Contos de Emilio Fraia estão soltos no tempo

Em Sebastopol, o autor aborda a forma como narramos nossa própria vida

atualizado 27/11/2018 21:13

Sebastopol (Alfaguara), de Emilio Fraia, é sobre modos de narrar. Ou melhor, sobre como narramos nossas próprias vidas e sobre quem escolhemos para dividirmos a narração da nossa trajetória. São três contos: “Dezembro”, “Maio”, “Agosto”. É o tempo que passa por nós, mês a mês, quase sem querer.

Sebastopol é esse lugar russo, estranho, distante, que não conhecemos por experiência direta. Espaço literário onde tudo se mistura. Vivemos dentro de histórias. A narradora do último conto diz, em meia verdade, que “todas as histórias no fundo eram histórias esquisitas em que não acontece nada”.

Nesse jogo entre causa-e-consequência, o paulista Fraia encontra seu caminho. Algo ocorre para mudar o rumo da vida de alguém. E esse alguém vai se deparar com o passado reencontrado em forma de narrativa. Num vídeo, numa peça de teatro. Ou na busca inútil, dentro da piscina, por um desaparecido.

A alpinista de sucesso encontra o desastre, o dono da pousada encara o fracasso, a escritora e o diretor de teatro contemplam o nada. A habilidade de Fraia nesta estreia solo é entrelaçar pontos de vista em continuidade irrepreensível. O leitor não sente as viradas, porque sutis. Algo segue adiante.

E afeta o presente da narrativa. Não sabemos exatamente o quê. É aí que a literatura se parece com a vida: vamos contando histórias e tentando descobrir de onde viemos, onde estamos, para onde vamos. Sebastopol trata dessa existência no decorrer do tempo, no derramar dos “acontecimentos”.

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Há semelhanças no desenrolar do novelo dos três textos, que conversam indiretamente. “A mesma história para nós, nascidos nesse canto do mundo, a mesma história para vocês, a história de sempre, um buraco maior e mais escuro logo adiante.” No Brasil, no Himalaia, no Peru, na Rússia.

No meio do caminho, esse elemento estrangeiro serve para desestabilizar o discurso. No primeiro conto, o gelo mortífero do Nepal. No segundo, o pó sufocante de Lima. No terceiro, a cidade encenada em qualquer lugar. As histórias cruzam fronteiras como quem diz: você, leitor, não é mais de nação alguma.

O jeito de escrever me levou à metalinguagem de Sérgio Sant’Anna e à limpidez de Rodrigo Lacerda. Parece haver algo de Don DeLillo, entre vigília e sonho filmado, entre casa e espetáculo. E é claro que memória e esquecimento não poderiam faltar se perguntamos sobre o sentido de um dia após o outro.

Os contos de Emilio Fraia compõem uma bela quase-estreia. Ele, que nasceu em 1982, estava na lista sintomática dos “melhores jovens escritores brasileiros” da revista Granta, de 2012. Há dez anos, dividiu a autoria do romance O verão do Chibo com Vanessa Barbara. Tem também uma graphic novel no currículo.

Entre acidentes e incidentes, Sebastopol convida o leitor a compartilhar um clima um tantinho desagradável, bom de ser lido enquanto a chuva não dá trégua lá fora, enquanto as relações pessoais ganham contornos inesperados. Não é obra feliz. É marcha do tempo humano que mira sem arroubos poéticos.

A palavra é direta, longe de contornos barrocos. Os contos são de releitura na simplicidade porque conversam com o leitor por meio de significados que surgem de maneira associativa. A gente dispara o cronômetro sem pressa de chegar ao topo, sem vontade de vender a propriedade, sem anseio por plateia.

Sobretudo, vamos sem verão. Como se fosse possível pular uma estação.

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