Novela italiana narra uma vida dedicada à arte

Segundo livro de Domenico Starnone publicado no Brasil, Assombrações conta a volta de um ilustrador às memórias de família e da cidade natal

Vittorio Zunino Celotto/Getty ImagesVittorio Zunino Celotto/Getty Images

atualizado 26/12/2018 14:53

Não foi exatamente a melhor companhia para passar o calor do Natal. Assombrações (Todavia), do italiano Domenico Starnone, é drama sobre família, de espírito mais agressivo do que carinhoso. O autor de Laços, que deixou muitos leitores boquiabertos, volta com força para dar outra volta no parafuso de uma ficção curta e intensa. Assombrosa, pode-se dizer sem medo.

Habitante de Milão, o ilustrador Daniele Mallarico retorna a Nápoles com a missão de cuidar do neto por uns dias, enquanto os pais do garoto de quatro anos estão num congresso de matemática. Na casa da infância, o artista (quase) nacionalmente reconhecido reencontra mais do que memória: à beira da morte, enfrenta o futuro nos diálogos surreais com o pequeno Mario.

O casamento da filha não anda bem, o genro está com o fantasma do ciúme à solta, a vida lá fora é barulho e poluição. O que estou fazendo aqui? Muita família ou família alguma. O viúvo Mallarico saíra da cidade natal para abandonar uma infância pobre e nada intelectual. Desenhou trajetória ambiciosa, longe de qualquer rastro de origem. Pretendeu a própria originalidade.

Aos 70 anos, está travado na tarefa de ilustrar um conto de Henry James, encomenda de um jovem e arrogante editor. Fantasmas no texto, fantasmas nos traços das linhas, fantasmas do passado. Fantasmas literários, como a insatisfação da esposa burguesa (Flaubert-Bovary e Tolstói-Karenina). E o fantasma-criança que funciona como espelho dentro do armário da identidade.

Assombrações termina com um “apêndice” (pós-moderno, por assim dizer) para ser lido como parte indissociável do todo. São “apontamentos e esboços de Daniele Mallarico (1940-2016), criados para a novela Assombrações”. É uma espécie de diário das ideias e da criação das ilustrações para The Jolly Joker, a tal história de James. Starnone brinca de jogador alegre.

Os temas de Henry James escritos e desenhados por Mallarico (in memorian) dentro da obra de Domenico Starnone, que já teria sido concluída. E tudo assinado de fato por este último. Há quem discuta autoria, há quem chame de intertextualidade, há quem fale de influência, há mesmo uma brecha para sincronicidade. A nós, leitores, cabe a delícia do labirinto da linguagem e do estilo.

Tanto no tal apêndice quanto no texto da novela “em si”, vale o aprendizado sobre as relações familiares, reais e literárias. Starnone está dizendo que, a partir de certo ponto, estamos lidando com coisas inseparáveis, para o bem e para o mal. A dedicação exclusiva à arte teve e tem papel decisivo nos movimentos da vida do protagonista de Assombrações.

Cabe comparar esta obra com Laços? Uma melhor do que a outra? Discuto isso com um amigo leitor e escritor. Saí de Assombrações com a sensação de que Laços tem mais tensão, mais amargura, mais dor. Escrevendo agora, fico com a impressão de que Assombrações permite entrada vertical para o leitor com referências literárias clássicas e modernas. Laços tem mais cacarecos da vida sem Papai Noel.

Seja como for, é muito bom encontrar essa prosa concentrada de Domenico Starnone. Em tempos de intimidades familiares dilaceradas pelas políticas do eu e de todos , teríamos ao menos duas opções. 1) Escapar rumo ao superficial e discutir, por exemplo, o fato de ele ou sua mulher (a tradutora Anita Raja) ser Elena Ferrante. 2) Enfrentar as diferenças na ponta do lápis, sem borracha ao alcance da mão.

Fecho o ano assim, com desejo dessa experiência de escancarar o desagradável, de marcar as distâncias etárias, de expor o silêncio do consentimento. Por enquanto, apenas vontade, necessidade que a literatura me ensina a equilibrar, a negociar, como um avô que bate e assopra, grita e sussurra, acorda e dorme. Um presente à beira da cama da realidade.

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