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Certa vez, a jornalista carioca Ana Maria Bahiana resumiu assim a trajetória dos Beatles: “Quatro garotos se encontram na rua, tocam em garagens, quartos, clubinhos, biroscas e mudam o mundo”. O roteiro do documentário How The Beatles Changed The World (2017), uma das várias estreias deste mês na Netflix, não chega a ser tão simplista, mas tem a mesma premissa.

“Para os mais jovens, pode parecer ridículo. Mas é verdade. Eles mudaram tudo”, afirma Anthony Decurtis, jornalista da Rolling Stone e um dos especialistas entrevistados para o projeto que, mais uma vez, debruça sobre o inesgotável tema dos Beatles.

Com direção de Tom O’Dell, o filme de quase duas horas mostra, por meio de imagens raras e momentos culturais e sociais relevantes da época, como esses autênticos guerreiros da classe operária britânica se tornaram verdadeiros revolucionários da música. Uma aventura que começaria em 1963.

Isso porque, em janeiro daquele ano, eles emplacariam nas paradas britânicas o segundo single da banda, Please Please Me. A faixa anunciava a chegada de um fenômeno comercial que transformou a música pop do dia para a noite, pavimentando a estrada de várias bandas posteriores. “As mudanças culturais e artísticas das quais eles foram grandes colaboradores tiveram efeito permanente na concepção do rock”, endossa Robert Christgau, do jornal Village Voice.

Relação moderna com a imprensa
Batendo recordes de venda a cada single ou álbum lançado, o sucesso e impacto do grupo não se restringiam apenas ao mundo da música, mas também em termos de comportamento, ideias sociais e posições políticas. Autor do livro Can’t Buy Me Love – Os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, Jonathan Gould destaca o relacionamento moderno do quarteto com a imprensa, comparando-os aos irreverentes irmãos Marx.

“Ninguém na idade deles e, até certo ponto, do ambiente deles, havia se comportado assim com os repórteres antes”, comenta Gould, que fala também das inovações e subversões de regras durante as gravações de discos como Rubber Soul (1965) e Revolver (1966). “Eles inventaram a ideia de tratar um álbum como se fosse uma obra de arte”, comenta.

Dentro de contexto freudiano, a banda promoveu uma onda de frenesi sexual no público feminino. Sobretudo porque, histéricas, as fãs pareciam estar tendo uma experiência orgástica diante do som e da aparência dos Beatles. “Não olhem pelas janelas para não atiça-las”, era o que diziam os policiais ao grupo, lembrou o baterista Ringo Starr.

Já o escritor e jornalista Chris Ingham defende a ideia de que o LSD e as atitudes da contracultura só se popularizaram graças aos meninos de Liverpool. “Se não fosse por esse canal chamado Beatles, essas coisas teriam ficado na Califórnia, São Francisco. A contracultura não era chamada de underground à toa”, explica.

O pioneirismo do clipe A Hard Day’s Night (1964), a transição de banda comercial para grupo experimental, a ocidentalização da meditação transcendental, enfim, todos esses aspectos inovadores da maior banda do planeta são debatidos com propriedade em How The Beatles Changed The World. Apesar do desfecho insosso, o documentário traz um belo retrato de como artistas populares fazem a diferença ao interagir com o mundo.