Excluída como sede da Copa América 2019 pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Brasília deixará de arrecadar entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões. Segundo estimativas do setor produtivo, esse valor seria movimentado por torcedores no comércio, transporte e na rede hoteleira, além do faturamento dos próprios jogos.

A esperança de retomar a agenda do palco mais caro da Copa do Mundo de 2014 com um evento de grande porte ruiu na quinta-feira (14/6), quando a CBF desferiu um duro golpe no Governo do Distrito Federal (GDF) ao cortar a capital da lista de cidades-sede.

Ao custo de R$ 1,577 bilhão, o ocioso Mané Garrincha acabou preterido por uma série de fatores. A demora na concessão do Centro Esportivo de Brasília – ArenaPlex, que engloba o estádio, o Ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Cláudio Coutinho, a utilização precária e a dificuldade em administrar o espaço colaboraram para a CBF dar de ombros para a capital da República.
A existência de vários estádios de primeira linha em São Paulo e a indefinição sobre o operador do Mané Garrincha minaram as chances de sediar a Copa América"
Richard Dubois, representante do Consórcio Arena BSB

Segundo Dubois – responsável pelo comando do grupo que pretende administrar a praça esportiva –, a competição “seria um evento que poderia trazer até R$ 100 milhões em negócios para a cidade, a depender do sorteio das chaves”.

O presidente do Sindicato das Empresas de Promoção, Organização, Produção e Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Distrito Federal (Sindeventos), Francisco Maia Farias, também culpa a falta de estrutura local. “Não temos uma atuação do governo ativa. Estamos perdendo eventos até para Fortaleza”, reclama.

“O fracasso em relação à Copa América é uma demonstração de que o GDF não está preocupado. Eles não se organizaram. E não há previsão de grandes eventos em Brasília para este ano, por isso estamos perdendo esse torneio, além de congressos e tantos outros”, pontua Farias.

Tanto a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer, administradora da arena, como a Federação de Futebol do Distrito Federal (FFDF) falharam nas tratativas com a entidade máxima do futebol nacional. A reportagem apurou que as atuais condições do Mané Garrincha aumentaram a resistência da CBF com a cidade. Dessa forma, a tabelinha entre a pasta de turismo e a federação de futebol não surtiu efeito.

Terracap e GDF lamentam
Para o presidente da Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap), Júlio César de Azevedo Reis, os esforços para trazer os jogos foram feitos.

“É óbvio que há uma competição [entre as cidades]. A Secretaria de Turismo se empenhou em trazer a Copa América para cá, mas, por questões que fogem ao nosso conhecimento, apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador vão sediar esses jogos”, lamentou Reis.

A Terracap é a atual administradora do Mané Garrincha e tenta passar à iniciativa privada a gestão do complexo esportivo.

A CBF, por sua vez, disse que o “Brasil tem diversas praças com plenas condições de receber a Copa América. Pelo número de jogos e duração da competição, foram escolhidos cinco locais”.

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) também comentou a derrota sofrida e diz esperar uma virada de jogo. “Brasília já demonstrou ter grande capacidade de sediar grandes eventos. É lamentável que tenha ficado de fora. A gente espera que a CBF tenha tempo de reverter essa decisão.”

Ao Metrópoles, a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer informou “lamentar a decisão da Confederação Brasileira de Futebol em diminuir o número de cidades-sedes, devido à redução dos times que disputarão o torneio”.

Concessão travada
O fato de não ter um operador único atrapalha as pretensões do Mané Garrincha. Enquanto a Secretaria de Turismo administra o espaço e fica responsável pela sua agenda, a Terracap arca com os custos de manutenção, na ordem de R$ 700 mil mensais. É por conta desse dispêndio que a empresa tem batalhado para se livrar do estádio e cedê-lo à iniciativa privada via Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI).

A demora na concessão tem afastado organizadores de shows e jogos. Uma das pedras no sapato atualmente diz respeito aos procedimentos referentes ao uso e à ocupação do solo. Para o ArenaPlex sair do papel, é necessário findar a discussão do assunto com a Secretaria de Estado de Gestão do Território e Habitação (Segeth), pasta responsável pela alteração dos parâmetros urbanísticos.

Após idas e vindas, o Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal (Conplan) aprovou, por unanimidade, o projeto que trata desses critérios. Embora tenha deliberado o assunto em 24 de maio, o tema ainda não foi encaminhado à Casa Civil.

“Ajuste na poligonal do lote”
Esse rito é crucial para o prosseguimento do trâmite e a criação de um Projeto de Lei Complementar (PLC) autorizando o ArenaPlex. À reportagem, a Segeth informou que o projeto está “passando por um ajuste na poligonal do lote” e, na sequência, será enviado à Casa Civil. Não informou, porém, qualquer previsão de data.

Por fim, o Tribunal de Contas do DF (TCDF) informou à reportagem que aguarda o envio, pela Terracap, dos documentos pendentes para retomar o julgamento do processo, suspenso em março.

Segundo o TCDF, restam receber apenas a autorização legislativa para a mudança de destinação da área e a licença do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para novas construções no local. Os demais questionamentos foram enviados.

Mais de dois anos se passaram desde a publicação do edital de chamamento para a concessão, em março de 2016. O PMI andou a passos de tartaruga até o fim de 2017, quando ganhou corpo e, novamente, emperrou.

Durante toda a sua operação, o estádio sempre esteve no vermelho. Em 2017, obteve R$ 1,7 milhão com jogos e espetáculos, mas apresentou dispêndio de R$ 8,7 milhões – cerca de R$ 7 milhões de prejuízo. O cenário foi o mesmo em 2013, 2014 e 2015.

Os rolos e os clássicos do Mané

Escândalos 
Em maio, o Ministério Público Federal no DF (MPF-DF) pediu à Polícia Federal e à Justiça para aprofundar as diligências dos crimes de cartel, superfaturamento, além do envolvimento de outros investigados no desvio de recursos do Estádio Mané Garrincha, no âmbito da Operação Panatenaico. Também requereu reparação de R$ 52,4 milhões por danos decorrentes da corrupção (lesões à ordem econômica, à administração da justiça e à administração pública).

De acordo com as denúncias, a PF abriu novas frentes de investigação – pelos menos três inquéritos – para apurar a assinatura de contratos fictícios, emissão de notas fiscais falsas e lavagem de dinheiro envolvendo a Federação Brasiliense de Futebol e o consórcio que construiu a arena.

Para os procuradores, a continuidade das investigações deve delimitar a autoria dos responsáveis pelas fraudes que ensejaram o prejuízo milionário apontado no relatório da Polícia Federal, considerando o fato de a materialidade ter restado bem definida nos laudos.

(Colaborou Manoela Alcântara)