Rua do Samba é marco da cultura negra em São Paulo. Conheça a história
Agora chamada de Rua do Samba da Barra Funda, a Rua João de Barros foi essencial na consolidação do bairro como redutos da cultura negra

A recente nomeação da antiga Rua João de Barros para Rua do Samba da Barra Funda é apenas um dos reflexos do movimento cultural que vêm acontecendo em territórios historicamente negros como o bairro da zona oeste de São Paulo. Apesar do novo nome da rua só ter sido oficializado este ano, a Rua do Samba é conhecida desde a década de 1980.
Foi nesse período que o sambista Carlos Alberto Tobias teve a ideia de transformar uma rua do bairro em um espaço de lazer voltado ao gênero musical. Com promoção de eventos de samba e cultura negra gratuitos desde os primeiros eventos, agora, o projeto promete maior valorização da cultura de rua e da memória do samba paulista.
O músico conseguiu, em 1982, articular com a Prefeitura de São Paulo um evento semanal — realizado aos domingos — chamado Rua do Samba, que acontecia na Rua João de Barros. Ao Metrópoles, a filha dele, a cantora e compositora Simone Tobias, relembra o começo de tudo.
“Foi meio complicado, óbvio, à época, porque nós estávamos ainda saindo de uma ditadura militar, mas ele sempre esteve muito à frente do seu tempo. E ele sempre dizia o seguinte: ‘a gente precisava entreter, a gente precisava dar cultura e oportunidade para as pessoas que não têm como pagar, por exemplo, para assistir um Jorge Ben Jor em um teatro’”, explica Simone.
Segundo ela, o projeto começou pequeno, porém, após cerca de um ano, conquistou o público. No começo, não havia divulgação prévia das atrações. A ideia era chegar lá, sem saber o que ia encontrar, e se deparar com artistas como Alcione, Jorge Ben Jor, Fundo de Quintal, Alice Brandão, Dona Ivone Lara e muito mais. Recebendo um cachê simbólico, Simone explica que os músicos, mesmo os grandes nomes, se apresentavam porque acreditavam no objetivo projeto.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoO que rola na Rua do Samba
Nos dias de hoje, uma das entidades que mais traz vida ao samba na Barra Funda é a Iniciativa Negra. A diretora-geral Nathália Oliveira detalhou ao Metrópoles o projeto Cartografias de Bamba, que resgata a memória de territórios negros, com levantamento de documentos e catalogação de acervos.
De acordo com ela, o trabalho, que existe há três anos, começou com o bairro por ele ser o berço do samba na capital paulista. “É uma maneira interessante da gente conhecer mais sobre a nossa história, sobre os nossos antepassados, sobre o que nos identifica como comunidade negra e entender também como viveram os nossos diantes. A gente entende que isso são maneiras, também, de encontrar armas que nos ajudem a avançar no combate ao racismo.”
Quem se apresenta com frequência na Rua do Samba é o grupo Samburbano. Líder do projeto, Roberta Oliveira conta que o grupo chegou ao local após passar por 12 anos de perseguição no Largo Santa Cecília, na região central da capital paulista. Segundo ela, mesmo levando fomento ao local e não explorando o espaço, todo o recurso que eles conseguiam com as apresentações, era voltado para “levar o samba para o lugar de origem em São Paulo”.
Francisco Cosme de Oliveira, mais conhecido como Chagas, é dono de um bar que abre as portas para apresentações na Barra Funda. Ele chegou à Rua João de Barros quando o projeto da Rua do Samba, aos domingos, já havia acabado. “É uma rua histórica. É diferente essa rua. O pessoal fala que é diferente, porque é diferente mesmo. Todo sambista, quando chega aqui, fala que tocar aqui é muito bom”, detalha o proprietário.
Cultura do samba além da roda
A Rua do Samba da Barra Funda também traz o fortalecimento da cultura negra como um dos focos centrais da iniciativa. Simone afirma que o samba foi o ponto crucial que a aproximou da diversidade.
“Eu comecei dentro de uma escola de samba. Foi lá que nós começamos a perceber que não tinha diferença, que éramos seres humanos iguais. A escola de samba acolheu o homossexual, acolheu o marginal, acolheu todo mundo na expectativa de que ele se sentisse pertencente”, conta. Ela ressalta também que o sentimento de pertencimento e o movimento de levar alegria são coisas que são dadas de graça.
“O samba é, sobretudo, além de cultura, um movimento que cura e que salva.”
Simone Tobias
Nathália, da Iniciativa Negra, destaca a importância dos antepassados na luta para chegarmos onde estamos atualmente. “A gente sabe que já foi pior e que ainda tem muito a avançar, mas a gente não tem dúvida que, se não fosse a luta dessas pessoas que resistiram, que estiveram na rua e tomaram botinada para colocar o samba e o Carnaval na rua e foram criminalizadas, presas por vadiagem, nada disso seria possível.”
Quem também recorda que “sambista era tido como vadio” é Roberta. Ela lembra que muitos foram perseguidos por não estar com carteiras de trabalho. “Eu falo que o lugar mais seguro do mundo é em uma roda de samba, porque eu nunca vi tanta polícia [reunida como] quando a gente bate um tambor”, alfineta.
Ela ressalta ainda que é necessário que sejam criadas cada vez mais leis que permitam levar a cultura a quem não pode pagar por isso. “Não dá para pedir para eu dar de graça o que faz a minha vida virar, é o meu ofício, mas eu tenho uma missão pessoal. Então, a gente tenta criar condições com parceiros, com fomentos, com leis, com emendas e com tudo que a gente puder para trazer recursos para poder fazer esse samba acessível para o grande público”, detalha.

















