Outro aspecto a ser observado é que, a cada 24h, o motorista deve ter, no mínimo, 11h de descanso. Esse
período pode ser fracionado, desde que cumpridas, pelo menos, 8h de repouso no primeiro intervalo. No
dia a dia, os trabalhadores que atuam no transporte de músicos aproveitam para dormir durante a montagem
do palco e a realização do show. Em contrapartida, no trajeto da viagem, ocorre o oposto: enquanto o
motorista dirige, banda e técnicos recuperam as horas de sono perdidas na noite anterior.
A organização do transporte demanda dezenas de trabalhadores – existem duplas que empregam mais de 40
pessoas – e fundamenta-se, basicamente, no modelo rodoviário. Diante de tal conjuntura, as equipes
passam a maior parte do tempo dentro de ônibus e vans percorrendo o Brasil. Essa categoria talvez tenha
sido a mais atingida pela crescente lógica empresarial na administração de carreiras. O presidente do
Sindicato dos Músicos Profissionais de Goiás (SindiMusi-GO), Moka Nascimento, alerta para o aumento da
precarização.
“Anos atrás, músicos recebiam cachê [por show], e já era um cachê baixo em relação ao cachê da empresa,
do artista. Girava em torno de R$ 700 a R$ 800 por show. Foi assim durante vários anos. Não sei bem o
que aconteceu, mas, de quatro anos para cá, são raros os artistas que pagam cachê. Eles passaram a
fechar salário mensal, de forma ainda mais desproporcional. Sei de colegas que recebiam R$ 21 mil até R$
25 mil por mês, quando era cachê. Hoje, os escritórios que mais pagam desembolsam em torno de R$ 5 mil a
R$ 6 mil”, pontua Moka.
Esses valores, no entanto, são exceção. A regra é receber abaixo disso, independentemente da quantidade
de quilômetros percorridos, viagens e shows para se fazer em um mês. “O cantor vai de avião. O músico,
não. Ele vai de ônibus, viaja 10h, 12h. O camarada sai de Goiânia hoje, que é o epicentro dessas
viagens, por causa da concentração de escritórios e duplas sertanejas, e vai para Cuiabá, São Paulo,
Bahia, todos os lugares. São horários totalmente insalubres”, arremata.