Tem coisa melhor que cama de mãe?

Criança dormindo sozinha é uma construção sociocultural. Por isso, tantas famílias fazem a cama compartilhada com nenéns e crianças

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atualizado 09/08/2019 10:21

Toda noite é assim: por volta das 2h, 3h, acordo com o som de alguém correndo, ansioso, até que sinto um bafinho quente perto do meu nariz. “Mãe, posso dormir com você?”. “Mas, Miguel, e a sua cama?”. “É que aqui é mais quentinho…”.

E lá vai ele enfiar os pés entre as minhas pernas, até que eu finalmente consigo empurrá-lo para o lado de lá – assim, pelo menos, tenho de volta o meu travesseiro só pra mim. Por alguns momentos. Porque, em seguida, vem o outro, indignado ao ver que o irmão já chegou no “quentinho”. “Eu quelo ir aliiiii!”, e aponta para o meio, porque esse gosta mesmo é de protagonismo.

Antes que ele abra o berreiro, acomodo todo mundo do jeito que dá, diplomaticamente – o que significa, na prática, que tenho cerca de 1/4 da cama para mim, com sorte, meio travesseiro. “Dorme e aproveita”, eu ouço uma vozinha me dizer. “É só tomar um Dorflex amanhã”, a vozinha acrescenta. Respiro.

Criança dormindo sozinha é uma construção sociocultural, explica a psicóloga infantil Roberta Gomes Petterle de Assis – e eu repito como um mantra. Ela faz um resgate histórico do assunto: “Fazer o bebê dormir no berço é um hábito que começou no século 18, por recomendação da Igreja Católica. Com a Revolução Industrial, as mães passaram a receber a orientação de não mais segurar os bebês no colo por muito tempo e, no século 19, o berço foi transferido para outro quarto. Todo esse movimento não é biologicamente natural.”

É por isso que tantas famílias fazem a cama compartilhada com nenéns e crianças pequenas. “Dormir com os pais é um comportamento biológico que nos acompanha desde os tempos primitivos, quando os bebês eram mais suscetíveis aos predadores e ao frio da noite”, contextualiza Roberta, que hoje faz um curso sobre sono infantil pelo Family Wellness International Institute, uma das mais reconhecidas.

Com eles mais crescidos e longe de florestas perigosas, a gente pensa que o problema acabou, certo? Errado.

Quando as crianças chegam por volta dos 4 a 5 anos, começam a entender melhor as coisas e a ter mais noção de alguns perigos.

“Essa percepção da realidade faz com que os medos comecem a surgir de forma mais elaborada, mais real, dando abertura para pesadelos”, explica Roberta. É quando eles passam a temer monstros, bruxas, vampiros e o escuro propriamente dito, que alimenta todas essas fantasias.

Além de tudo isso, por vezes, os pequenos vivenciam situações estressantes, que abalam o sono – como acontece com nós, os adultos. “Nascimento de irmãos, separação dos pais, perda de algum parente, casos de adoecimento na família, mudanças de escola e de casa são coisas que contribuem para uma alteração no padrão de sono”, afirma a psicóloga.

Se é assim, então, vamos aproveitar. Daqui a pouco, eles crescem, saem para o mundo e eu fico só na saudade. Quiçá sem dor no pescoço.

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