
Nove pontos para entender o impacto dos fã-clubes nas eleições de 2026
De Beyoncé a BTS, fãs de música, séries e games se mobilizaram nas redes e nas ruas durante a campanha de Lula

A mobilização nas redes sociais teve papel de destaque nas eleições de 2026 e contou com um grupo específico: os fandoms, como são chamados os fã-clubes na internet. Grupos dedicados a artistas como Beyoncé, BTS e Lady Gaga ajudaram a impulsionar manifestações nas ruas e chegaram a receber um agradecimento do próprio Lula (PT), vencedor do pleito.
Após o primeiro turno, em 4 de outubro, um fã-clube de Billie Eilish ofereceu apoio à campanha do petista. O gesto desencadeou uma articulação inédita: nas semanas seguintes, comunidades produziram conteúdos, foram às ruas e deixaram as notícias sobre os ídolos em segundo plano para se dedicar à política.
“Assim que vimos outros fã-clubes disponibilizando as redes para apoiar a campanha de Lula, fizemos o mesmo. Primeiro no Twitter, depois no Instagram. Também retomamos com mais força o Fandoms pelo Brasil, um projeto que já reunia diferentes comunidades de fãs em torno de causas que consideramos importantes”, contou Rafaella Silveira, do portal Beyoncé Brasil.
Oi, @LulaOficial! Nossas redes estão abertas para você e sua equipe.
Estamos disponíveis para compartilhar informações de interesse público e conteúdos relacionados à sua campanha, sempre com o objetivo de ampliar o acesso do nosso público às informações.
Estamos à disposição!
— Info Billie Brasil (@InfoBillieBR) October 5, 2026
A mobilização ajudou a impulsionar um dos primeiros grandes atos em apoio a Lula, na Avenida Paulista, em 11 de outubro. Organizada por associações estudantis, a manifestação contou com a divulgação dos fandoms. No trio elétrico, o petista reconheceu a participação dos grupos: “Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês”.
Para dimensionar o alcance do fenômeno, o Laboratório Cultpop, dedicado à pesquisa sobre cultura pop, mobilizou pesquisadores de oito universidades para analisar 6,5 mil publicações em diferentes plataformas. O levantamento identificou nove tendências que ajudam a explicar como os fã-clubes transformaram o engajamento político.
Identitarismo
O estudo aponta que as eleições de 2026 foram as mais identitárias já realizadas no país. Nas redes sociais, isso significa que o debate foi atravessado por reivindicações de grupos sociais específicos. Nesse contexto, os fandoms também encontraram espaço para atuar, cada qual com uma linguagem e uma identidade visual capazes de dialogar diretamente com o próprio público.
Mulheres e LGBT+
Outro aspecto identificado pela pesquisa foi o protagonismo de mulheres e pessoas LGBT+ na administração dos fã-clubes. Os pesquisadores observaram que esses grupos estiveram na linha de frente da mobilização virtual, em um movimento que dialoga com a valorização do feminismo e das figuras femininas, já presente em comunidades dedicadas às divas pop.
“A própria Katy Perry é uma artista que se posiciona politicamente desde sempre, então como fãs conscientes (que fazem parte da comunidade LGBTQ+) e principalmente por eu ser resultado de políticas públicas, fomos atrás desse apoio à campanha do Lula”, mencionou Simon Diego, membro do Portal Katy Perry.
Música pop
A presença dos fandoms também ganhou as ruas. Em manifestações pró-Lula, não era raro encontrar cartazes com referências diretas a cantoras como Beyoncé e Lady Gaga. Após o primeiro turno, o movimento Fandoms com Lula reuniu admiradores de cerca de 70 artistas nacionais e internacionais. Embora outros nichos, como fãs de heróis e séries, também tenham participado, a pesquisa identifica as comunidades musicais como protagonistas da mobilização política digital.

Cultura geek
Se os fãs de música ocuparam o centro da articulação, gamers e admiradores da cultura geek seguiram outro caminho. Segundo o estudo, esse segmento é predominantemente masculino e conservador, mas também contou com apoiadores de Lula. Nesse caso, a estratégia foi transformar referências de produtos culturais, como jogos eletrônicos e histórias em quadrinhos, em ferramentas de comunicação eleitoral.
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Desafios
Assim como ocorreu no Exército do Lula, os fandoms recorreram a desafios para estimular a participação dos seguidores. A estratégia, porém, já fazia parte da rotina dessas comunidades, acostumadas a organizar mutirões para aumentar visualizações de clipes e reproduções de músicas.
“Estratégias bem conhecidas e amplamente adotadas pelos fandoms, como se organizar para aumentar as visualizações e métricas de engajamento de um vídeo ou produzir memes e conteúdos de humor que dialoguem com as referências de suas comunidades, são deslocadas para o campo ativista, trazendo um novo repertório para o mesmo”, reflete Beatriz Blanco, doutora em comunicação e coordenadora do estudo.
Humor
Com o resultado do primeiro turno, um sentimento de urgência tomou conta de setores da esquerda. A preocupação com o cenário eleitoral foi transformada em memes e piadas, que também passaram a funcionar como instrumentos de disputa ideológica. Além de ilustrar sentimentos coletivos, o humor serviu como reação às publicações do campo da direita, representado por apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL).
“O humor passou a servir como parte da performance de identidades e pertencimento, deslocando, portanto, a lógica da ‘esquerda paz e amor’ para uma esquerda irônica, ácida e focada na retaliação e até mesmo na manipulação afetiva”, menciona Eloy Vieira, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Inteligência artificial
O levantamento também identificou uma mudança na relação de parte dos eleitores de esquerda com a inteligência artificial (IA). Antes críticos ao uso da tecnologia, alguns grupos passaram a recorrer a ferramentas generativas para criar conteúdos que retratavam Lula e Flávio Bolsonaro como personagens de novelas, reality shows e artistas pop.
Quem precisa da fazenda né mesmo? Temos a política brasileira em memes.
LULA TETRA ⭐️ https://t.co/b4SbxLC32a
— Vanessa Brasil|SALVE O POVO INDÍGENA🏹 (@kyllBrasil) October 17, 2026
“Se antes a esquerda abominava o uso de IA generativa, agora se apropriam das ferramentas e das linguagens para propagar conteúdos também com viés humorísticos e ocupar espaços que tradicionalmente eram ocupados com maestria pela extrema direita que, há anos vem utilizando as brechas das plataformas e da cultura digital”, explica Vieira.
Memória
A memória afetiva dos fãs também se transformou em ferramenta de mobilização. De acordo com o estudo, as comunidades resgataram referências próprias para interpretar o cenário eleitoral. Fãs de Star Wars, por exemplo, apontaram paralelos entre vilões da saga e Flávio Bolsonaro (PL). Outros recorreram a canções de Madonna para estabelecer relações com a conjuntura política. Essas referências ajudaram a aproximar passado e presente e a impulsionar o ativismo digital.
Ativismo
A participação política dos fã-clubes não começou em 2026. Em 2022, a campanha Fandoms Pelo Voto mobilizou jovens de 16 a 18 anos para tirar o título de eleitor. Dois anos depois, o Fandoms Pela Amazônia promoveu mutirões em defesa da preservação ambiental. Segundo o levantamento, as eleições de 2026 representaram “uma nova dimensão desse fenômeno”.
“As ruas seguem sendo lugares importantes para manifestações, mas vimos elas tomadas de jovens usando a criatividade com cartazes, memes e referências de linguagens próprias da internet”, pontua Adriana Amaral, coordenadora do Cultpop. “Não há exatamente uma separação entre ruas e redes, mas sim diferentes formas criativas de comunicação que interligam ambas, onde uma depende da outra.”








