Avós e suas subversões: o que fazer?

A relação avós-pais-netos pode ser uma bênção e, ao mesmo tempo, um tormento – a depender de como as pessoas lidam com as situações

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atualizado 22/08/2019 18:52

Meu pai é um cara massa. O melhor avô que meus filhos poderiam ter. Ele dá corda para as traquinagens deles, compra chocolates (suspeito que quase em busca de satisfação própria) e quebra o meu galho inúmeras vezes, quando eu preciso trabalhar além do horário ou quando quero sair para me divertir.
Um belo dia, porém, soube que ele andava de carro com os meninos, no condomínio onde mora, levando um deles no colo, no banco do motorista. Miguel me observava dirigir e passar no quebra-molas quando, inocentemente, me contou que ele também havia “dirigido”. Sim, meu pai foi o patrocinador dessa “incrível” experiência, como se ainda estivéssemos nos anos 1980, um tempo em que as crianças sobreviviam ao show da Xuxa, a brinquedos assustadores e a outras excrescências dos adultos.

Eu fiquei furiosa. Paguei um sabão homérico, falei dos riscos de acidentes, ameacei nunca mais deixá-los sozinhos com ele. Pedi à minha madrasta, a melhor avó emprestada que existe, para que me ajudasse a fiscalizar o comportamento dele. E depois fiquei pensando como essa relação avós-pais-netos pode ser uma bênção e, ao mesmo tempo, um tormento – a depender de como as pessoas lidam com as situações.

“A criança é extremamente esperta e sabe muito bem o que pode conseguir com cada um dos pais e dos avós”, comenta a psicóloga infantil Juliana Barbosa. Segundo ela, as principais discordâncias entre os dois lados dizem respeito a como educar os pequenos, ou porque os avós acham seus filhos muito duros ou porque os consideram permissivos demais. “Apesar de pertencerem à mesma família, precisamos entender que são pessoas vivenciando a maternidade e a paternidade em tempos e com histórias completamente diferentes”, pondera.

Nessa toada, uma das coisas mais desagradáveis que pode acontecer é quando avós estimulam a mentira, bem ao estilo “não conte para a sua mãe que eu te dei biscoito antes do almoço”. Por mais inocente que pareça, o incentivo a essa prática acaba por ser extremamente prejudicial às crianças, alerta Juliana.

“Hoje pode ser sobre um doce, mas amanhã pode ser sobre um amigo que lhe incentivará a não falar sobre o uso de drogas ou um outro adulto que pedirá para não contar sobre ‘carinhos inapropriados’”, exemplifica. “O respeito e a confiança entre pais e filhos devem ser sempre estimulados, independentemente do ambiente.”

Outra queixa comum em famílias, igualmente danosa para meninos e meninas, é quando avós desautorizam os pais ou falam de maneira desrespeitosa sobre eles: “a mamãe é muito chata, né? Não deixa você fazer nada”. Nesses casos, Juliana recomenda uma conversa franca entre os adultos envolvidos, de forma a explicar as consequências negativas desse hábito. “Fazer os avós refletirem sobre como se sentiriam se estivessem na posição de pais, preocupados com a educação e o futuro das crianças, tem sido o melhor caminho.”

Por fim, aparadas as arestas, o melhor é usufruir do convívio com vovôs e vovós, mesmo os emprestados ou distantes. Como diz a psicóloga Juliana, o vínculo com eles permite aprendizados que nenhuma escola é capaz de ensinar. “Podemos enxergar os nossos pais de forma mais humana, vivenciar e sentir os efeitos do ciclo da vida e aproveitar a presença daqueles que amamos.”

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