Sons da pandemia! Isolamento aumenta número de composições musicais

Levantamento mostra que as obras musicais passaram, no primeiro semestre de 2020, de 12,5 milhões para mais de 13,7 milhões

atualizado 26/07/2020 20:22

Compositores na pandemiaGui Prímola/ Metrópoles

A pandemia de Covid-19, doença causada pelo coronavírus, deu uma oportunidade que há muito tempo não se tinha: ficar em casa por mais tempo. Assim, a rotina intensa de shows, viagens e gravações, de repente, acabou e os músicos se viram em um momento de crise, que serviu de inspiração para o que eles sabem fazer: canções. 

A popstar Taylor Swift, por exemplo, compôs, gravou e lançou o disco Folklore durante o período de isolamento social. O caso da americana encontra eco aqui no Brasil. Segundo levantamento divulgado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), o número de composições no maior acervo brasileiro cresceu, no primeiro semestre de 2020, de 12,5 milhões para 13,7 milhões, um aumento de 9,6%.

Em números absolutos, os primeiros seis meses de 2020 registraram 1,2 milhão de novas músicas no cadastro do Ecad. Já no ano passado, no mesmo período, o número foi de 965 mil novos singles. Variação positiva de 24,3%. O motivo desse surto de criatividade está, diretamente, conectado com as medidas de combate à pandemia. 

“Por estar mais em casa, com menos afazeres, os próprios cantores começaram a se voltar para o lado da composição, e os compositores que vive só disso aceleraram o ritmo de produção”, explica ao Metrópoles o influencer Renato Sertanejeiro, um dos maiores especialistas do mercado sertanejo brasileiro. 

Teor das músicas

Saudade, tristeza, felicidade, agonia, ansiedade, depressão, estresse… a música serve para ilustrar qualquer momento vivido pela sociedade. Basta encontrar o single e as palavras corretos. Um levantamento feito pela agência de propaganda Leo Burnett em parceria com a MindMiners, mostrou que O Dia Em Que a Terra Parou, de Raul Seixas, é apontada pelos 1 mil entrevistados como a canção que mais descreve a pandemia do coronavírus, por exemplo.

Murilo Huff, responsável por mais de 280 composições no Ecad, explicou ao Metrópoles o processo criativo: “A gente não escreve só sobre o que estamos vivenciando, às vezes retratamos a experiência do outro, daquilo que observamos das outras pessoas ou de uma história. É claro que, quando é com a gente, fica bem mas fácil de compor, grandes emoções servem de inspiração”.

Já o cantor e compositor do Distrito Federal Hungria Hip Hop se sente mais confortável em retratar momentos do seu cotidiano. “A gente compõe e vive sentimento. Então, tudo que passamos vira música, letra, melodia, influencia no que vai ser passado para o papel”, argumenta.

“A composição depende muito do que você está passando, é uma coisa que vem de dentro, é muito relacionado com o momento vivido. Não estamos em uma época de alegria e, por consequência, tudo vai para um lado mais melancólico, romântico e de esperança. 70% [das composições] falam de amor, de esperança, de saudade, de liberdade. É tudo consequência do agora”, reforça Sertanejeiro.

Lançamentos

Ainda pensando na agenda de shows interrompidas, o mundo das lives ficou conhecido como novo normal em um cenário pandêmico. Acontece que o momento também indicou uma pausa nos lançamentos de novas canções. A falta de shows, o “termômetro” de receptividade do público, criou uma onda de nostalgia com apresentações focadas no tema “As Antigas”

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“O artista não pode ficar sem divulgar material novo por muito tempo, se não a gente acaba caindo no esquecimento. Mas o momento não é dos melhores, até pelo fato de não podermos fazer show, onde a gente colhe os frutos da música lançada”, disserta Huff. 

Sertanejeiro, sócio da empresa Fábrica de Hits, voltada para o marketing digital, considera que o público optou pelo efeito nostalgia que as músicas antigas ofertam, capazes de remeter a bons momentos: “As pessoas pararam de consumir Spotify e Deezer porque não tinham mais rotina, o consumo diminuiu e foi tudo para as lives, então não fazia sentido lançar coisas novas”, acredita.

Sertanejeiro ainda afirmou que haverá um estouro de lançamentos entre os meses de agosto e novembro, já que os artistas deixaram músicas guardadas esperando o momento certo de soltar. Além de novas canções, os cantores têm trabalhos já prontos ainda não divulgados por conta da pandemia.

Hungria seguiu por outro caminho e preparou um álbum completamente acústico, com violino, gaita e instrumentos mais leves e diferentes de sua música convencional. Segundo o rapper, Cheiro do Mato estreia em respeito ao momento vivido: “Acho que as pessoas estão escutando mais música. Música é vida, faz a gente chorar, ter fé, acreditar. As pessoas estão com tempo para entender mais a letra”.

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