Crítica: Planeta Fome de Elza Soares é melhor disco brasileiro de 2019

O novo CD da cantora discute o Brasil contemporâneo com força, inovação e muito suingue

atualizado 13/09/2019 17:33

Elza SoaresInstagram/Divulgação

Planeta Fome, que chegou às plataformas digitais nesta sexta-feira (13/09/2019), confirma uma ideia que há muito ronda minha cabeça. Elza Soares, aos 82 anos, é a mais atual e contemporânea artista brasileira. Reverências a essa gigante figura são necessárias, sobretudo pelo momento atual do Brasil. Não se trata só de política institucional – com seus mandos e desmandos –, mas de um grito de uma sociedade incapaz de se manter inerte diante da absurda cena de um menino negro chicoteado na sala dos fundos de um supermercado. É com essa mensagem que a cantora abre o disco: “Eu não vou sucumbir, avisa na hora que tremer o chão. Amiga, é agora, segura a minha mão”.

Em 2002, Elza cantou para o Brasil inteiro ouvir que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Dezessete anos depois, ela volta à carga, mas mostrando quanto o caminho de luta colocou a semente de mudança no país. “A carne mais barata do mercado não tá mais de graça. O que não valia nada, agora vale uma tonelada”, sacramenta a artista.

Instagram/Reprodução

Ouvir Planeta Fome é escutar uma crônica sobre nosso país, sobre a cultura mundial. Em Menino, durante deliciosos 46 segundos, a cantora introduz Brasis (definido como um carimbó-enredo), para discutir a desigualdade de uma nação que parece ser dois mundos num só. A atualidade de Elza salta ainda mais aos olhos em Blá Blá Blá, um rap ao lado de BNegão e Pedro Loureiro.

Aí chega País do Sonho, quando a cantora num hit (quase) radiofônico busca mostrar um quê de esperança: e, convenhamos, se ela que já viu tanto tem coragem de acreditar no Brasil, só nos resta seguir essa voz! “O Brasil só está gripado, vai passar logo”, acalmou Elza, em entrevista ao O Globo.

Sem medo de um diagnóstico apressado, dá para cravar. Fechem as listas, o melhor disco nacional do ano se chama Planeta Fome, de Elza Soares.

Avaliação: Excelente

P.S.: é impossível não elogiar a incrível capa desenhada pela cartunista Laerte!

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