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Enviado especial ao Rio de Janeiro – Produção e elenco de O Mecanismo, série da Netflix sobre os bastidores da operação Lava Jato, conversaram com jornalistas brasileiros na manhã desta quinta (15/3), em coletiva de imprensa no hotel Belmond Copacabana Palace. A produção estreia em 23 de março na plataforma de streaming.

Cocriado por José Padilha (diretor de Tropa de Elite) e Elena Soarez, o seriado dramatiza a força-tarefa por meio de Ruffo (Selton Mello), delegado da Polícia Federal, e Verena (Caroline Abras), sua sucessora na investigação.

“Acho que tem um lado comovente. Esse do cidadão que deseja justiça, ansioso em ver as coisas resolvidas”, disse Mello. O ator vive um policial atormentado pelas investigações do doleiro Ibrahim (Enrique Diaz), envolvido há anos em esquemas de corrupção. Aos poucos, ele descobre as ligações do articulador com políticos e empresas públicas e privadas.

Na série, nomes de pessoas reais e instituição são trocados por versões ficcionais para efeito dramático. A ex-presidente Dilma Rousseff, por exemplo, é chamada de Janete. E a Petrobras vira PetroBrasil. “A gente está fazendo algo mais ou menos baseado no mundo real. Temos ideias, mas não posso dizer se vai ter uma segunda temporada. Estamos sempre conversando com o Vladimir (Netto, autor do livro sobre a Lava Jato que inspirou o seriado)”, disse o diretor.

Alexandre Loureiro/Netflix

Carol Abras, Jose Padilha e Selton Mello durante coletiva no Rio de Janeiro

 

Para Elena, a maior dificuldade na construção roteiro foi esse equilíbrio entre real e dramático. “Foi balancear ficção com realidade, política com entretenimento. A operação começou num fato pequeno e foi abrindo. Começa com doleiros, depois diretores de estatais, empresas, políticos. Houve uma hora em que todas as notícias tinham a ver com a série.”

O mecanismo é subjacente a grande parte das mazelas do Brasil. O fato de a segurança pública não funcionar, da educação não funcionar. Claramente a Lava Jato conseguiu alguma coisa. Uma perna do mecanismo foi punida: as empresas. A próxima grande empresa à la Odebrecht vai pensar cinco vezes antes de fazer o que ela fez. Alguns políticos foram punidos, não todos. Como os tribunais superiores são formados por indicações políticas, evidentemente são comprometidos. Será que a outra parte, a política, vai ser punida?"
José Padilha

Padilha, sempre dono de um posicionamento político que acredita ser neutro, alerta: o mecanismo do título da série faz referência à maneira como as coisas funcionam no país. “No Brasil, a corrupção faz parte da lógica, da estrutura da política. Corrupção não é a exceção, é a norma. A lógica da corrupção determina os blocos partidários no Congresso e quem vai para qual cargo na administração pública”, explicou.

Alexandre Loureiro/Netflix

Selton Mello é um dos protagonistas da série

 

Morte de Marielle Franco
Enrique Diaz, intérprete do vilão Ibrahim (o Alberto Youssef ficcional), foi o primeiro abordar diretamente o assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL morta a tiros na noite de quarta (14/3), no centro do Rio de Janeiro. “É algo terrível o momento que vivemos no Brasil. Não queria de deixar falar sobre isso”, lamentou o ator.

Na pele de um jovem policial federal que trabalha com Verena, Jonathan Haagensen também falou sobre a tragédia. “É o que acontece em comunidades em todos os lugares do mundo. A violência silenciosa. Principalmente contra as mulheres negras.”

Questionado frequentemente na coletiva se ele escolheu um lado ideológico na série, Padilha se disse “socrático”. “Só sei que não sei. Não acredito em nenhuma ideologia. Mas acredito nos fatos”, sentenciou. Ele classificou a morte de Marielle como parte “de uma repetição de fenômenos violentos”. “A polícia mata número gigantesco de pessoas. Entra governo, sai governo, e o problema da segurança continua. É uma tragédia. O que aconteceu ontem foi terrível para o Rio de Janeiro e para o Brasil.”