Mundial Sub-17: árbitras superam barreiras na profissão
Em entrevista no CT do Brasiliense, trio de arbitragem sul-americano fala sobre experiência de apitar jogos da competição masculina
atualizado
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Mostrando a visibilidade na arbitragem mundial, as mulheres vêm se destacando nas funções dentro das quatro linhas e chamando atenção com as grandes atuações com o apito e as bandeiras. Nesta Copa do Mundo Sub-17, um trio de mulheres rompeu barreiras e, pela primeira vez, comandou um jogo da competição das jovens promessas masculinas. As uruguaias Cláudia Umpierrez, Luciana Mascaraña e a equatoriana Mônica Amboya dirigiram a partida entre Angola e Canadá, na primeira fase da competição, realizada no Estádio Bezerrão, no Gama. O duelo terminou com vitória de 2 x 1 para a seleção africana.
Com o Campeonato Mundial chegando à reta final, as árbitras estão mais ainda concentradas em dar o melhor, buscando estar integradas às escalas nos jogos decisivos da competição. Treinando diariamente no CT do Brasiliense, elas, além do restante do quadro de arbitragem, aperfeiçoam o trabalho, buscando a excelência profissional e ética dentro das quatro linhas. Mesmo diante de muito trabalho, a árbitra e as duas assistentes tiveram, na última sexta-feira (08/11/2019), alguns minutos de entrevistas e “assédio” dos jornalistas. Respondendo a todos, as três foram concisas nas respostas sobre o trabalho que vêm executando.
Aos 36 anos, Cláudia Umpiérrez foi a primeira árbitra a apitar um jogo de futebol masculino no Uruguai. Após fazer história e chamar atenção do quadro da Conmebol, a profissional agora tem oportunidades de apitar torneios da FIFA e da própria confederação sul-americana. A vida de Cláudia, porém, não é só a arbitragem. Ela também atua em uma partição pública de seu país de origem como advogada. Mesmo “dividindo” as funções, o apoio dos companheiros de trabalho é fundamental para seu crescimento.
“Ultimamente estou sendo mais árbitra do que advogada, pois ultimamente com as oportunidades, estou podendo trabalhar muito. Mas fora isso, trabalho em uma empresa pública no Uruguai, que aposta muito em mim, pois por mais que seja, vivemos em um trabalho que nos representa e valoriza muito a nossa parte econômica. Pois teremos que ter nosso respaldo tanto da empresa, quanto dos companheiros de trabalho, quando não estamos nas participações nesses torneios”, ressalta.
Empolgada em campo, Cláudia destaca as barreiras que vem rompendo a cada competição e partida que arbitra. Mesmo tendo desconfiança do gênero masculino, a profissional mostra que a mulher busca a cada dia mostrar que não existe mais gênero na arbitragem e sim um trabalho único em prol de um mesmo objetivo.
“Todas nós que trabalhamos com isso, mostramos que arbitragem não é mais só gênero. Buscamos acertar a capacidade física e técnica, para que possamos dirigir qualquer tipo de partida. E isso mostra que para a FIFA não existe árbitro e árbitra, mas sim árbitros, pois mostramos que temos a mesma capacidade e que as oportunidades aparecem no mesmo nível. E que isso sirva para que tenhamos a mesma motivação, mostrando que confiando que em todas nós, com muita preparação e muita dedicação, chegamos lá. E que sempre queremos um pouco mais, com ambição, por crescer e por lutar pelos nossos objetivos”, diz.
Após apitar torneios da Conmebol, como Libertadores Feminina, Copa América Feminina e ter entrado em testes na Copa do Mundo sub-17 da Índia, Cláudia Umpiérrez agora tem a oportunidade de atuar e mostrar o trabalho em uma competição de grande visibilidade da FIFA. Superando os obstáculos, Cláudia tem um grande sonho, que agora está se transformando em meta: apitar uma final de Copa do Mundo. Mesmo lutando junto com os companheiros nos trabalhos, a árbitra espera ter um dia essa grande oportunidade.
“Meu grande sonho, com certeza é apitar uma final de Copa do Mundo, tanto masculina, quanto feminina. Mas diante de tudo, que eu possa sempre seguir firme, crescendo, junto com as minhas companheiras também, pois somos uma grande família e sempre queremos um pouco mais e vamos sempre rompendo barreiras”, completa.
Outro fator que Cláudia destaca é o respeito que os atletas estão tendo com ela, durante a competição. Além do respeito, a árbitra frisa que a intensidade física dos jogos se igualou, facilitando no trabalho e no modo de conduzir as partidas, assim, como ele conseguiu fazer no duelo da primeira fase do Mundial Sub-17.
“Não temos mais aquela diferença técnica e física, como antigamente. Temos que estar preparadas para qualquer tipo de desafio. Portanto, eles respeitam e principalmente em competições de garotos iniciantes que temos que ter uma conduta totalmente ética e respeitosa”, pondera.
Durante todo o Mundial Sub-17, a FIFA utilizou o CT do Brasiliense para a realização dos trabalhos de treinamento da arbitragem do torneio. Entre os mais de 80 árbitros, Cláudia chamou a atenção pela disposição e empenho nas atividades coordenadas pelos profissionais da arbitragem, como os árbitros Oscar Ruiz-COL, Jorge Larrionda-URU e Massimo Bussaca-SUI. Apesar de intensa e cansativa, a atividade de aperfeiçoamento deixa Cláudia pronta para realizar o trabalho de forma competente.
“Esse trabalho é fundamental. Buscamos nos aperfeiçoar nos torneios, nos deixam numa grande potência a nível do nosso país e do mundo. Tive a sorte de ser a primeira árbitra no Uruguai e sei que as minhas participações em diferentes torneios, mostra que é diferença no Uruguai. E todas nós estamos fazendo cursos, nos especializando, pois aqui estamos tendo todo o apoio a nós, tanto de forma teórica, quando pela forma física, com toda a estrutura, pois as vezes, em nosso país não temos tanta base que estamos vivendo na arbitragem, como agora, apitando essa Copa do Mundo”, finaliza.
Companheiras de Cláudia, as assistentes Luciana Mascareña (URU) e Mônica Amboya (EQU) também brilham na Copa do Mundo, com a visão correta em lances polêmicos durante o Mundial. A equatoriana Amboya, também feliz com a oportunidade e o entrosamento com as companheiras nos importantes torneios internacionais destaca o crescimento da arbitragem equatoriana e também menciona o rompimento de barreiras no gênero, principalmente em seu país, que é o Equador, quanto no próprio planeta.
“Tenho muito que agradecer por estar aqui. Agradeço a força das minhas companheiras, em ter feito em excelente Campeonato Equatoriano e encaixar a arbitragem feminina na liga profissional masculina que começou muito estranho para eles, mas a gente termina um grande campeonato e recebe todo apoio deles, mostrando que isso está mudando e está progredindo, com muito talento, encaixando a arbitragem feminina equatoriana em cursos internacionais. Vamos treinando a cada dia para termos as mesmas oportunidades que os outros, sempre nos incentivando em grandes figuras como Cláudia e Luciana, buscando a motivação que temos em todas as mulheres”, ressaltou.
Já no Uruguai, além de Cláudia, Luciana Mascareñas exalta o trabalho com a compatriota e agradece a oportunidade de aperfeiçoar experiências em um Mundial masculino.
“Feliz em estar aqui e ter a força das companheiras para seguir meu sonho. Hoje, sabemos o quanto é difícil conquistar os espaços. Mas com nossa força de vontade e empenho, mostramos que gênero não existe no trabalho dentro do futebol”, conclui.
