Toni Morrison, prêmio Nobel de Literatura, morre aos 88 anos

Escritora americana, autora de Amada, foi a primeira mulher negra a ser escolhida pelo Prêmio Nobel de Literatura, em 1993

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atualizado 06/08/2019 14:20

A escritora e Prêmio Nobel de Literatura Toni Morrison morreu nessa segunda-feira (05/08/2019) aos 88 anos. A informação foi dada à New York Magazine por uma fonte de sua editora, a Knopf, e confirmada por um amigo à agência Associated Press. A causa da morte ainda não foi divulgada.

Toni era mais conhecida pelo romance Amada, que lhe rendeu o Pulitzer de ficção em 1988. Jazz (1992) e Paraíso (1997) completaram uma espécie de trilogia. Mas mesmo antes de sua conclusão, em 1993, lhe foi atribuído o Prêmio Nobel de Literatura e ela se tornou a primeira mulher negra a ser escolhida para a distinção. Segundo o comitê da Academia Sueca, o prêmio foi dado a Toni, uma escritora “que, em romances caracterizados por força visionária e teor poético, dá vida a um aspecto essencial da realidade americana”.

Alguns dos livros de Toni Morrison publicados no Brasil:

Carreira

Em 2015, ela publicou seu último romance, o 11º, intitulado Deus Ajude Essa Criança (nove de seus livros foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras).

Antes de se tornar uma autora conhecida mundialmente, Toni trabalhou como editora para a Random House por 19 anos, revelando uma geração de escritores como Angela Davis, Gayl Jones e Toni Cade Bambara. Ela também foi professora da Universidade de Princeton entre 1989 e 2006.

Toni tornou-se famosa nos Estados Unidos por apresentar a história dos afro-americanos (por ser uma, ela se sentia no direito de usar a expressão “negros”) não apenas como figuras determinantes na construção do país mas principalmente como alvo de uma segregação que ainda se impõe, mesmo que de forma mais velada.

Nascida em 1931 como Chloe Anthony Wofford (adotou o pseudônimo por considerar seu primeiro nome de difícil pronunciação) na cidade de Lorain, Ohio, Toni foi obrigada ainda pequena a se mudar com os pais para o norte dos Estados Unidos, para escapar dos problemas raciais do sul. A situação marcou profundamente sua formação e fez de sua obra um exemplo de histórias em que a cor da pele dos personagens é determinante.

Ao longo dos anos, desenvolveu uma prosa seca, direta, desprovida de dramalhões e com uma ponta, ainda que pequena, de otimismo. Habituou-se ainda a tratar de temas fortes em sua ficção, como pedofilia, prostituição e preconceito racial. Por isso, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, tornando-se a primeira mulher negra a ser honrada com a premiação.

Vinda ao Brasil

Em 2006, Toni veio ao Brasil, onde participou da 4ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Foi a mesa mais concorrida daquele evento. Durante a conversa, revelou seu desconforto com o rótulo de representante da literatura negra e feminina – chegou a mudar bruscamente de assunto, respondendo ter ficado feliz com o Nobel de Literatura, o que arrancou risos da plateia.

Toni foi incisiva na Flip ao citar o peso de 250 anos de escravidão, garantindo que pretendia tornar a realidade da comunidade afro-americana em algo bonito, mas “palatável”.

Em 2005, em entrevista exclusiva ao Estado, Toni explicou o motivo da presença constante de mulheres lascivas em sua prosa: “Uma mulher ‘sem lei’ ou ‘fora da lei’ apresenta um rico território para se examinar uma cultura. E sempre foi um terreno fértil na literatura: Antígona, Hester Prynne (de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne), Medeia, Sylvia Plath, Emma Bovary, Anna Karenina – eu poderia continuar citando infinitamente”.

Arte politizada

Ao escrever sobre negros, a autora americana garantiu que não utilizava dados biográficos. “Cada um dos meus romances tem sido um esforço de examinar outras percepções, comportamentos contraditórios, o impacto do racismo ‘legalizado’ e contínuo contra aqueles que insistiram em resistir, sobreviver e triunfar. Algumas daquelas estratégias funcionam, outras falham”, disse.

Toni via também uma dificuldade em dissociar arte de política. “A arte determinada a ser apolítica é algo meramente favorável a manter o status quo, portanto, acaba agindo como algo político de qualquer forma”, disse. “O debate completo sobre arte política versus arte não política é algo não apenas político mas também relativamente novo. Afinal, quem teria questionado sobre isso a respeito de Shakespeare, Tolstói ou qualquer outro antes de 1939 e da eclosão da guerra?”

E a escritora americana revelou ser conhecedora da literatura brasileira. “A indiferença dos editores norte-americanos em traduzir livros de outros países é notória. Apenas conhecemos alguns poucos. Mas já li Jorge Amado, Nélida Piñon, Clarice Lispector e Rubem Fonseca. Atualmente, há um incentivo maior, graças ao Pen e seus prêmios literários, para aumentar o número de traduções de todas as partes do mundo. O que certamente é um alívio para nossa impenetrável estupidez.”

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