Livro infantil fala sobre o difícil tema do abuso sexual de crianças

Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame, será lançado na próxima terça-feira, na Livraria Sebinho

Reprodução/Unsplash

atualizado 19/07/2019 12:08

Talvez a pergunta mais óbvia a se fazer a um escritor seja: de onde surgiu a ideia para este livro? Ao fazê-la a Tino Freitas sobre a sua mais recente obra – Leila (Editora Abacatte), uma parceria com a ilustradora Thais Beltrame –, a resposta nos lança para a dura realidade do abuso sexual de crianças.

O embrião de Leila surgiu há quase cinco anos, quando Tino, um consagrado autor de livros infantis, visitava uma escola do sul do país. Uma das alunas, escolhida para representar o grupo no contato com o escritor, o presenteou com uma camiseta. Quando Tino foi agradecer o regalo, a menina se apavorou. “Não sei se foi o que eu disse, como eu disse, o tom da minha voz, mas percebi que foi um gatilho para ela. Eu a fiz lembrar de algo muito ruim”, lembra.

Da experiência, a pior que teve em suas andanças junto a jovens leitores, o autor saiu com vontade de escrever sobre o tema. Matutou e, meses depois, nascia Leila, a menina baleia que dá título ao livro. Inspirada na vida da atriz Leila Diniz e da nadadora Joana Maranhão, a baleia tem longas madeixas e a alegria das crianças. Mas se depara com o Barão, seu vizinho, que lhe subtrai o que há de mais precioso.

Leila vai ao fundo do mar, mas volta à superfície, apoiada por amigos, pelo poder do cuidado, do acolhimento. “Como diz a Galeára (Matos, psicopedagoga), Leila é um livro para os que zelam”, afirma Tino. “Penso que é para quem sofreu (abuso), quem não sofreu, para os pais, para meninos que podem virar Barões lá na frente. O que eu gostaria que o livro dissesse às pessoas é: você pode ter uma voz. E também: escute o que o outro tem a dizer.”

Jornada

Para Leila virar realidade, Tino passou por um verdadeiro périplo. Primeiro, ouviu “nãos” de várias editoras – algumas provavelmente incomodadas com a temática escolhida para o livro. Depois, foi a fatalidade da vida. A obra seria ilustrada pela artista Elvira Vigna, que faleceu em julho de 2017. Tino viveu o luto e mais uma saga até achar outra pessoa que topasse a empreitada. “Muita gente me confessou não se sentir confortável para isso”, recorda.

Até que chegou a Thais, que sugeriu modificações e ajudou a refinar a narrativa. Uma das mudanças mais significativas foi no Barão, pensado inicialmente como um tubarão. “Todo mundo sabe que esse animal é um predador, que é preciso temê-lo. Mas a figura do abusador não é um monstro tão óbvio”, comenta Thais. “Os agressores são, geralmente, pessoas da família ou que a vítima confia.”

>> Veja o nascimento dos cabelos de Leila

O Barão virou um polvo, e as ilustrações foram todas feitas com nanquim aguado e aquarela. “Leila não é um livro que traz respostas, porque isso seria até arrogante. Mas penso que funciona como uma ferramenta para abrir uma conversa sobre o tema do abuso sexual infantil”, diz a artista.

Tino deseja que o livro vá para as escolas, que possa, quem sabe, ajudar crianças e famílias. “Se eu pudesse viajar para o passado, eu gostaria de deixar Leila na mochila daquela menina que encontrei na escola do sul do país, para que ela soubesse que pode extravasar o que sente”, diz.

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Lançamento do livro Leila
Dia 23 de julho (terça-feira), no Sebinho Livraria e Café, SCLN 406 Norte, Bloco C, Loja 44 – Asa Norte. Às 19h

Debate com Tino Freitas, com a jornalista Graça Ramos e a assistente social Isabella Stephan

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