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Quando Marta Leonardo de Oliveira, a Martinha do Coco, sobe ao palco, seus gestos ganham uma vibração diferente. Aos 56 anos, a pernambucana radicada no Paranoá, periferia do Distrito Federal, desenvolve há onze uma carreira energizada pelo que a artista carrega dentro de si: a vocação para contar histórias por meio da música. “Eu traduzo o que está comigo”, ela diz, antes de lançar “Rodas Griô”, o primeiro CD da carreira.

O palco é discreto, protegido por uma tenda. Na última quinta (9/11), um diminuto espaço montado na praça central do Paranoá acolheu dezenas de crianças, Martinha do Coco e a banda que a acompanha em seus shows de ciranda, samba de coco e maracatu. Cada estilo vem misturado a uma poética candanga. “Esse coco é do Cerrado feito JK”, anuncia ela na música “Coco do Cerrado”.

 

Martinha tentou levantar fundos para gravar esse mesmo álbum há um ano, via financiamento coletivo. Não deu. Em 2017, o projeto saiu do limbo por meio da quarta edição do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras, realizado pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon). Trata-se de edital em parceria com o Ministério da Cultura e a Fundação Cultural Palmares.

Tantas siglas e instituições não escondem as simetrias mágicas de “Rodas Griô”. Afinal, Martinha, além do coco que carrega no nome artístico, é uma griô, termo de origem africana que designa quem guarda a memória, os saberes e as tradições orais de um povo. Nada mais justo contar essas histórias para quem tem memória fresquinha para armazená-las: as crianças.

“Eu já tinha todo esse meu conteúdo. Trabalhava, cantava e estava inserida musicalmente na comunidade. O ‘Rodas Griô’ amplia o meu repertório”, explica Martinha, que veio para Brasília aos 17 anos com a família – ela é a segunda mais nova de cinco irmãos.

Com projeto aprovado, Martinha fez residência em escolas públicas de Itapoã e Paranoá. Nelas, a artista e mestra de cultura popular, reconhecida pelo MinC e pela Secretaria de Cultura do DF, passou adiante o que sabe. Como uma genuína griô do Brasil contemporâneo. Dezenas de pupilos dividem o microfone com a cantora em três das sete faixas do álbum, gravado no estúdio Melodia Music Center.

Martinha nasceu em Recife, mas foi criada em Olinda, uma cidade que classifica de “berço cultural”. Foi lá onde ela conheceu a música, o carnaval, a dança. A mudança para Brasília ajudou a pernambucana a consolidar uma inquietação rítmica carregada desde pequena.

Dos 17 aos 26 anos, trabalhou como empregada doméstica na casa de Gerti Egler, funcionária pública que nutria interesse por música. Depois, já estimulada a perseguir algo artisticamente, Martinha mudou de carreira. Virou gari e formou uma banda de percussão com colegas. Era O Som do Lixo.

“A cada dia, eu estava num lugar. Conversava, varria, ouvia histórias. A gente fazia som com o que encontrava”, descreve. Os palcos do grupo eram preferencialmente o interior dos ônibus, sobretudo os lotados. Eventualmente, os chefes dos garis deram ordem para interromper os shows improvisados. Não foi suficiente para remover Martinha de uma carreira que brotaria mais adiante, ali mesmo no Paranoá.

Martinha começou cantando samba de coco no Tamnoá, grupo de tambores que leva o som do maracatu para a periferia. O coreto onde aconteciam os ensaios é o mesmo espaço onde, no dia do lançamento de “Rodas Griô”, moradores de rua encontraram abrigo da chuva e do frio.

A poucos metros do pavilhão habitado por esses anônimos candangos, a pernambucana cantava, a plenos pulmões, cercada de crianças, músicas como “Ciranda Ancestral”. “É como uma flor de maio, passarinhos a cantar. É como um barquinho que vai navegar. É como um peixinho no fundo do mar”. A roda musical de Martinha segue girando.

 

 

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