O que é a Kick, plataforma usada por streamer em ataque a ator da Globo
Rival da Twitch ganhou espaço com regras de moderação mais flexíveis e modelo que repassa 95% da receita de assinaturas aos criadores

Em meio à ofensiva do governo contra plataformas digitais, a Kick, concorrente da Twitch, entrou no centro das discussões sobre os conteúdos transmitidos em suas lives. A plataforma ganhou destaque após transmitir, em tempo real, o momento em que o streamer GH e outros criadores de conteúdo hostilizaram o ator João Victor Gonçalves nas proximidades do Rock in Rio.
Criada em 2022, a Kick é uma plataforma de streaming que se apresenta como “liderada por streamers” e voltada a uma ampla variedade de conteúdos. Entre eles estão as transmissões “In Real Life” (IRL), nas quais os criadores mostram atividades do dia a dia, como passeios pelas ruas, viagens, conversas e interações com outras pessoas.
Foi durante uma transmissão desse tipo que o streamer Jean Almeida Hilário, de 19 anos, conhecido como GH, se envolveu na polêmica com João Victor, que interpreta Mau Mau na novela Quem Ama Cuida, da TV Globo.
GH transmitia uma live nas proximidades do Rock in Rio quando passou a zombar das roupas usadas pelo ator. “Caralho, fiel, o que é isso, fiel?”, disse o streamer. Outros jovens que estavam com ele também chamaram João de “horroroso”.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoO ator afirmou posteriormente que sentiu medo de ser roubado e acusou GH de homofobia. O streamer, por sua vez, afirmou que João Victor teria sido racista.
Veja o vídeo:
QUE NOJO! João Victor Gonçalves, o Mau Mau de “Quem Ama Cuida”, é alvo de risadas e comentários de streamers da Kick, que debocharam de seu look ao vê-lo voltando do Rock in Rio. pic.twitter.com/fGMXVNTBIv
— poponze (@poponze) September 5, 2026
Poucas horas após a repercussão do caso nas redes sociais, a Kick desativou a conta de GH. Até a publicação desta matéria, o perfil não havia sido reativado.
A decisão está relacionada às próprias regras da plataforma, que proíbem, entre outras condutas, “pegadinhas feitas para incitar medo” e “assédio ou exploração de pessoas que não querem participar ao transmitir em público”.
Como funciona a Kick?
A Kick surgiu como uma concorrente da Twitch e ganhou espaço ao apostar em uma política de conteúdo considerada mais permissiva e em um modelo de remuneração mais vantajoso para os criadores.
Um dos principais diferenciais está na divisão da receita obtida com assinaturas. A plataforma fica com 5% do valor, enquanto 95% são destinados ao streamer. Na prática, considerando uma assinatura de US$ 5, o criador recebe US$ 4,75, antes de eventuais taxas aplicáveis.
Além das assinaturas, os streamers podem ganhar dinheiro com gorjetas, chamadas de “KICKs”, publicidade, patrocínios e outras formas de monetização.
A plataforma também permite transmissões relacionadas a cassinos on-line, caça-níqueis, roleta, blackjack e apostas esportivas. A característica está relacionada à própria origem da empresa: a Kick foi criada por Ed Craven e Bijan Tehrani, empresários ligados à Stake, empresa de apostas e cassino on-line.
Segundo o especialista em opinião pública Marcos José Zablonsky, a política de moderação da Kick ajudou a plataforma a atrair criadores que tiveram problemas em outras redes.
“A Kick se consolidou no mercado promovendo uma política de moderação de conteúdo muito mais solta do que concorrentes como a Twitch e o YouTube. Isso atrai imediatamente criadores que foram banidos de outras redes por violações graves de conduta, como assédio, discursos de ódio ou comportamentos de risco. A plataforma se tornou o lar de influenciadores polêmicos, incluindo celebridades da internet banidas e membros de subculturas como a manosphere e os looksmaxxers”
Para Zablonsky, o problema aparece quando a própria transgressão passa a funcionar como estratégia para aumentar a audiência.
“O risco surge quando ultrapassar limites passa a ser percebido como estratégia para conquistar visibilidade. Nesse ambiente, a transgressão pode gerar atenção; a atenção, audiência; a audiência, engajamento; e o engajamento pode ser convertido em receita”, explica.
Influenciador morreu durante transmissão
O caso envolvendo João Victor não é o primeiro episódio controverso relacionado à plataforma. Em agosto de 2025, a Kick também baniu criadores envolvidos nas transmissões que antecederam a morte do influenciador francês Raphaël Graven, conhecido como Jean Pormanove ou JP.
O influenciador morreu durante uma transmissão ao vivo após ser submetido a episódios de violência e humilhação praticados por parceiros de conteúdo identificados como “Narutovie” e “Safine”.
Para Zablonsky, episódios como esse levantam uma discussão que vai além das regras estabelecidas pelas próprias plataformas.
“A discussão sobre casos como esse não deve se limitar à pergunta sobre o que uma plataforma permite ou proíbe. Precisamos perguntar também quem assume as consequências quando aquilo que circula dentro dela produz danos fora da tela”, afirma o professor da Escola de Belas Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Já o especialista em direito digital Marco Aurélio Fernandes avalia que uma política de moderação mais permissiva, por si só, não torna a plataforma ilegal. O problema, segundo ele, pode estar na capacidade de reação diante de conteúdos que causem danos.
“Nas lives, o problema é maior porque o dano ocorre em tempo real. Quando a moderação reage, o conteúdo pode já ter sido gravado, recortado e redistribuído.”
Ele explica que a plataforma não é automaticamente responsável por tudo o que acontece em uma transmissão, mas sua atuação pode ser analisada quando há indícios de falhas na moderação.
“A plataforma não responde automaticamente por tudo o que ocorre em uma transmissão, mas sua atuação também pode ser analisada: se tinha conhecimento, se possuía meios técnicos para intervir, quanto tempo levou para agir e se apresentava falhas estruturais de moderação”, finaliza.
Repercussão
O episódio envolvendo GH e João Victor também provocou reação de autoridades. A deputada federal Erika Hilton (Psol) acionou o Ministério Público do Rio de Janeiro contra a plataforma. Segundo ela, “gravar uma pessoa na rua, sem mais nem menos, submetê-la ao deboche e ofensas de teor homofóbico e transmitir tudo isso ao vivo não é entretenimento”.
Procurado pelo Metrópoles, o MPRJ confirmou que recebeu a denúncia e que o procedimento ainda está em fase de distribuição.
Kick e Discord
A discussão sobre a Kick ocorre em um momento em que outras plataformas que permitem transmissões ao vivo também estão sob pressão no Brasil. O Discord, por exemplo, entrou na mira do governo federal após uma adolescente de 13 anos, em Mato Grosso do Sul, ser exposta a conteúdos relacionados à automutilação e ao suicídio dentro da plataforma.
O episódio levou a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, a defender o bloqueio do Discord no país. Posteriormente, a Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou medidas contra a empresa, enquanto a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão de recursos de vídeo e transmissões ao vivo da plataforma.
Entre os problemas apontados pelas autoridades estão falhas na verificação da idade dos usuários e na identificação e remoção de conteúdos considerados nocivos para crianças e adolescentes.
As determinações atingiram o Go Live, recurso que permite transmissões em tempo real, e as chamadas de vídeo. Outras funções do Discord, como mensagens diretas, servidores, comunidades e canais exclusivamente de áudio, continuam disponíveis.
A empresa criticou a decisão do governo de suspender as lives e solicitou a retomada das funcionalidades enquanto o recurso estiver em análise.
















