Dado e Bonfá desistem de lançar box depois de filho de Renato reclamar direitos
Caixa traria livreto e dois discos, uma remasterização do primeiro álbum da Legião, que completa 30 anos. e outro com sobras de estúdio e outras versões de músicas
atualizado
Compartilhar notícia

Quando descobriu o tamanho da criatura que havia ganhado vida própria por suas mãos, Renato Russo foi ao microfone e proclamou ao mar de fiéis à sua frente: “A gente está aqui no palco, mas a verdadeira Legião Urbana são vocês”. A verdadeira Legião Urbana, ainda mais numerosa do que na década de 1980, não deve estar feliz com os últimos acontecimentos que envolvem a longa batalha por direitos autorais entre o filho e único herdeiro de Renato, Giuliano Manfredini, e os dois legionários remanescentes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.
Além da turnê que começa nesta sexta-feira (23/10), em Santos, e segue por várias cidades do país (Brasília não foi incluída na agenda desta primeira temporada de shows) , Dado e Bonfá já tinham em mãos um segundo projeto fonográfico pronto e acabado. Um box que traria dois discos, um livreto e potencial para provocar êxtase nos fãs.Remasterização e novas versões
Um dos discos seria a remasterização do primeiro álbum da Legião que completa 30 anos. O segundo, traria sobras de estúdio e versões de músicas, como algumas que a Legião tocou para mostrar à gravadora EMI quando chegou de Brasília ao Rio. O diamante é a música “Setenta e Sete”, que a banda gravou e nunca lançou porque Renato não gostou do resultado e acabou desmembrando-a: a melodia inspirou “Fábrica” e parte da letra deu vida a “Tempo Perdido”.
Com o box pronto, então, Dado e Bonfá receberam o comunicado de que “Setenta e Sete” pertencia não a eles, mas a Renato Russo e a seu filho, Giuliano Manfredini. Imediatamente, publicaram também um documento que provava o contrário. Carimbado pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, a letra da música em papel timbrado da EMI comprova as assinaturas da autoria: “Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá”.
Mesmo com a comprovação, foram informados de que a música havia sido registrada em 2003 no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) por Giuliano e, assim, desistiram de lançar o box. “A questão não é dinheiro, mas moral. O herdeiro de Renato tem colocado a integridade deles em questão”, diz uma fonte ligada aos músicos que não quer se identificar.
Comunicado oficial
Na noite de terça-feira (20/10), Giuliano divulgou um comunicado em nome da Legião Urbana Produções Artísticas, sua empresa: “A decisão (sobre o cancelamento do lançamento do disco) foi tomada unilateralmente pelos demais integrantes da banda”. Dava a entender que apoiava o projeto. Em um segundo parágrafo, menciona o registro do Ecad de “Setenta e Sete”: “Os demais integrantes da banda (Dado e Bonfá) questionaram a autoria em uma tentativa de apropriação da música ‘Setenta e Sete’, composta integralmente por Renato Russo e cujos direitos estão divididos entre Renato Russo (75%) e Legião Urbana Produções Artísticas (25%), como atestam os registros do Ecad”.
Simples registros no Ecad não confirmam a autenticidade de uma autoria. No máximo, podem gerar duplicidade e provocar investigação. O assunto só seria mesmo desenrolado na Justiça, algo que os remanescentes da Legião já disseram não terem mais energia para fazer.
Perde a verdadeira Legião
O tom do terceiro parágrafo do comunicado de Giuliano joga o abacaxi no colo de Dado e Bonfá: “No ensejo de manter viva e divulgar permanentemente a obra de Renato Russo, como sempre foi manifesto desejo do artista, a Legião Urbana Produções Artísticas deu total apoio ao projeto do referido álbum e considera a decisão por parte dos demais integrantes da banda de cancelar o projeto como uma tentativa de ofuscar o trabalho de preservação da memória de Renato Russo e impedir a livre circulação de sua obra artística.”
O dilema de “Setenta e Sete” não interfere na temporada de shows que vão comemorar os 30 anos de lançamento do primeiro disco da banda — um alento aos seguidores. Por enquanto, quem mais perde com o álbum jogado na fogueira das ambições é uma das maiores bases de fãs que uma banda de rock já teve no Brasil. Ou, como diria Renato Russo, a verdadeira Legião Urbana.
