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Em 1968, os Beatles estavam surfando nas ondas do guru indiano Maharishi Mahesh. Ainda sob o impacto da morte do empresário Brian Epstein – que encarnava uma figura paterna –, pressão do sucesso e drogas, o grupo partiu de mala e cuia para Índia, com a desculpa de estudar meditação transcendental. Quando voltaram de viagem, trouxeram na bagagem boa parte do material que viria compor O Álbum Branco (The White Album), disco duplo homônimo que em novembro completa 50 anos.

“Você descobre mais sobre si mesmo em níveis mais profundos quando está meditando”, observaria anos depois o flautista norte-americano Paul Horn, um dos vários artistas que fizeram parte da trupe que cercava o fab four rumo ao nirvana na época. “Veja como eles ficaram produtivos em um período relativamente curto. Eles estavam no Himalaia, longe das pressões e longe do telefone”, observaria ainda o músico.

E era verdade, as canções brotavam do nada. Certa manhã, por exemplo, no café matinal, um dos vocalistas dos Beach Boys, o polêmico Mike Love, fez um comentário desafiador ao competitivo Paul McCartney. “Não seria divertido fazer uma versão soviética de Back In The USA?”, provocou, referindo-se ao grande sucesso chauvinista de 1959 escrito por Chuck Berry.

Dias depois, Paul era visto cantarolando Back In The U.S.S.R. pelos corredores da pequena comunidade onde vivia com os amigos. Tratava-se da faixa de abertura do disco que marcaria o início do fim de uma das bandas mais importantes da história da música. O rock dançante que emula a clássica fórmula vocal dos meninos da Califórnia e a rebeldia ufanista de um dos pioneiros do gênero é uma das 27 gravações inéditas disponibilizadas para os fãs em edição comemorativa.

Os registros – versões descartadas e acústicas das gravações do mítico disco, mais jams sessions – receberam novas mixagens da dupla Giles Martin (filho do produtor dos Beatles George Martin) e Sam Okell, e poderão ser adquiridas pelos fãs no formato vinil (quatro bolachões) e luxuosa caixa de CDs, a partir desta sexta-feira (9/11). Uma prévia do que vem por aí está disponível nas plataformas de streaming, como as três versões de Back In The U.S.S.R.

A casa de boneca dos Beatles
O álbum, que quase se chamou A Doll’s House, vendeu mais de 2 milhões de cópias na primeira semana, só nos EUA, e surpreendeu público e crítica por sua simplicidade e produção confusa, realçando abertamente os talentos e personalidades individuais de cada um dos integrantes. Do ponto de vista temático e sonoro, era o mais eclético e fragmentado trabalho da banda, indo do hard rock a baladas intimistas, passando por blues ácidos e sofisticadas peças clássicas.

As letras, cheias de ironia, nonsense, nostalgia e crítica social corrosiva, falavam, entre outras coisas, de chocolates, caubóis, políticos, sexo na estrada e uma cadela sheepdog, como Paul registrou na sentimental Martha My Dear. Em contraponto à verborragia visual dos anos psicodélicos, a capa branca direta do artista plástico Richard Hamilton, trazendo sutilmente o nome da banda em alto relevo, surgia quase como uma piada ou provocação. Mas não era.

Se Lennon levou Yoko Ono a tiracolo para o estúdio, George Harrison recorreu ao amigo Eric Clapton para solar, majestosamente, naquela que é a canção mais suntuosa do disco, a elegante While My Guitar Gently Weeps. Entediado, Ringo abandonou o barco por alguns dias, mas voltou e contribuiu com sua única canção solo para a banda até então. Escrita em 1963, Don’t Pass Me By traz o baterista ao piano e é um sopro de alto astral em dias tensos.

Duas faixas do álbum contribuíram para entrar de forma polêmica no imaginário popular: Helter Skelter e Piggies, ambas usadas equivocadamente pelo assassino Charles Manson, condenado em 1971 pela morte da atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, entre outras pessoas. A primeira, o rock mais agressivo da banda. A segunda, uma alegoria cínica de Harrison a partir de uma releitura de A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

“Não tinha nada a ver com policiais americanos nem com vadias californianas”, diria horrorizado o guitarrista diante das interpretações delirantes de um psicopata.

Como era de se esperar, a hegemonia das composições da dupla Lennon & McCartney sobressaem entre as 30 faixas do álbum duplo, mesmo que os dois não tenham escrito as canções juntos. Paul ataca, entre outras, com o faroeste bíblico Rocky Racoon, as meigas I Will e Blackbird, além da divertida Ob-la-di, Ob-la-da, uma brincadeira em cima de expressão em urhobo do músico nigeriano radicado em Londres Jimmy Scott.

Entre os destaques de Lennon, mais angustiado e sarcástico, estão a metalinguística Glass Onion, Dear Prudence – escrita em homenagem à irmã de Mia Farrow (atriz de O Bebê de Rosemary e ex de Woody Allen) –, a poderosa e maliciosa Happiness Is A Warm Gun, a homenagem à mãe, Julia, e a cômica The Continuing Story of Bungalow Bill, que parece ter saído de um livro do escritor britânico Rudyard Kipling.

O Álbum Branco, até por ser um acetato duplo, foi o que trouxe mais faixas de Harrison, quatro no total. Além das já citadas While My Guitar Gently Weeps e Piggies, o beatle quieto contribuiu com a mística Long, Long, Long, com seu desfecho de filme de terror, e a debochada Savoy Truffle, que ironiza a paixão do amigo Eric Clapton por chocolates. Mas poderia ter sido mais e o grosso desse material que ficou de fora entrou no primeiro disco solo do artista, o álbum triplo All Things Must Pass, até hoje considerado pelos críticos e muitos fãs o melhor registro individual de um beatle.

Uma novidade dessa edição comemorativa é a inclusão de dois singles de sucesso lançados pouco antes do disco. Lady Madonna e a épica Hey Jude, ambas com a assinatura de McCartney. Enquanto a primeira é uma alegoria rock’n’roll sobre a maternidade, a segunda, uma das canções mais queridas da banda, é um grito de solidariedade do “tio” Paul a Julian, o primeiro filho de Lennon que ele achava ser negligenciado pelo pai. A prova de que as lembranças da estadia na terra de Gandhi ainda estavam frescas: o final apoteótico foi inspirado num mantra indiano…