Como proteger crianças de abusos sexuais?

Setenta por cento das vítimas desse tipo de crime são crianças e adolescentes. E, em 95% dos casos, o agressor é conhecido da família

Unsplash/Caleb WoodsUnsplash/Caleb Woods

atualizado 16/05/2019 16:08

A gente passa a ter pânico de várias coisas quando vira mãe e pai, mas se tem uma que ganha disparado é o medo de que nossos filhos sejam vítimas de abusos sexuais. O pavor encontra razão nas estatísticas: segundo estudo do Ipea, feito com base em dados do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), 70% das vítimas desse tipo de crime são crianças e adolescentes. Para piorar, em 95% dos casos, o agressor é conhecido da família.

Números assim justificam o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado neste sábado (18/05/2019). “A melhor forma de prevenção é estabelecer um diálogo com a criança, para que ela sinta confiança e conte aos pais sobre a eventual ocorrência de um abuso”, diz Daniela Pedroso, psicóloga do Ambulatório de Violência Sexual do Hospital Pérola Byington.

Ela colaborou na produção de uma cartilha, recentemente lançada pelo Instituto de Saúde de São Paulo, com orientações sobre como proceder caso haja sinais de violência.

O material foi estruturado de forma a apoiar o trabalho de conselheiros tutelares, assistentes sociais e profissionais de saúde no contato com esse tipo de situação. Entretanto, as informações são úteis para qualquer pessoa que queira entender mais sobre o desenvolvimento natural da sexualidade das crianças e adolescentes e sobre quais são os sinais de alerta.

“A cartilha foi construída como um guia, que deixa o acesso ao conteúdo muito fácil, dividido por faixa etária”, explica Daniela. Outro mérito do material é esclarecer sobre comportamentos normais para cada idade. Por exemplo, é normal que crianças entre 3 e 5 anos mexam em seus órgãos sexuais (os meninos no pênis e as meninas no clitóris), pois, nessa fase, eles estão descobrindo o próprio corpo. Também é comum que, em brincadeiras, observem o corpo de amiguinhos, buscando características que os diferenciam e aproximam.

“Reprimir comportamentos de forma autoritária, sem ter conhecimento sobre o que está acontecendo, pode se transformar em uma outra forma de violência”, destaca Daniela. “Uma noção muito importante de ser passada para a criança é a de que o corpo é só dela. Ninguém tem o direito de mexer nele e, se isso acontecer, é preciso falar para a mamãe ou para alguém na escola”, detalha a psicóloga do Pérola Byington.

Ela lamenta a crescente condenação da educação sexual nas escolas, uma das melhores formas de coibir os crimes sexuais contra menores, defende. “Não vamos evitar abusos deixando de falar de sexualidade, pelo contrário. O desconhecimento é justamente o que facilita a ação de abusadores”, afirma. Também é importante que principalmente as mães se engajem na tarefa de conscientização, pois muitos dos agressores são os pais biológicos das crianças. “O diálogo é chave da prevenção”, reforça.

 

O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes foi instituído em 2000, em memória da menina Araceli Cabrera Crespo, morta em 1973. Aos 8 anos, ela foi sequestrada, estuprada e assassinada em Vitória, no Espírito Santo. As circunstâncias do crime nunca foram totalmente esclarecidas.

SOBRE O AUTOR
Carolina Vicentin

Jornalista formada pelo Centro Universitário Iesb, com especialização em Bioética e em Marketing Digital. Trabalhou nos jornais Metro, Correio Braziliense e Jornal do Brasil e como consultora do Sebrae e da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI). Foi também assessora de imprensa da reitora da Universidade de Brasília (UnB). É cofundadora e repórter da Revista AzMina e vencedora de dois prêmios nacionais de jornalismo: Embratel e FBH Synapsis.

Últimas notícias