APRESENTA A EXPOSIÇÃO

É pau / É pedra - Sergio / Camargo É pau / É pedra - Sergio / Camargo

Ouvir descrição
O artista plástico pensa pelos olhos, o mundo lhe vem pelos olhos. Da mesma maneira, acredito que o músico pensa pelos ouvidos e estrutura sua vida, sua relação com o mundo, através dos sons - quer dizer, do ouvido. O artista plástico, eu em todo caso, se liga ao mundo por meio da visão que tem dele. Agora, o que eu olho, o que eu vejo, de que maneira eu sinto as coisas que me rodeiam - que coisas eu sinto? -, tudo isso, enfim, tudo se revela através da obra”. — Sergio Camargo

É pau, é pedra...

Sergio Camargo é um gigante da arte contemporânea do país. Sua obra criou uma linguagem escultórica própria, capaz de tornar visível a arquitetura íntima da luz - um pensamento rigoroso, que dialoga, de forma exemplar, com o espírito modernista de Brasília e com a geometria poética de Oscar Niemeyer. Ao propor esta exposição para a capital, considerei tanto a força que as formas geométricas de Brasília tiveram sobre sua poética, quanto a ressonância de Camargo sobre a imaginação dos que conceberam a cidade - de Niemeyer a Lucio Costa e Athos Bulcão. É um encontro de arquiteturas: a do espaço urbano e a da visão.

Há, na tradição latino-americana, uma linhagem geométrica e cinética, que remonta à formação ibérica e ao legado árabe na Península - uma persistência de padrões, cortes e tessituras que atravessou séculos para repercutir no modernismo, na arte cinética e nas investigações contemporâneas. Em Camargo, essa memória ganha corpo num vocabulário conciso, econômico, que faz do cilindro seu fonema essencial. Ao chegar ao cilindro, ele chegou à economia da forma: um alfabeto para todas as possibilidades da luz. Seus relevos, blocos e constelações cilíndricas não descrevem objetos: descrevem incidências - o modo como a luz toca, a sombra desenha, o vazio pesa.

Outro gesto decisivo em sua formação é o corte - ação aprendida na proximidade das experiências de Lucio Fontana em Buenos Aires, e transposta por Camargo para um campo próprio. O corte, em sua obra, não fere a matéria: faz nascer a luz que nela estava contida. Entre face e fenda, entre superfície e intervalo, é ele que institui o espaço como tempo visível. Por isso chamo Camargo de “calígrafo de paus e pedras”: ele escreve com a matéria, e sua caligrafia é uma sintaxe de arestas e respiros.

Esta exposição é a mais abrangente dedicada ao artista em décadas. Propõe um percurso por sua obra e pensamento, e por suas afinidades com a arquitetura luminosa de Brasília. O título É pau, é pedra… convoca, de saída, a cadência da cultura brasileira: a enumeração de elementos primeiros. Assim como Jobim em “Águas de Março” condensou, em linguagem, uma paisagem emocional do país, Camargo convoca os mesmos materiais fundamentais - pau, pedra - para fazer emergir a essência da forma e da luz.

Entre modernidade e tradição, entre o rigor construtivo e um lirismo de superfície, sua obra funda uma ética da clareza. Sua pesquisa é sobre o esplendor diante da obra que, no exercício da experimentação, acontece, é como fazer o mínimo dizer o máximo, como permitir que a matéria - sem ornamento - se torne acontecimento luminoso. Esse rigor de rejeitar e saber parar para reconhecer é a síntese daquela tradução que a mão consegue dar às ideias da mente.

Camargo pertence àquela geração em que o Brasil acreditou radicalmente no futuro - quando artes visuais, arquitetura, música e literatura consolidaram uma constelação criativa sem paralelo - ele, aliás, foi um de seus pivôs. Seu legado não é apenas a beleza de relevos e volumes, mas uma pedagogia do olhar: aprender a ver a economia do essencial, a ética do corte, a inteligência da mão, a sutileza da luz.

É pau, é pedra… reativa a pertinência de Sergio Camargo no presente. Num tempo saturado de imagens, sua obra nos lembra que menos não é falta: é precisão. Entre ordem e organicidade, ela nos oferece uma gramática para pensar a forma e, com ela, a própria ideia de espaço público e comum. Ao final do percurso, esperamos que o visitante saia com outra medida do olhar - aquela em que a matéria, por um instante, volta a ser origem.

Marcello Dantas, Curador.