do setor de Psiquiatria Forense do IML da PCDF, o médico Otávio Castello foi responsável por fazer a avaliação psicológica da maioria dos acusados por atos de terrorismo e extremismo político em Brasília. Segundo ele, ao abordar o tema, é necessário abandonar o clichê de que o acusado é um “sujeito esquisito”.

Castello conta que um traço comum entre os acusados era que eles tinham percepção de realidade totalmente desorganizada, parecia que os conceitos de certo e errado estavam distorcidos em prol da radicalização.
A pesquisadora Isabela Rocha explica que alguns padrões são recorrentes entre as pessoas mais vulneráveis ao radicalismo: são indivíduos que viveram frustrações profundas, passaram por rupturas afetivas, enfrentaram crises econômicas ou experiências de humilhação social.
afirma Isabela Rocha.
O espectro é tão amplo que associações diretas são simplistas: não é porque uma pessoa sofreu decepção amorosa ou quebrou financeiramente que vai aderir ao extremismo. Aqui, novamente, o algoritmo entra em cena: o sentimento de empatia e conforto alimentado dentro de uma bolha pode resultar em uma necessidade de validação cada vez maior.
Em uma casa simples do Paranoá, cidade administrativa a 17 quilômetros do Palácio do Planalto, a mãe de um brasiliense condenado por terrorismo sofre com a ausência do filho.
Ele foi preso pela Polícia Federal em novembro de 2023, aos 35 anos, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, ao desembarcar de um voo que vinha do Líbano.
No contexto do terrorismo internacional, os "proxies" são financiados para agir de acordo com os interesses de contratantes. Nesse caso, os brasileiros estavam recebendo dinheiro do Hezbollah para preparar ações contra a comunidade judaica local.
A mãe do “proxy” brasiliense conta jamais ter suspeitado de que o filho pudesse se envolver com grupos terroristas internacionais. Segundo ela - que será chamada de Francisca para preservar sua verdadeira identidade -, ele sempre foi obediente e nunca deu trabalho.

Ela relata que, na adolescência, o rapaz viveu um luto profundo devido à morte do pai e, depois disso, se aproximou muito da igreja evangélica. “Ele nunca me deu trabalho. Nunca. Era um menino interessado na escola, trabalhador, ajudava o pai na feira. Nunca fui chamada na escola por causa dele.”
À época da prisão, o filho não morava mais com ela, mas pouco antes de viajar ao Líbano passou para se despedir. “Ele falou que ia trabalhar, procurar uma vida melhor. Disse que ia me levar para fora do Brasil, para eu colocar prótese nas pernas. Ele dizia que ia me ajudar a pagar essa cirurgia particular, para eu andar logo.”
O “proxy” do Paranoá foi condenado a 16 anos, 6 meses e 22 dias de prisão por terrorismo. De acordo com as informações compiladas pelo Ministério Público Federal (MPF), entre novembro de 2022 e abril de 2023, o brasiliense se juntou, de forma voluntária, ao grupo antissemita. Com ele, foram encontrados vários vídeos na redondeza de sinagogas brasilienses.
Operação Hashtag: 1ª condenação por terrorismo do Brasil
Deflagrada em julho de 2016 pela Polícia Federal, a Operação Hashtag resultou na primeira condenação criminal com base na Lei Antiterrorismo.
A investigação identificou um grupo que utilizava redes sociais e aplicativos de mensagens para manifestar apoio ao Estado Islâmico e discutir possíveis ataques durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Segundo o inquérito, os envolvidos trocavam mensagens sobre aquisição de armas e treinamento, além de juramentos de lealdade à organização extremista.
A denúncia foi apresentada pelo MPF, que sustentou a prática de atos preparatórios de terrorismo, conduta tipificada pela nova legislação.
Em maio de 2017, a Justiça Federal condenou os principais réus por organização terrorista e atos preparatórios, fixando penas que chegaram a mais de 15 anos de prisão.
O chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, explica que as investigações de terrorismo exigem sigilo absoluto, mas também demandam comunicação pública quando são concluídas.
“Nós temos uma fase absolutamente reservada e sigilosa da investigação. Mas precisamos encontrar o timing correto de divulgar, porque existe um caráter preventivo, pedagógico e de conscientização.”

Para o diretor-geral da PF, comunicar também é uma forma de prevenção, desde que sem transformar os criminosos em personagens ou gerar pânico social. “Não podemos glamourizar uma ação terrorista, mas precisamos mostrar a gravidade. As pessoas podem estar sendo vítimas de um processo de radicalização. A comunicação faz parte da prevenção”, disse.
No Distrito Federal, a Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (DPCev), da Polícia Civil, foi criada para atuar no espaço anterior ao crime consumado. “A principal atribuição é fazer inteligência e investigação policial no âmbito do extremismo violento”, aponta o delegado Fabrício Augusto Machado Borges Paiva, chefe da divisão.

Essa atuação ocorre em paralelo — e de forma complementar — ao trabalho da Polícia Federal, responsável por investigar crimes de terrorismo no país. Como destaca o delegado Camilo Graziani, chefe da Divisão de Enfrentamento ao Terrorismo (Deter), a competência da PF está prevista na Lei Antiterrorismo. “A Lei nº 13.260 atribui à Polícia Federal a competência exclusiva para investigar crimes de terrorismo em todo o território nacional”, explica.
Segundo Graziani, a atuação da PF segue um modelo híbrido, que combina inteligência policial, investigação criminal e cooperação internacional, com foco na antecipação de ameaças. “Nossas principais missões são monitorar e detectar ameaças, negar abrigo a terroristas e interromper suas atividades nos planos operacional e financeiro”, detalha.
As investigações costumam iniciar no ambiente digital: os policiais acompanham grupos temáticos em plataformas abertas e, caso percebam comportamentos que indiquem disposição para agir, aprofundam as apurações.
completa Borges Paiva.
O chefe da inteligência da PCDF, delegado Maurílio Coelho, explica que os investigadores não trabalham apenas em cima do conteúdo publicado, eles acompanham a trajetória dos indivíduos. “O que diferencia o usuário comum de um potencial terrorista é a combinação entre discurso, persistência e intenção prática”, detalha Coelho.
Não há um ponto de “virada” universal. Em alguns casos, a pessoa se isola, e as atitudes começam a indicar mobilização para o ato; em outros, o planejamento acontece sem aviso, “na cabeça”, sem comunicação externa.

A polícia precisa agir na fase preparatória, o que gera certa tensão jurídica. O direito penal tradicional não pune a intenção abstrata. Para conseguir realizar uma operação de repressão, é necessário demonstrar risco concreto. Primeiro, são feitas diligências. Depois, medidas cautelares são adotadas. Prisão apenas quando há indicativo claro de iminência.
Esse caráter preventivo também é ressaltado pela Polícia Federal. Segundo Graziani, grande parte das ações da Deter ocorre antes que eventuais ataques se concretizem, o que faz com que muitas operações não cheguem ao conhecimento público. Ele destacou, inclusive, que a unidade já realizou dezenas de impedimentos de entrada no país de indivíduos associados ao terrorismo, como forma de neutralizar riscos ainda na fase inicial.
Parte das comunicações feitas por grupos criminosos ocorre em aplicativos criptografados. Isso impõe barreiras. “Há situações em que os pedidos às plataformas não são respondidos no tempo da investigação”, afirma o delegado Fabrício Borges.
Andrei Rodrigues, da PF, afirma que a ausência de regras mais claras para plataformas digitais cria dificuldades práticas para as investigações.
“Nós temos parcerias com as big techs, mas ainda há uma disparidade de atuação pela ausência de regulamentação. Não temos hoje uma legislação muito clara que defina o papel e as obrigações dessas plataformas.”
O diretor-geral também cita a criptografia e as criptomoedas como novos obstáculos para as forças de segurança. “São ações novas que exigem do Estado novas ferramentas, novos investimentos, capacitação, cooperação internacional e treinamento. O poder estatal precisa estar sempre à frente daqueles que tentam burlar o sistema”, disse.
Enquanto grupos terroristas espalham que a jihad é uma "guerra santa" contra o ocidente e aqueles que não acreditam em Alá, a maioria dos muçulmanos enxerga o conceito de outra maneira.
Segundo o islamismo tradicional, a jihad é uma luta interna, cujo objetivo é se manter fiel aos princípios do Islã, expressos no conjunto de leis e regras conhecidos como Sharia.

Por isso, atos terroristas de grupos ligados ao Estado Islâmico (ISIS) afetam não apenas as vítimas e os seus familiares.
"Essas pessoas (os integrantes do ISIS) realmente não trazem a lição verdadeira do que é o Islã e a Sharia, a lei islâmica. Nós não concordamos com nada do que eles fazem. A mensagem que eles trazem de destruição, de terror, de matança, não representa em nada o islamismo e, muito menos, a mensagem deixada pelo nosso profeta", disse o imã do Centro Islâmico de Brasília, Sheikh Mohammed Taha, durante entrevista ao Metrópoles.

Considerada um marco da religião islâmica no Distrito Federal, a mesquita do Centro Islâmico de Brasília foi inaugurada em 1990, na Asa Norte. O local atrai praticantes da religião diariamente e, lá, eles desabafam sobre situações de preconceito que vivem com frequência.
"Ninguém nasce sabendo, mas uma coisa é você se manter na arrogância e ignorância, ainda mais nos dias atuais, em que você tem um leque de opções para encontrar o conhecimento. Seja por livro, seja no artigo de jornal, na internet, nas redes sociais", afirma Safy Mohammed, brasiliense de origem palestina que frequenta o templo.

No dia anterior à entrevista na Mesquita do Centro Islâmico de Brasília, um episódio de islamofobia tinha acontecido em um shopping no Paraná. Câmeras registraram o momento em que um homem identificado como Augusto César Vieira, de 33 anos, entrou em uma loja e iniciou uma discussão com duas mulheres muçulmanas.
Ele desferiu socos contra as mulheres e, em um momento emblemático de intolerância religiosa, arrancou à força o hijab — véu islâmico utilizado como expressão de fé — de uma delas. O homem foi preso em flagrante, e responde por lesão corporal e racismo.
diz Safy Mohammed.
Procurado pela reportagem, o Telegram enviou nota afirmando que remove conteúdos que violem seus termos de uso e que coopera com autoridades dentro dos limites legais aplicáveis.
O Metrópoles também acionou outras plataformas citadas nas investigações, mas até o fechamento desta reportagem não havia recebido resposta.
É importante frisar que nenhuma das fontes ouvidas atribui intenção deliberada das plataformas em promover extremismo.

