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Em noite de abertura marcada por homenagens e protestos discretos, os filmes Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, e Imaginário, de Cristiano Burlan, deram início ao 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Ambas as produções levaram uma intensa carga política à tela do Cine Brasília: Domingo mostra uma turbulenta e engraçada reunião de família gaúcha no dia da posse do ex-presidente Lula, em 2003, e Imaginário articula imagens de arquivo e discursos de autoridades em torno do golpe militar de 1964.

Leia críticas dos filmes exibidos na noite de sexta (14/9) no Festival de Brasília:

Domingo (RJ), de Clara Linhart e Fellipe Barbosa: charge de um Brasil em transição
O 1º de janeiro de 2003, dia da posse do ex-presidente Lula, ganha tons histéricos e crepusculares durante um encontro de famílias gaúchas no interior do Rio Grande do Sul. O que era para ser apenas mais um feriado etílico e festivo aos poucos se transforma numa jornada delirante e um tanto deprimente.

É como se a elite que ali comemora o início de mais um ano também estivesse brindando ao fim de uma era — a personagem de Camila Morgado, por exemplo, diz ao cunhado (Ismael Caneppele) que sua sogra (Ittala Nandi) teme uma “vingança dos pobres” e perder a casa para os sem-terra. Para tal, situações ora constrangedoras, ora icônicas tensionam as relações de classe entre patrões e empregados, obviamente trabalhando mesmo sendo feriado.

O adolescente assedia a filha da empregada. A matriarca e dona da mansão caindo aos pedaços (Nandi) humilha os funcionários por causa do sumiço de taças de cristal. A secretária passa roupa enquanto vê a posse de Lula na TV. A madame bêbada (Morgado) tem aulas de tênis com um jovem da região (Chay Suede) — feliz com o novo presidente. O marido machista e grosso (Michael Wahrmann) de uma mulher grávida (Martha Nowill) prestes a ganhar o bebê.

Distribuídas em planos longos, com uma porção de coisas acontecendo no mesmo quadro, as cenas cumprem o papel de estabelecer um microcosmo de um Brasil de quinze anos atrás intimamente ligado ao de hoje, aflito com outras incertezas.

Mas o filme, à exceção de momentos isolados, como as erupções hormonais dos adolescentes, encontra dificuldades para traduzir essa tragicomédia de (maus) costumes em uma crônica potente e realmente irônica de um Brasil no começo de travessia rumo a dias melhores (para ricos e pobres).

Essa síntese meio totalizante — a empregada consegue sua vingancinha, a matriarca oprime a família, sobretudo a neta — acaba transformando a trama em um cartum um tanto datado de um país que sempre escapa de simplificações.

Avaliação: Regular

Imaginário (SP), de Cristiano Burlan: passado apocalíptico
“É um filme de horror. Mas espero que esse horror não continue”, disse o diretor ao apresentar o curta no palco do Cine Brasília. De fato, o que vemos na tela é um desfile angustiante de imagens cotidianas da vida brasileira pontuadas por discursos de autoridades à época do golpe de 1964. Da instituição do regime militar ao AI-5.

Burlan espertamente insere sons ruidosos para acompanhar os registros, tornando cada fala ainda mais impactante. Se o presente parece assustador, nada como voltar décadas em nossa história e perceber os tons apocalípticos do passado. Imaginário é mais um lembrete do que um alerta. E se comunica de forma desconcertante com a atualidade.

Avaliação: Bom